Jeso Carneiro

Minha dose matinal de leitura com fricção. Por Jeso Carneiro

Minha dose matinal de leitura com fricção. Por Jeso Carneiro

É preciso nos impor a leitura com fricção. Enquanto o mundo desperta na urgência rasa e ruidosa das notificações, se faz necessário necessário, ao amanhecer, alimentar-se da densidade rosiana, da espessura narrativa faulkneriana, da introspecção abissal lispectorclariceana.

Já algum tempo exijo-me literatura que me desestabilize logo nas primeiras horas da manhã, que me empurre adiante para, no parágrafo seguinte, me obrigue a retroceder.

Voltar atrás, reler a linha, recuar absolutamente quantas casas forem necessárias no tabuleiro da sintaxe para que a minha lógica cartesiana, tão domesticada pelo cotidiano, não entre em parafuso diante da imensidão do texto.

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Cada dia que desponta reivindico essa neurológica agonia. É uma dança literária exaustiva de passo à frente e passo atrás, a perseguição de um rumo que, definitivamente, não se come nem se consome às pressas, com garfadas cegas dadas a olho. Essa literatura intrincada, de digestão lenta, tem sido o meu café da manhã.

É ela que me resgata e me afasta violentamente do indigesto fast food intelectual que as timelines das redes sociais e as manchetes fugazes dos jornais me oferecem ao longo do dia.

O que eu exijo das páginas não é a fluidez anestésica. Quero a alquimia forjada nas palavras, bem longe do molho mediano, daquela textura meia-boca que a Inteligência Artificial matematicamente programada oferece e com a qual a internet de hoje inunda as nossas retinas. A máquina, por sua própria natureza, entrega a segurança da média, a frase asséptica, o raciocínio que não choca, não sangra. A grande literatura, por outro lado, exige o risco, a imperfeição e o abismo.

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E é exatamente por isso que leio: para me preservar da superficialidade e, simultaneamente, para me endoidar.

É saudável, como um supino para os músculos, mergulhar de cabeça na vertigem de quem escolhe os seus parágrafos, os seus adjetivos e as suas proparoxítonas a dedo. Quero tatear o texto do escritor, da escritora que arrancou a palavra exata do seu próprio peito usando o fórceps das emoções. A leitura que nos transforma não nasce pronta nem embalada a vácuo; ela é parida à força, extraída na dor e na genialidade.

Ao abrir, por exemplo, as páginas da novela Buriti, de Guimarães Rosa, é com essa fome insurgente que me coloco diante da obra. Recuso o consumo rápido.

Aceito de bom grado, resoluto, a agonia da mastigação lenta, ciente de que a verdadeira revelação estética mora no esforço da travessia. Ler nas manhãs de hoje tornou-se, para mim, o mais radical dos protestos contra a pressa.


∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.

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