por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoNo meu tempo de menino, quando a cidade não ia além da chamada Escola Rural, na saída para a estrada do igarapé do Curuçambá e a Tv. Dr. Machado se findava logo após a barraca da dona Ana Barata, vendedora do melhor mingau do mercado, tínhamos limitadas opções para cortar o cabelo.

Não existiam os sofisticados salões de hoje, onde o cidadão se estatela numa cadeira reclinável, coloca a cabeça numa espécie de terrina e ao redor fica um sujeito ensaboando-lhe a cara, tricotando-lhe as madeixas, besuntando-o com produtos os mais diversos, ao fim do que vem a conta, não raro salgada, como se a pessoa fosse uma Cleópatra tal o refino do tratamento que lhe é dispensado.

Por essas e outras, há mais de trinta anos não abro mão da minha contumaz visita à combalida barbearia do Edy, nas imediações do Jardim Independência onde morei por mais de quinze anos aqui em Belém, ambiente no qual se demoram apenas duas cadeiras de precária conservação e o som estridente de um rádio teoricamente visa agradar quem lá corajosamente se aventura.

BarbeariaBarbearia das antigas. Foto: Antônio Fonseca/Flickr

Toda vez que encaro o sacrifício, não deixo de lembrar as parcas escolhas que a garotada tinha em Óbidos na hora de podar a moita. Não iam além de cinco ou seis, salvo engano, os profissionais da tesoura, que lembro nitidamente serem seu Jacó (de quem eu era freguês), seu Mateus, o Geraldo, o João Barbeiro, o Cobra e o Laurentino, este último estabelecido em meia porta ali na ladeira do mercado, ao pegado da loja Formosa Obidense do italiano Silvestre Savino, mão na roda para quem estava no comércio, porém com a desvantagem do cliente sair de lá parecido com um índio mura, quase escalpelado.

Foi ele, inclusive, que entre impropérios pelas minhas reclamações, cortou meu cabelo para a solenidade da primeira comunhão na Igreja de Sant’Ana e basta olhar a foto para concluir que a máquina zero fez miséria na minha cabeça, como se a tivessem enfiado num apontador de lápis, que quase me fez mudar de religião.

Falando nisso, outro equipamento da profissão desapareceu por completo – as máquinas manuais de tosquiar os incautos. Via de regra mal amoladas, iam puxando os tufos pela raiz desde os confins da nuca até no alto, quando o sofrido freguês, prestes a sucumbir pela tortura, subia e descia nas famigeradas cadeiras entalhadas de ferro batido, num movimento que buscava minorar as agruras de quem pagava para sofrer.

Que eu lembre, mestre Jacó era mais light.

Simpático e cordial, suas máquinas, tesouras e navalhas estavam sempre afiadas e ele apenas pedia para que ficássemos quietos para não corrermos o risco de algum acidente pelo deslize involuntário das lâminas.

Além desse item de expressivo conforto, ficava papeando o tempo todo, contando histórias engraçadas, diluindo com num dedo de prosa aquele lapso de tempo cruel, onde envolto num maldito lençol branco suávamos em bicas, num calorão de quase quarenta graus.

Nas raras vezes que me aventurei com os outros, com a honrosa exceção do seu Mateus, fui severamente admoestado pela minha constante inquietação na “cadeira do dragão”, ora pelos malcriados protestos quando a famigerada máquina arrancava sem piedade minha farta cabeleira, ora porque, ao ser utilizada a tesoura, voavam fragmentos de pelos em meus olhos levando-me a lacrimejar.

Há duas semanas, estive novamente na barbearia do Edy, que me recebeu com a costumeira hospitalidade. Já usei cabelo grande na juventude, símbolo maior que foi da Jovem Guarda e da era dos Beatles, mas atualmente sou incapaz de tolerar quando o mesmo começa a botar as unhas de fora.

E o que o tempo ainda não se incumbiu de levar, fica por conta da habilidade do meu velho amigo, cuja solicitude em receber-me o leva a oferecer-me a leitura do jornal do dia, de preferência a página policial, pela qual ele nutre especial predileção. Polidamente agradeço e espero resignadamente chegar a minha vez, rezando para que tudo passe sem muita demora.

Sabedor da minha abjeção pelo sensacionalismo dos repórteres que farejam as desgraças alheias, dessa última vez aguardava-me uma surpresa. O Edy alardeou que comprara um CD para fazer escoar o tempo, enquanto minha vez não chegava.

Com ar de subentendidos, dirigiu-se a um fanhoso micro-system, ligou a engenhoca e colocou o volume nas alturas olhando-me com indisfarçável expectativa de aprovação. O que veio a seguir me causou profundo desânimo. A música que reverberou no ambiente foi o Melô do Piripipi da Gretchen, brega emblemático em que ela geme, se insinua, dá gritinhos e chegou a mirificar pela dança plateias masculinas inteiras, quando ainda tinha cara e outros aproveitamentos para isso.

Tenha dó! Liberado, paguei a conta, dei a habitual gorjeta e rumei aliviado na direção do meu carro, com uma ponta de saudade do seu Jacó e até mesmo do rabugento velho Laurentino.

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* É Advogado e cronista. Vice-Presidente da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.

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3 Comentários em: Os barbeiros da minha terra

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