Jeso Carneiro

Cabanagem e os Mundurucus

Historiador santareno, o padre Sidney Canto dá mais informações a propósito do post Fuga para Ecuipiranga, que aborda a Cabanagem:

Jeso, não li o artigo que colocas como “nota” da minha pílula acima. Artigo este da lavra do Manuel Dutra e do Celivaldo Carneiro sobre a Cabanagem.

Vejo que muito já se escreveu ou ainda se escreve sobre esse assunto. O próprio João Santos tem um pequeno livro, “Cabanagem em Santarém”, que considero bom. O problema é que muitas das fontes sobre o assunto foram escritas pelos VENCEDORES. Não conheço muitas fontes escritas pelos DERROTADOS (sim existem algumas). A maioria delas reclamando da gestão dos líderes cabanos que não deram apoio necessário ao movimento, não somente logístico de guerra, mas também de comida.

Recentemente estive lendo o “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, um livro do jornalista Leandro Narloch, o qual sugiro a leitura para os amantes da História. Lendo a referida obra, comecei a traçar uma semelhança com alguns fatos da História da nossa Santarém e Região.

O primeiro fato que me veio à mente foi a Cabanagem.

Primeiramente porque se fala da vitória cabana como algo extraordinário, e não foi. Aliás, no início do século XIX o Grão Pará estava abandonado. Os governantes se viam preocupados com o estado das coisas e muito pouco se fez depois da proclamação da tão sonhada independência. O comércio continuou nas mãos dos portugueses, os índios continuaram sem receber salários dignos (quase escravidão) e os escravos continuaram com apenas o sonho de liberdade.

Pois bem, o fato é que logo depois do auge do governo cabano, com Eduardo Angelim, veio a repressão de Soares de Andréa (tema desse meu post). O que pouco se fala ou se comenta é que o sucesso dessa REPRESSÃO se deve aos ÍNDIOS. Sim, aos índios, mas especificamente (no caso da nossa região) aos MUNDURUCU. E também a dois padres obidenses: os irmãos Sanches de Brito.

Os Mundurucus foram fundamentais no cerco de Ecuipiranga (que ainda será assunto de um outro post). Sem eles, não teria dado certo. Motivo: não havia “legais” suficientes para a luta. Os “homens da cidade e das guardas” haviam sido mortos ou passado para o lado dos cabanos. Outros fugiram e não voltaram. Para compor uma força de guerra contra os cabanos o jeito foi recorrer a um inimigo natural: os índios Mundurucu.

Sim, os mundurucu formavam, em sua origem, uma tropa de índios de corso, sempre em luta contra outras tribos. Os cabanos, em sua maioria, eram descendentes das tribos inimigas dos mundurucus (maués, arapiuns, comarus, tubinambaranas etc…). Para completar, o Padre Antonio Sanches de Brito organizou os mundurucus da missão de Juruti para a luta. Toda a nação foi mobilizada pelos tuxauás, que estavam sobre o comando do padre.

Como os mundurucus tinham o costume de “cortar as cabeças dos vencidos” o saldo foi o que hoje chamamos de “rosários cabanos”. Cabeças e mais cabeças de derrotados foram enviadas à capital. Outras fizeram parte do ornamento preferido dos mundurucus, um verdadeiro troféu de guerra, o PARINÁ, que nada mais é do que a cabeça mumificada dos inimigos derrotados na guerra.

Inclua-se, portanto, na história que não foram somente os “legalistas” que “ganharam” (?) a cabanagem. Os Mundurucus também. Graças a influência de um padre obidense que se intilulava em suas cartas contra os cabanos como “Juiz de PAZ e acérrimo INIMIGO dos Ladrões”.

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