Um mergulho em direção ao lixo da história. Por Paulo Cidmil

Quando no inicio do século XX  os trabalhadores fizeram a revolução bolchevique e a idéia de governo do proletariado se espalhou  por Europa, Américas e Ásia, o sonho de uma nova  sociedade utópica tomou conta das mentes proletárias  que iniciam um embate contra o capital, unidos pela célebre frase marxista “trabalhadores do mundo uni-vos”.

Paulo Cidmil (*)

Criam a internacional socialista, organizando sindicatos na indústria e no campo, nos serviços e nas estruturas do Estado. Difundem informação e mobilizam os trabalhadores  em torno de reivindicações por melhores condições de trabalho e remuneração, direito à saúde, educação, seguridade, férias. A greve é o seu principal instrumento de luta.

A grande utopia desses socialistas era um dia promover uma greve geral  planetária que pudesse mostrar aos donos do capital e dos meios de produção que suas máquinas, bancos e serviços nada valeriam sem a força de trabalho do operariado.

O capital, de dinâmica veloz e conectado aos avanços tecnológicos, transformou esse sonho em pó. A indústria se automatizou e robotizou, o campo se mecanizou e hoje é movido a computador, o sistema financeiro e os serviços em geral  são movidos pela revolução cibernética. Milhares de empregos foram transformados em produtos de liquidação para queima de estoque.

 

Prevaleceu a lógica capitalista que impera desde o século XIX: menos investimento e mais lucro.

Na segunda metade do século XX, o mundo viu o capitalismo inventar uma forma de ganhar dinheiro sem precisar investir um centavo em atividade produtiva. Criou-se o grande cassino da especulação financeira, cujo bolsas de valores são a face mais visível e os bancos os grandes operadores.

A partir dos anos 80, de uma forma mais agressiva e explícita de acúmulo de capital, a nova versão do liberalismo, agora neoliberal,  avançou sobre os direitos trabalhistas e aparelhos de Estado, impondo políticas privatizantes para se apoderar de serviços geridos pelo Estado e que se caracterizavam como conquistas dos trabalhadores como educação, saúde, mobilidade e bens essenciais como energia,  água, saneamento, segurança.

O mantra do Estado mínimo é repetido como regra para o desenvolvimento, o pleno emprego e a prosperidade social dos trabalhadores.

O mais visionário dos sindicalistas do proletariado não conseguiria prever que o sonho de parar o sistema capitalista seria realizado por um simples vírus de nome Covid-19.

Enquanto nada se sabe sobre ele que possa neutralizá-lo, ele se expande pelo mundo. O  vírus é isonômico, não reconhece e nem poupa ninguém. Nem Estados, nem corporações, nem bolsa de valores,  investimentos e negócios de toda ordem.

Ele também não aceita desaforo, que o diga o primeiro ministro da Espanha, o prefeito de Madri, o primeiro ministro da Itália, o prefeito de Milão, o primeiro ministro da Inglaterra e o presidente da França, todos unânimes em não permitir medidas de contenção óbvias e já testadas, focados na atividade econômica e na queda de arrecadação.

O vírus parece detestar a palavra economia. Ele veio para nos dizer parem e repensem esse mundo louco que criaram. fiquem em casa refletindo, não sobre o valor, mas a importância da vida.

Colocou a economia mundial de ponta cabeça. Os oráculos do Estado mínimo sumiram. Estão às portas dos governos pedindo Estado máximo. Salvem nossos negócios, preservem nossos investimentos. Enquanto empresas perdem valor de mercado e na bolsa de valores, os prejuízos são estratosféricos.

Só os Estados podem emitir moeda e jogar salva-vidas para o sistema financeiro e grandes corporações como as petroleiras, mineradoras, complexos petroquímicos, industrias e grandes conglomerados do varejo. 

Só eles podem conter o descontrole social  e só eles podem absorver dívidas futuras para injetar dinheiro  em larga escala nas atividades produtivas e infraestrutura. E, acima de tudo, só os Estados podem cuidar das populações no caso de pandemias.

O vírus veio para desnudar as falácias do sistema capitalista e revelar a face de embusteiros e charlatões, como Roberto Justus, o velho da Havan, Ratinho, bispo Macedo e Silas Malafaia, que minimizam a capacidade de contaminação e letalidade do vírus, estimulando a população a retornar ao trabalho, às escolas e às ruas.

