Jeso Carneiro

O trapiche

Lobo D"Almada
Navio Lobo D'Almada, da antiga frota da SNAAPP. Arquivo fotográfico de Ignácio Sousa Neto

por Célio Simões (*)

Quem chegava a Óbidos nos inconfundíveis navios da SNAAPP – o antigo Serviço de Navegação da Amazônia e Administração dos Portos do Pará – fosse ele o Augusto Montenegro, o Lauro Sodré, o Leopoldo Peres ou o Lobo d’Almada, invariavelmente desembarcava no vistoso trapiche de madeira, símbolo do porto da cidade, que estruturado na robustez da mais pura itaúba, avançava perau adentro, para logo adiante bifurcar-se em forma da letra “T”, onde ficava o atracadouro.

Era uma espécie de passarela de uns quinze metros de largura por uns sessenta de comprimento, saído praticamente do pórtico da Usina Paulista de Aniagem com seu fervilhante movimento de embarque de juta, construído num tempo em que a madeira de lei, ainda barata, bamburrava em todos os recantos da floresta amazônica, sendo extraída, beneficiada e comercializada sem qualquer controle, por isso o portento de sua estrutura de grossos pilares e inabaláveis estivas, a suportar o vai-e-vem dos veículos pesados abarrotados de produtos regionais que abasteciam os navios cargueiros.

Naquele trapiche desembarcaram em tempos idos, políticos, autoridades, os famosos e anônimos da vida, principalmente estes, que na frota branca estatal, nos não menos famosos navios gaiolas (Aquidabam, Moacyr, Barão de Cametá, Ayapuá, Sobral Santos, etc.) ou nas centenas de embarcações regionais que diuturnamente singram a malha aquaviária, sempre neles tiveram seu meio de transporte acessível e barato, fazendo do Rio Amazonas e seus afluentes “a sua rua”, conforme diria mais tarde o poeta Rui Barata, em composição musical de invulgar beleza.

Se no período útil do dia o inconfundível pontão servia aos interesses econômicos da cidade, sua natural vocação de porta de entrada e saída de mercadoria começava a mudar no final da tarde, quando um grupo de aficionados – a quem Dino Priante apropriadamente chamou de “pescadores urbanos” – ali chegava com linhas e anzóis, para arriscar a sorte nas piramutabas e piracatingas, capturadas com relativa facilidade do seio profundo daquelas águas barrentas, até mesmo pelo pescador mais neófito.

Na piracema de jaraqui, finzinho de maio e início de junho (quando hoje tem lugar o animado “FESTIVAL DO JARAQUI”) o trapiche regurgitava de hábeis tarrafiadores, que na porfia da captura faziam transbordar o madeirame de tanto peixe.

Eram momentos de descontração, brincadeiras e gozação. Se o sujeito conseguia fisgar o peixe, embora sob aplausos, tinha que suportar as críticas por causa do tamanho, quando muito pequena a presa. Se errar o lance, era ser rotulado de “panema”. Capturar bacú era demonstração de inabilidade – e haja paciência para agüentar apupos – justamente porque se trata de um peixe desqualificado, sem valor comercial ou culinário, de aspecto repulsivo e que ninguém se atrevia a levar para casa.

A “vingança” era retalhá-lo à faca, mandando-o de volta ao rio, para deleite das piranhas. Com arraia acontecia coisa parecida. Servida hoje em forma de deliciosas moquecas, especialmente em São Luís, Fortaleza ou Natal, naqueles tempos recuados, quando a fartura de pescado (sem a perseguição das geleiras e redes de arrastão), fazia a delícia dos ribeirinhos, arraia era repasto de suíno. Os tempos mudaram. Hoje tudo serve, até muçum pescado na vala…

Não obstante, o trapiche para os jovens tinha seu especial encanto e não raro, algumas utilidades, umas visíveis e outras nem tanto. Dentre as visíveis, arrolava-se sua vocação para trampolim, pois era dali que o molecório pulava de ponta cabeça para dentro d’água, sem qualquer receio das horripilantes piraíbas, gigantes que o imaginário popular afirmava capazes de devorar uma pessoa adulta sem sequer sentir dor de dente.

Cheguei a ver muitos desses colossos numa época que o Odenor Nunes cismou de capturá-los no meio-fio da correnteza, na parte mais profunda do rio, para rebocá-los ao tijuco da orla, onde eram vendidas a preços módicos à população de baixa renda. Realmente o tamanho assustava, porém eu não sei dizer, numa avaliação mais realista, se as piraíbas eram muito grandes ou se eu é que era pequeno.

Já de sua utilidade invisível eu posso falar de cátedra, porque esta toca mais de perto o coração. Cessada a azáfama das operações portuárias, aquele cenário bíblico de homens transportando nas costas os fardos prensados de juta vindos da CAIBA e da ANIAGEM, com destino aos portos de Belém, do Rio de Janeiro ou da Europa, remanescia além do agradável cheiro de maresia trazida pela viração, uma quietude inspiradora de infinita paz, convidativa aos assuntos do coração.

