Jeso Carneiro

Ódio, egos inflados e a nossa insignificância nas mídias sociais. Por Célia Carneiro

Ódio, egos inflados e a nossa insignificância nas mídias sociais. Por Célia Carneiro
Caim e Abel, em reprodução de tela de Danielle Crispim (1618)

As mídias sociais se tornaram palco – e trouxeram à tona – um dos lados mais comuns (e obscuros!) presentes na experiência humana: os afetos do ódio, do ressentimento e do rancor.

Esses afetos sempre existiram, a história milenar de Caim e Abel está aí pra exemplificar isso, mas nada soa tão latente como agora!

Célia *

Talvez porque esses sentimentos ganharam maior visibilidade no mundo digital o que antes ficava restrito a uma experiência mais pessoal. A máxima “Amarás teu próximo como a ti mesmo” contida no Evangelho de Marcos, é também encontrada no Antigo Testamento e foi repetida pelo apóstolo Paulo.

Para a teologia cristã, que fundamenta e alicerça toda a civilização ocidental, só há salvação pelo amor. Mas, é possível amar toda a humanidade? Será que é possível amar todos os tipos de pessoas e amá-las o tempo todo?

 

O ódio é um dos sentimentos mais reprimidos, negados e combatidos, e ainda assim o homem não consegue viver sem odiar. Contudo, será que odiar é exclusividade de pessoas más, de mal com a vida e dos vilões de filmes e novelas? Será que esse sentimento não faz parte do nosso cotidiano (meu e seu!) em situações corriqueiras e até nas mais complexas?

Quero te convidar a fazer um exercício. Pense numa pessoa que você odeia ou que você já odiou. Ou numa situação que aconteceu que fez você odiar essa pessoa. E não me venha com conversa mole que não odeia ninguém porque, no mínimo, ou você não se conhece ou você é um tremendo trapaceiro. Todo mundo em algum momento na vida já odiou alguém.

Na história dos dois irmãos em Gênesis, a inveja e a ira dominaram Caim e ele acaba matando o irmão. Caim percebeu que Abel era “mais protegido por Deus” despertando-lhe o desafeto. A própria estrutura do mundo muitas das vezes nos faz ressentidos.

Tem gente que se sente oprimido pelo simples fato do outro existir. Especialmente, se esse outro tiver mais sucesso, for mais bonito, mais inteligente e até mais rico. Quer um conselho? Acostume-se! Sempre existirão pessoas melhores que eu e você. Muitas das vezes o objeto desse sentimento é um inimigo que mora ao lado.

 

Se você já passou pela experiência de um inventário sabe do que eu estou falando. Sim, partilha de bens são um estimulador natural desse afeto em ambiente familiar. Odiar há quilômetros de distância é bem mais fácil, difícil é quando você tem que conviver com ele no próprio quintal de casa.
Longe ou perto, saiba: onde tem relacionamento humano sempre haverá ódio.

E mesmo que você tenha vocação ou um estilo de vida mais ermitão – vivendo como um monge distante dos barulhos e seduções do mundo, por exemplo – você não passará imune a essa experiência. Sempre vai existir um outro que “te encha o saco” ou aquela língua venenosa sempre pronta a te chicotear com palavras, seja na sua presença ou na sua ausência.

E por que esse sentimento é um fenômeno tão presente no mundo virtual? Para o filósofo Felipe Pondé, professor de filosofia em SP, “as redes sociais são a maior ferramenta de luta contra a invisibilidade no mundo contemporâneo”.

 

Ele argumenta que um dos sofrimentos que o homem moderno enfrenta é a sensação de total invisibilidade por conta do anonimato do seu próprio cotidiano. Afinal, a grande maioria das pessoas quer ser vista, notada. Ele sustenta que há um “certo sofrimento na alma humana” ao se perceber completamente ignorada.

Para combater esse sentimento esmagador de insignificância as redes sociais se tornaram uma grande vitrine de mentiras e de egos inflados, onde se dispersa ódio, ressentimento e rancor.

A profética frase do artista plástico Andy Warhol, na década de setenta dizia que “um dia, todos teriam direito a 15 minutos de fama”.

Para Pondé, hoje, não precisamos de tanto tempo assim, basta que nos deem apenas um minuto de atenção – e já estaremos dispostos a virar celebridades instantâneas, muitos, inclusive – a qualquer preço.


— * Célia Ilma Carneiro, santarena, é historiadora, conservadora, cristã e não feminista. Mora em Florianópolis (SC) e escreve regularmente neste blog.

LEIA também de Célia Carneiro: Memento mori. E a gente vive distraído com bobagens.

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