O covid-19 está nos dizendo que não respeita a supremacia do indivíduo sobre o coletivo e que só há uma saída para enfrentá-lo: agir coletivamente. Ir para as ruas fazer manifestação pedindo o fim do confinamento social não significa coragem ou inteligência. Resumi-se apenas em estupidez.

Sem querer defender regimes como o da China, sociedades comunistas e socialistas agora tem um diferencial de grande valor, são povos que edificaram sua sociedade em valores coletivos.

Manifestação bolsonarista contra o Congresso e STF neste ano de 2020

O interesse coletivo é sempre mais importante que a propriedade ou o direito individual. Estão acostumados a agir coletivamente,  é um comportamento cultural.  O direito à saúde é um bem universal, assim como toda a ciência da saúde esta à serviço da população e não visando o mercado.

Esse vírus não fez estragos na China, não fará na Rússia e nem em alguns países do leste europeu. Cuba passará essa crise mandando médicos para diversos países em ajuda humanitária. Como já estão fazendo Rússia e China para Itália e França.

Países nórdicos não vivenciarão essa crise como os da Europa Ocidental. Tem organização social de inspiração socialista e por lá agem coletivamente. São conquistas democráticas da população.

O vírus é igualmente nocivo para todos. E não dialoga com a estupidez e a ignorância. Comprova que o acesso à saúde deve ser um direito universal e garantido pelos Estados nacionais.

Nos alerta sobre a importância de valores como solidariedade, responsabilidade social, empatia e coletividade. Valores humanistas que ao longo dos últimos 40 anos foram sendo esquecidos por sociedades cada dia mais consumistas, individualistas, onde ser bem sucedido se traduz em acumular bens e capital.

Ele é didático e dará uma lição exemplar em dois estúpidos e insensíveis governantes,  Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Trump tentou de todas as formas manter as atividades econômicas de seu país na sua plenitude e ainda ironizou a pandemia tratando-a como uma gripe, além de agredir os chineses chamando o covid-19 de “vírus chinês”.  

Teve que descer do alto de sua empáfia e arrogância e ir aos meios de comunicação pedir aos norte-americanos para que fiquem em casa, numa tentativa de neutralizar o protagonismo dos governadores que não foram atrás de suas recomendações sinistras.

Decretou sua não eleição que avança na proporção dos mortos e infectados em seu país. O vírus será particularmente agressivo nos principais colégios eleitorais americanos.

Populações com baixa informação são facilmente manipuláveis se amedrontadas por noticias falsas que instrumentalizam a religião, a moral e a segurança – seja econômica ou de mobilidade. Mas isso nada significa diante do medo da morte.  E Donald Trump e seu boneco de ventríloquo Jair Bolsonaro tiraram a morte para dançar.

Bolsonaro, dentre as tantas declarações absurdas que já fez, após seu último passeio para contrariar seu ministro da Saúde, disse que o cidadão precisa enfrentar o vírus como homem e não se acovardar.  Ele materializou o vírus e propôs uma briga de rua entre a população e o vírus, que além de desconhecido é invisível.

Bolsonaro se recusa a assumir a Presidência. Como um ser desconectado da realidade, continua falando para uma claquete de lunáticos. Alimenta seu ego sendo reverenciado como mito por uma legião de patéticos. Ele é apenas um homem estúpido, rude, que cultua a ignorância, armas e a desinformação. Já é um caso médico desde  que foi excluído do Exercito.

Num dia ele informa que conversou com o ministro chinês e declara que está tudo bem e nada abalará a amizade e negócios entre os dois países, isso após absurda agressão feita por seu filho à China. Dois dias depois vem a público e agride o governo  e o povo chinês.

Ataca governadores depois promove reunião com eles. Após a reunião, Bolsonaro e governadores  convocam a imprensa e afirmam ter realizado excelente reunião, que dissipou mal entendidos e definiu soluções. No dia seguinte, Bolsonaro faz pronunciamento fazendo ataque virulento aos governadores.

Envia  medidas provisórias ao Congresso que sabe conter propostas inconstitucionais. Quando o Congresso ou o STF vetam, Bolsonaro faz as suas lives insuflando seu  séquito de seguidores, dizendo que esta tentando mudar o Brasil, mas que Congresso e Supremo estão dificultando.

O gabinete do ódio inunda whatsapp, youtube e twitter com postagens atacando reputações e tachando Congresso e STF de traidores da pátria.

Faz pronunciamento junto com o ministro da Saúde anunciando medidas de confinamento como prevenção ao covid-19. No dia seguinte, comparece à manifestação que pede a volta do AI-5 e a extinção do Congresso e do STF.  Manifestação que ele convocou e estimulou ao longo de duas semanas.

