Jeso Carneiro

Greve, resistência e Freud

Professor universitário em Belém, Válber Almeida comenta a Frase do dia, de ontem:

Beleza, um conhecido reacionário dando lições sobre greve e psicanálise. Não sem razão usa a psicanálise e não a história, a sociologia e a economia para desferir suas “sabedorias” sobre assunto tão complexo.

Tudo bem, na psicanálise tudo é possível. Mas é bom lembrar, até para não aceitarmos tão passivamente a traição que o sábio perpetra ao conceito, que a idéia de “princípio do prazer” está muito mais colada à contestação da autoridade paterna do que à sua aceitação passiva.

O físico titulado “professor emérito” deveria se envergonhar por usar de modo tão espúrio o conceito referido.

Na sua cabeça emérita, de físico de elevadíssimo nível, tudo o mais no comportamento humano deve ser rejeitado em nome de uma ideia de “princípio do prazer” que ele trata muito mais como o princípio da utilidade neoclássica e neocon do que como força de rebeldia, transformação e de vontade vital. Deve circular no seu imaginário que Freud era economista.

O princípio do prazer pode ser usado sim, deste modo empobrecido e infiel para que o emérito físico e, pelo visto, fracassado psicanalista social, escreva esta pérola sobre a greve, cheia de espertezas intelectuais para enganar neobobos, mas se o sábio em questão se desse o trabalho de ler um pouco melhor a vasta literatura psicanalítica e filosófica poderia se convencer também de que o “princípio do prazer” explica a greve por outros meios: ele estimula o espírito de rebeldia, de resistência e de transformação de uma realidade laboral que, com excessão dos privilegiados que vivem pendurados em cargos de confiança nas universidades, de tão precarizada que anda, tem se tornado sofrível e debilitante para grande parcela de professores.

É só ele ler um pouquinho os inúmeros artigos científicos que tratam da precarização da condição do professor universitário para que ele amadureça e enriqueça um pouco mais a sua visão de mundo, como se deseja de um “emérito”. Em síntese, um artigo que está mais para coisa de sabichão do que de sábio.

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