Nesse recanto de doce encanto, conivente e convidativo, é que a gente aguardava a saída da lua, nos inesquecíveis verões de muita fartura de alimento, calor maior ainda, banhos sem conta no gélido e translúcido igarapé do Curuçambá, nos desfiladeiros do Porto de Cima e as esperadas domingueiras na Assembléia Recreativa Pauxís, rosto colado na garota curtindo os sucessos da jovem guarda, onde despontavam nomes como Roberto e Erasmo Carlos, Vanderlea, Renato e seus Blue Caps, Jerry Adriani, Vanderley Cardoso, Ronnie Von, Ed Wilson, Leno e Liliam, Martinha, The Jet Black’s, Márcio Greyck, Trio Melodia, Trio Esperança, Reginaldo Rossi, Os Vips, Katia Cilene, Os Jovens, Os Incríveis, José Roberto, Sérgio Reis, Bobby di Carlo, Silvinha, Eduardo Araújo, Waldirene, Golden Boys e outros que agora não recordo, até mesmo porque alguns desapareceram por completo do cenário artístico nacional.

Espetáculo à parte no trapiche era apreciar o luar, em especial quando ficava ele refletido na estreitura do Rio Amazonas, formando na água barrenta um rastro sinuoso e prateado, tão forte que chegava a doer na vista. Nesses momentos mágicos baixava a inspiração e o mais inibido dos jovens era capaz de transmudar-se em improvisado poeta, para confidenciar à sua amada palavras ditadas pela alma em chamas, na busca da esperada e nem sempre fácil conquista.

Certa feita, em sôfrego idílio com uma “jovem manceba” nos escondidos do cais, onde a deficiente iluminação pública permitia certas ousadias, contemplando a lua que surgia esplendorosa por detrás da Serra da Escama, improvisei a poética declaração de amor da qual me arrependo até hoje, pela inusitada resposta que recebi:

“Quanto olho a lua, te vejo,
refletida no luar…
Teu corpo lindo, eu desejo,
com toda ternura amar!”

– É mesmo? Pois vê se cresce e aparece!…

Faltou-lhe sensibilidade. O que fazer? Frustração à parte, nessa ambiência de encantador fascínio vez por outra surgia alguém com um violão e a seresta arrastava-se a desoras, para só encerrar-se na madrugada seguinte, já com seu Salviano, o diligente trapicheiro, meio amuado pela interrupção de seu sagrado jogo de dama, exortando que todos fossem embora, não sem antes convidar os presentes a provar do saboroso café por ele mesmo preparado e que o mantinha insone em sua permanente e prazerosa vigília.

Lembro com nitidez do dia em que estava atracado no trapiche o enorme cargueiro carioca “Almirante Alexandrino” com os cabos de vante e de ré amarrados nos pontões do cais, numa distância considerável. Sem carga nos porões, porque ainda não começara a faina dos estivadores para abarrotá-lo de juta prensada, o paquete flutuava por inteiro, ficando sua borda livre a uns quinze ou vinte metros acima da linha d’água.

Foi quando um reduzido grupo de garotos resolveu bancar o Tarzan e subir ao castelo de popa do imponente navio escalando com as mãos nuas os referidos cabos (da grossura da corda do Círio de Nazaré) sendo despiciendo acrescentar que eu estava entre eles na fila que rapidamente se formou para tentar a arriscada proeza. Dada a distância entre a partida e a chegada, um por um daqueles pequenos e irresponsáveis aventureiros ia caindo na água a meio caminho do objetivo, vencidos pelo cansaço e pelo torpor que dominava a musculatura, sujeita a descomunal esforço.

Pois bem, quando me viu na fila, seu Salviano deu uma bronca, ele que era muito amigo de meu pai e jamais iria se omitir de alertar-me do perigo que aquilo significava. Com expressão severa, disse que contaria para o “meu velho” e de tudo fez para demover-me daquela inconseqüente doidice. Porém fui em frente… e confesso que ia me dando muito mal!

De físico minguado, quase “a materialização do meu próprio ectoplasma” (como diria o conterrâneo escritor Ildefonso Guimarães) eu já percorrera uns bons metros no cabo, embaixo de mim não havia mais a praia e sim o plácido remanso do Amazonas, quando as forças por completo me faltaram e sem sequer olhar para baixo, despenquei no vazio a quase dez metros de altura.