Demonstra todos os dias sua incapacidade para governar um país complexo e de múltiplas realidades como o Brasil. Suas atitudes revelam que ele só acredita e só quer ser presidente em um tipo de regime: a ditadura. Seu gabinete do ódio promove permanentemente estado de tensão entre os poderes. Parece  apostar em uma ruptura institucional.

Bolsonaro é fruto do descrédito na política, e não cabe aqui falar como começou e nem dos operadores fazendo reverberar o hino da hipocrisia nacional chamado “Combate à Corrupção”. É fruto também de uma realidade falseada por fake news difundidas via redes sociais.

Prestou um único serviço à nação: nos revelou uma espécie de gente, que como ele, alimenta idéias nazistas, odeiam a ciência e o conhecimento, cultuam a ignorância, desconhecem o que é arte e cultura são extremamente egoístas e ego centrados, não revelam o mínimo vestígio de solidariedade para com os despossuídos de recursos e oportunidades.

E esse será o maior problema do país quando essa aberração política chamada Bolsonaro for afastado do poder, que espero seja pelo voto, para que não vire vitima dos políticos corruptos, dos comunistas e do Poder Judiciário traidor da nação. Nem mártir, nem herói, apenas um equívoco cometido por  parte do povo brasileiro.

 

Muitos, alimentados por sentimentos antipetistas, estão refletindo que urna e raiva não é uma equação perfeita. Para uns tem a psicologia, a outros a psiquiatria. Mas faltará camisa de força para viúvas e viúvos  enlouquecidos, quando o pesadelo passar.

Sei que não serei ouvido, mas recomendo que desliguem por três dias o whatsap, twitter e youtube, observem o mundo ao redor, ouçam os noticiários com olhos e ouvidos atentos e escutem os que pensam diferente.  Saindo dessa rede que dissemina mentiras em nome de Deus, da moral e da honestidade. Bolsonaro não é isso. Ele usa Deus, é amoral e nunca foi honesto. E caminha a passos largos para o lixo da História.


* Paulo Cidmil, santareno, é diretor de Produção Artística e ativista cultural. Escreve regularmente neste blog.

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15 Comentários em: Um mergulho em direção ao lixo da história. Por Paulo Cidmil

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  • Tamara Habib Saré disse:

    Belo escrito, Cidmil. Muito necessário aqui por estes lados, neste momento de ressaca política e social. Se puder, dá uma vista no live de ontem, do Eduardo Moreira com Jessé Souza, Pedro Cardoso e Paulo Kliass.

  • Richard L. Santos disse:

    Paulo, você conseguiu expor em um texto enxuto toda a lucidez, objetividade e discernimento tão necessário neste momento. Uma tradução simples do que estamos vivendo (01/01/2019 – até o fim deste desgoverno) pode ser considerada futuramente pelos historiadores como o período do irracionalismo acéfalo. É deprimente ver o estado de insensatez e de mediocridade deste bolsonaristas, eles simplesmente não conseguem ter ideia do ridículo que vivem em suas falas desarticuladas da realidade. Paulo, você foi simplesmente cirúrgico, parabéns!!!!

  • Filipe disse:

    Parabéns, Paulo. Excelente colocação. O comentário vazio e odioso do Alexandre demonstra perfeitamente o nível dos Bolsonaristas, com contra-argumentos rasos, estúpidos e infantis.

  • Zé Campos disse:

    Paulo Ciidmil, meu amigo, irmão querido.
    Como sempre, mandou muito bem. Um texto enxuto, claro e repleto de informações.
    Sempre coerente com seus princípios de civilidade e uma de uma notável inteligência.

    Grande abraço.
    #FORABOLSONARO
    #FICAEMCASA

    E QUANDO PASSAR O VIRUS, VAMOS PRA RUA BANIR ESTA PESTE NAZISTA.

  • Antônio Silva disse:

    Estamos na ERA DAS TREVAS, iniciada em 01/01/2019, que é caracterizada pela mentira, estupidez, ódio, violência, hipocrisia, corrupção.

    Uma certeza: o apoio fundamental ao presidente miliciano vem dos milicos e policiais. Logo, não há muito o que se esperar de minimamente útil para a nação, vindo dessa turma.

  • jorge moraes disse:

    I Kill THE SNAKE AND SHOW THE STICK !!!! E NÃO VENHA FORTE QUE EU SOU DO NORTE !!!!!!!!!

