
Mais que uma reforma política, é preciso que os partidos revejam suas práxis, repensem seus objetivos e refaçam seus anseios utópicos. O momento exige que reunamos forças, não como um movimento reativo, para nos contrapor ao retrocesso que nos remete aos anos 1970.
Precisamos de um movimento propositivo que restaure as esperanças em dias melhores, vividos na vitalidade e diversidade de nossa cultura, que almeje o fim das desigualdades e vise a conquista de uma sociedade fraterna e de plena civilidade.
o eleitor olha para o quadro político e o cardápio esta desprovido de uma possibilidade transformadora, capaz de representar um sonho redentor que nos resgate da miséria material e subjetiva em que as classes populares estão atoladas.
o eleitor não tem perspectiva. É como chegar no açougue da esquina e pedir carne de avestruz. Não vai ter. Ele age como o político, na hora do voto é pragmático e imediatista troca seu voto por algo ou algum.
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Negocia seu apoio em troca de uma benesse futura. Ocorre um escambo onde o voto é a moeda de troca. O sistema político esta carcomido pela ausência de utopia. Vivemos a era da palavra da moda: distopia.
Tudo isso é retroalimentado pelos partidos que se proliferam em busca dos milionários fundos partidários e cotas para as campanhas eleitorais. Não há horizonte que possa significar uma real transformação da realidade para melhor. Isso resultou em Bolsonaro.
Bolsonaro dirigiu-se a uma parcela significativa de nossa população e prometeu o que só era possível de se construir como projeto utópico. E aos olhos da maioria, uma panacéia de absurdos que julgávamos parte de um passado sombrio.
Falou ao coração dos órfãos da ditadura que represavam seu ódio, cantou loas à violência prometendo armas nas mãos dos que ruminam sangue, acenou aos militares com melhores soldos e nenhum corte significativo nas suas aposentadorias.
Prometeu cruzada moralista na educação e cultura aos religiosos evangélicos, garantiu desregramento ambiental e o desmonte dos órgãos de proteção aos ruralistas e mineradores. Acalmou o onipresente mercado ao garantir que a economia seria gerida por Paulo Guedes, um de seus agentes mais caninos e ideológicos.
Eleito, cumpriu com todas as promessas de campanha implantando uma agenda liberal reacionária que depaupera a classe média, e especialmente as populações mais pobres.
O PT, como partido hegemônico, segue fazendo alianças de acordo com a conveniência
Só não avançou com mais êxito por ter sido contido pelo Congresso e STF. Furioso, jogou sua manada contra as duas instituições. Acusando Legislativo e Judiciário de não o deixarem governar.
O Governo Bolsonaro se apropriou de quase todos os projetos implantados pelo PT, outros caminham para extinção. O programa carro chefe, Bolsa Família, de segurança alimentar, com Bolsonaro ganhou um 13º e ensaia transformar-se em programa de Renda Mínima, cujo auxílio emergencial é o tubo de ensaio. Idéia antiga reclamada por Suplicy e que Lula em épocas de vacas gordas não implantou.
Nada nos desenreda dessa trama ao se olhar o obscuro horizonte que o movimento das esquerdas nos proporciona. O PT, como partido hegemônico, segue fazendo alianças de acordo com a conveniência e não consegue construir uma frente popular com os partidos de esquerda e centro esquerda, em torno de um programa mínimo e de gestão compartilhada.
Sua postura nos revela que o papel de prima-dona da esquerda já o satisfaz, parece esperar o dia seguinte para dizer aos que poderiam ser aliados. “não vieram comigo, ta vendo, eu avisei”. Em política ninguém vai com outro sem um bom entendimento. A não ser que seja para fazer um butim, caso do Centrão, com raras exceções.
Legendas menores seguem hiper-valorizando sua participação em uma frente popular, com pudores e melindres que precisam ser superados em função de um objetivo maior. Hoje todos somos nanicos, inclusive o PT. Toda a esquerda, incluindo Rede, PV e avulsos não somam 1/3 do Congresso Nacional.
Cada derrota das forças progressistas será um desastre a mais em direção a 2022. Dizer eu avisei não exime ninguém da responsabilidade e quanto maior a legenda, maior será a fatura a ser cobrada.