Nesse momento surgiu não sei de onde um caboclo remando em sua igarité e meu corpo penetrou na água bem próximo de seu bombordo, sendo fácil de prever o que aconteceria se eu tivesse caído exatamente dentro dela… Só quem achou alguma graça no episódio foi o irreverente Tenente “Mocinho”, gozador contumaz, que desfrutando do ócio e das delícias de sua polpuda reserva remunerada, vivia perambulando pelo cais à cata de novidades. Pelo menos foi o que deduzi de seu comentário anedótico:- “Célio, devias ter caído bem dentro da canoa, porque assim tu nem molhava a tua roupa…”

Mas o trapiche era assim mesmo. Com sua diversidade de ocorrências e fofocas, rivalizava em pé de igualdade com o Mercado e ambos, com o famigerado “sereno” das festas grã-finas ou populares, onde a vida alheia era passada num rigoroso pente fino. E nem era para menos, pois se chegava a Óbidos, nas catraias da Panair do Brasil, habilmente pilotadas pelo prestimoso folclorista “Cachimbo” sob as ordens e o olhar atento do seu agente na região, o gente fina Titilo Savino e tinham no velho pontão seu porto mais que seguro. E quem nele se encontrava, por dever de ofício ou por diletantismo, acabava arrolado dentre as mais bem informadas pessoas da cidade, testemunha ocular dos acontecimentos, naquela espécie de palco ao ar livre e com entrada sempre franca aos seus fiéis freqüentadores.

Uma vez eu estava em casa às voltas com minhas lições do colégio e ouvi dizer, por um passante que vinha espalhando a novidade, que algo de extraordinário estava ocorrendo no trapiche, tanto que para lá haviam se deslocado o Prefeito, o Presidente da Câmara de Vereadores, o Bispo Dom Floriano e demais pessoas importantes da cidade.

Deixei meus afazeres e fui até lá, sendo que no caminho encontrei o despachante Eloy Canuto, obtendo dele o esclarecimento de que uma embarcação inglesa atracara no porto, fato que constatei logo depois, ao deparar-me com a corveta britânica “Leopard”, que em viagem de adestramento de seus marinheiros resolvera fazer escala, aproveitando para reabastecer. O Comandante, um oficial da Real Marinha Britânica alto, forte e vermelhão, que fez questão de passear a pé pelas ladeiras da cidade na companhia de seus ilustres anfitriões, presenteou o Dr. Hélio Marinho – prefeito à época – com a flâmula e um significativo emblema de sua belonave, contendo em alto relevo a imagem do felino que lhe emprestava o nome. Bons tempos aqueles, quando a cidade era digna dessas visitas.

Sou um saudosista de carteirinha. Não deixa de ser gratificante recordar os dourados anos em que éramos felizes, felicidade essa advinda do simples fato de que ignorávamos a existência de coisas extremamente complicadas que aos adultos só trazem expectativa, estresse e via de regra, solenes aborrecimentos. Sem dinheiro, não éramos obrigados ao controle de cartões de crédito, talões de cheques, recolhimentos para o imposto de renda, pagamento de IPTU, IPVA, ISS, condomínio, prestação da casa, consórcio, seguro de carros, mensalidades escolares, lista de supermercado, faturas de energia, água, telefone e Internet, além de outros que engrossam o interminável pacotão de contas no final de cada mês, sem falar num impecável controle da agenda de audiências, reuniões, visitas, remessa de relatórios, viagens e um amontoado de compromissos, sem o que nada conseguimos profissionalmente fazer.

Como tudo de positivo que Óbidos um dia teve, o trapiche da Companhia Paulista de Aniagem chamado de “novo” para distingui-lo do “velho”, que ficava em frente ao mercado municipal, gerenciado pelo mestre Raimundão e administrado pelo seu Vigico, hoje não existe mais. Em seu lugar, plantaram um píer onde se opera a carga/descarga das embarcações de maior calado.

Entretanto, com o perdão pelo trocadilho, acho mesmo que quem anda calado – e desde muito tempo – é o nosso hospitaleiro povo, que paulatinamente assiste à derrocada das antigas construções da minha “Cidade Presépio” sem esboçar qualquer reação, por mais tímida que seja.

Sobre esse novo píer, nem de longe tem ele o charme daquilo que foi um dia o ponto de encontro da molecada sem ocupação, dos estudantes matadores de aula, de pescadores de fim de tarde, de seresteiros ávidos de luar e especialmente, de casais de namorados em permanente devaneio nas mágicas noites do verão tropical, onde as promessas e juras de eterno amor tinham como involuntárias testemunhas apenas as estrelas do céu e os irrequietos botos do rio.

Quem chega a Óbidos hoje pelos confortáveis barcos e lanchas que a ligam com as demais cidades da região Oeste do Pará, não desfilará mais seu charme pela antiga e tradicional passarela. Ali só se transita – pasmem! – com a permissão de vigilantes armados, ali postados para assegurar uma paz por si subsistente. Tivesse eu que escrever um epitáfio para o trapiche o faria consignando meu lamento pela ausência de todas as boas coisas que nele aconteceram e que hoje sobrevivem apenas em alguma foto nos álbuns de família ou, o que é mais provável, na memória dos seus antigos freqüentadores. Como por exemplo, na minha, órfão que fiquei dos anos tão bons que com inegável magia marcaram de forma indelével a minha distante e feliz juventude.

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* * Membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.

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