  • Paulo Cidmil disse:

    Alexandre vc é tão superficial na sua crítica que sequer conseguiu apontar onde que esta a história deturpada, mas como vc escreveu história entre aspas acho que esta se referindo a uma história particular que ocorre dentro de sua cabeça. Não sei onde viu ódio existe um pouco de minha parte existe um pouco de pena de pessoas crédulos que embarcaram no conto do mito, que me parece ser seu caso. Ele é apenas um rude miliciano enganador de bobos.

  • Alexandre Silva disse:

    Poucas vezes na vida vi alguem escrever algo tão estúpido, repleto de ódio e carente de fatos. É a “visão” de mundo e “história” deturpada, distorcida, desonesta que as esquerdas sempre promoveram sem pudor ao longo de décadas.

    1. Jorge disse:

      So porcaria,todo mundo sabe ate remédio pra parar de roubar KKKKKKKKKKKKKKKKKk

    2. Paulo Cidmil disse:

      Alexandre vc é tão superficial na sua crítica que sequer conseguiu apontar onde que esta a história deturpada, mas como vc escreveu história entre aspas acho que esta se referindo a uma história particular que ocorre dentro de sua cabeça. Não sei onde viu ódio existe um pouco de minha parte existe um pouco de pena de pessoas crédulos que embarcaram no conto do mito, que me parece ser seu caso. Ele é apenas um rude miliciano enganador de bobos.

    3. renato souza de lima disse:

      falou tudo,mente sensata, ao fim de um idealismo que só serviu a sim próprio nesses últimos 16 anos. formando mentes disturbadas onde colocam marginas como vitimas, cultuam o fim da verdadeira família e sim veneram, verdadeiros ditadores, Hugo Chaves, Evo Morales, Fidel Castro entre outros.

  • Edmar rosas disse:

    Gostei.

  • Jose roberto dos Santos disse:

    Parabéns Paulo, mas,aguarde as pedradas dos imbecis que defendem esse imbecil que colocaram na Presidência. Não se intimide, você não está só nesse momento, acredite nisso, a verdade vencerá.

    1. Silas Negrão disse:

      Escrever que China e Rússia construíram suas respectivas sociedades baseados em valores coletivos, é no mínimo imbecil, idiota e desinformado, a China é comunista, totalitarista e pratica trabalho escravo, por isso tem preço competitivo em todas as quinquilharias que comercializa, porém, isso tem data e hora para acabar, o corona, produto da guerra bacteriológica promovida por aquela Ditadura, foi o tiro no próprio pé, o Capitalismo experimentou a pseudo economia de mercado praticada pela china e não se deu bem, não dá prá tolerar produção de trabalho escravo, aguarde e verá. Quanto à Russia, Sr, articulista, parece que sofres de Alzeimer, o que foi a URSS? porquê após a Perestroika e a Glasnost, que decretaram o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, apenas a Rússia emergiu para o mundo como nação rica e próspera? e o Tesouro das demais nações saqueadas e incorporadas na porrada não foram a eklas devolvidas? Cidadão, precisa bem mais que dominar um espaço desses que apesar de rede social, é também prestação de Serviço Público, devido a disponibilidade ao alcance da sociedade, percebe-se, no entanto, que confundes a atividade de jornalismo, com militância partidária, e isso é mui grave.

      1. Paulo Cidmil disse:

        Silas Negrão tanto a revolução Bolchevique quanto a revolução cultural liderada por Mao na China foram movimentos populares que destituiram governos tirânicos e feudais. Isso os livros de história podem lhe ensinar e não vou me deter explicando. Em nenhum momento defendi os atuais e recentes governos de China e Russia, sobre a China disse inclusive que discordo. O que esta mencionado no meu texto é que são povos (que através dessas revoluções) desenvolveram uma cultura de agir coletivamente, foi esse movimento coletivo que os levou a uma mudança de governo e de realidade. O regime da China é de viés autoritário, sua economia em parte é capitalista voltada para exportação e parece que essa ditadura comunista que vc vê não é bem assim. Hoje existem chineses espalhados pelo mundo todo abrindo suas lojas de futilidades indo e vindo da ditadura. Economia de mercado não é uma invenção chinesa, é uma invenção do ocidente EEUU à frente e os chineses a engoliram. Só mais um lembrete. a maioria das republicas surgidas da união soviética são países prosperos, inclusive alguns hj fazem parte da união europeia. E a China será a primeira economia do mundo no prazo de no máximo 2 anos. Outra coisa. Eu não sou chinês e nem comunista. O PT não me quis, o PSOL não me liga e o Bozo esta no fim da linha.