Enquanto todos olham para o tosco personagem que Bolsonaro incorpora, a boiada, sob a batuta de Paulo Guedes, passa célere e não sobrará pedra sobre pedra. Estatais e recursos naturais sendo entregues a preço de banana, ao sempre faminto e onipresente mercado. Não à toa, o real foi a moeda mais desvalorizada do planeta, obra do vendedor de ativos brasileiros, Paulo Guedes.
Há falta de generosidade e grandeza por quem detém algum capital político à esquerda. Existe a ausência de objetividade e falta de sensibilidade política para entender o momento que vivemos, quando intelectuais antifascistas já estão sendo monitorados e a extrema direita, fascista até o osso, se manifesta em frente ao Alvorada com os cumprimentos do presidente.
Bolsonaro correrá o país promovendo carreatas e comícios em cidades que considere estratégicas. Elegendo prefeitos, como já o fez com governadores nas eleições de 2018. Seguirá passando sua locomotiva, em breve, já um rolo compressor, rumo a 2022, sua fixação.
Em 2022, Bolsonaro se dará ao luxo de pedir que o STF libere Lula, para derrotá-lo, talvez em um 1º turno
Ou a esquerda, junto com forças progressistas e populares, assume uma atitude madura objetivando uma frente popular em cada município, para ainda nessas eleições de 2020, deter o avanço do conservadorismo de natureza fascista, ou as eleições municipais edificarão as bases para reeleição de Bolsonaro. Isso requer renúncia e zero de vaidade e não é isso que estamos vendo nas lideranças de esquerda e progressistas.
Nada deterá Bolsonaro. Nem o STF, nem o Congresso, nem a prisão de seus filhos, nem delação de Queiroz, nem funcionário fantasma no seu gabinete de deputado. Do ponto de vista eleitoral, Bolsonaro consolidou a sua imunidade de rebanho.
Por trás de sua figura rude e ignorante existe uma máquina de comunicação sofisticada que envolve estatística, matemática, psicologia, sociologia, neurociência, marketing e propaganda, trabalhando diuturnamente no descrédito da imprensa oficial, na satanização da esquerda, na desmoralização do judiciário e legislativo. E passando verniz na imagem anti corrupção de Bolsonaro.
Essa tecnologia da informação nas mãos dos estrategistas de Bolsonaro desconhece escrúpulos, ética, verdade. Vê apenas gado a ser manipulado e metas a serem alcançadas.
Bolsonaro já governa com os militares e conta com a inteligência e estratégia militar contribuindo para consolidar o seu poder.
Ou a esquerda se reinventa e constrói uma ampla aliança com os partidos de centro esquerda e democratas anti-Bolsonaro, ou sairá dessa eleição menor do que entrou.
Para 2021 e 22 só restarão movimentos sociais enfraquecidos, pouquíssimas categorias profissionais organizadas, funcionários públicos e estudantes para irem às ruas enfrentar gás de pimenta, jato d’agua, gás lacrimogêneo e cassetetes dos militares bolsonaristas.
Em 2022 Bolsonaro se dará ao luxo de pedir que o STF libere Lula, para derrotá-lo, talvez em um primeiro turno. Não podemos esquecer: ele é sádico. A restituição dos direitos políticos de Lula significará a derrota de outro potencial adversário: Sergio Moro.
Concorrerá à reeleição na condição de favorito e não comparecerá a nenhum debate. Deixará Lula se debatendo com Ciro, Boulos, Amoedo, Doria, Moro e Cabo Daciolo.
Triste fim para um líder do tamanho de Lula que precisa compreender, junto com todos nós que militamos à esquerda, que estamos em outro momento histórico.
Bolsonaro é a realidade dada. Estava a caminho do fim, veio um auxilio emergencial e a providencial orientação para que mudasse a rota de sua truculência.
Tem as forças armadas ao seu lado, um STF assustado desde as ameaças do general Villas Boas, no Congresso conta com o Centrão. E segue a caminho de um céu de brigadeiro, graças a incapacidade da esquerda em construir pontes políticas de convergência.
— * Paulo Cidmil, santareno, é diretor de Produção Artística e ativista cultural. Escreve regularmente neste blog.
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