Jeso Carneiro

Triste de mim

por Sérgio Freire (*)

Sabe… eu hoje acordei triste. Uma vontade de chorar um choro sozinho. Uma tristeza mansa, minha, de não incomodar ninguém. Porque às vezes a gente precisa chorar só pra gente.

A tristeza não é ruim, não. A tristeza é uma falha boa da felicidade para que a gente não se acomode e perca a atenção na vida. Aí eu chorei. Tomando banho, sem fazer barulho. Não dava para saber o que era lágrima e o que era água do chuveiro. Ia tudo para o ralo.

A água, com o sujo do meu corpo, e as lágrimas, com as tristezas da minha alma. Enquanto eu chorava e as águas caiam, eu me perguntava onde havia errado a escolha. No resto, a vida segue legal. Mas a minha escolha errada naquilo me acompanha como uma nuvem de desenho animado, que não sai de cima nunca, trovejando, relampeando e chovendo sobre mim.

As pessoas me veem feliz, sorrindo. Eu sou assim de fato: feliz. Mas caio aos pés da tristeza vez por outra. Sem força, largado, como se tivesse de me penitenciar. Eu continuo sorriso porque ninguém tem nada a ver com a minha tristeza. Daí que eu chorei no carro, na garagem, com o banco arreado, como as minhas forças.

O carro é um dos melhores lugares para chorar para si. Como eu uso óculos, depois ainda tive de limpar as bolinhas brancas que ficam quando secam as lágrimas. A tristeza é esse pó branco que fica depois que as lágrimas secam. Limpei com a beira da camisa e fui. Tinha de fazer supermercado. A caixa nem percebeu que eu estava triste. Tempos difíceis. E ninguém sabe.

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* Amazonense, é escritor, professor doutor e tradutor. Além de blogueiro.  Escreve regularmente neste blog.

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