Jeso Carneiro

OAB do Pará é acionada na Justiça por dívida de R$ 1,1 milhão; entidade alega crise e falta de prestação de contas

OAB do Pará é acionada na Justiça por repasses retidos R$ 1,1 milhão; entidade alega crise e falta de prestação de contas
Sede da OAB Pará em Belém. Foto: reprodução

A Caixa de Assistência dos Advogados do Pará (CAAPA) acionou a Justiça Federal em Belém para cobrar o repasse de R$ 1.102.997,90 da OAB ( Ordem dos Advogados do Brasil), Seção do Pará (OAB-PA). A ação ordinária de cobrança (processo comum na Justiça para exigir o pagamento de uma dívida) foi protocolada na semana passada (dia 7).

Tramita na 2ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Pará. A entidade assistencial acusa a diretoria da Ordem de reter de forma ilegal e arbitrária as verbas destinadas à assistência à saúde, previdência e auxílios para os advogados do estado.

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Por outro lado, a diretoria da OAB-PA rechaça as acusações. A Ordem alega que assumiu a atual gestão em estado de “colapso financeiro” herdado da administração anterior.

Além disso, a seccional afirma estar amparada legalmente para suspender os repasses devido à recusa da própria CAAPA em fornecer documentos para a análise de suas contas e por conta de graves inconsistências financeiras apontadas em uma auditoria independente.

O cerne da cobrança

De acordo com a petição inicial de autoria da CAAPA, a OAB paraense é obrigada por lei federal a repassar 20% da receita bruta das anuidades (contribuições financeiras pagas anualmente e de forma obrigatória pelos advogados para exercer a profissão) arrecadadas no estado para manter o sistema assistencial dos profissionais.

Esse montante é tratado como uma verba carimbada, servindo para custear consultórios odontológicos, serviços médicos, psicológicos, auxílio-maternidade, auxílio-funeral e suporte para profissionais inválidos ou em situação de vulnerabilidade extrema.

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A Caixa de Assistência sustenta que a diretoria da OAB-PA, presidida por Sávio Barreto Lacerda Lima, suspendeu de forma completa, a partir de março de 2025, a transferência dos 20% relativos às anuidades pagas pelos advogados através de cartões de crédito e débito.

Na ação assinada pelo advogado Mateus Manoel Nascimento Dias, a CAAPA destaca que a própria OAB-PA reconheceu em seu balancete analítico do quarto trimestre de 2025 um passivo incontroverso de R$ 1.102.997,90 com a Caixa. Esse valor acumula R$ 308.433,90 de repasses retidos de 2024 e R$ 794.667,60 retidos ao longo do ano de 2025.

“Manipulação contábil”

A CAAPA aponta ainda uma suposta “manipulação informativa” por parte da seccional. Conforme a denúncia, o relatório financeiro do terceiro trimestre de 2025, divulgado em novembro daquele ano, registrava uma dívida de apenas R$ 38.152,24 com a CAAPA. Contudo, em março de 2026, a Ordem publicou uma versão retificada retroativamente daquele mesmo período, elevando o débito daquele trimestre para R$ 436.006,47.

A Caixa de Assistência também rebate a alegação de crise financeira apresentada pela diretoria da OAB-PA perante o Conselho Federal da OAB em Brasília.

Segundo o processo, cuja cópia o JC teve acesso, a OAB-PA teve uma arrecadação recorde de R$ 24.100.801,31 em 2025, superando as previsões do seu próprio orçamento em mais de R$ 2,29 milhões (excedente de 10,52%). A CAAPA alega que houve desvio de finalidade ao priorizar despesas discricionárias (gastos que dependem apenas da escolha do administrador, sem obrigação de lei).

São citados gastos de R$ 332.433,62 com posses e colégios de presidentes (315,54% acima do previsto), R$ 153.201,67 com hospedagens, R$ 320.449,10 com passagens aéreas e R$ 650.733,24 com equipes de marketing e comunicação.

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Risco de colapso

A CAAPA argumenta que a retenção dos valores asfixia o caixa da entidade, colocando em risco o pagamento de funcionários, encargos trabalhistas, licenças sanitárias de consultórios e a concessão de auxílios financeiros a idosos, gestantes e advogados necessitados.

Por isso, a Caixa de Assistência pediu à Justiça Federal uma tutela de urgência antecipada (uma decisão provisória rápida do juiz para garantir um direito antes do fim do processo) para obrigar a OAB-PA a depositar de imediato o valor incontroverso de R$ 1.102.997,90 ou, de forma alternativa, repassar R$ 200.000,00 mensais para manter os serviços básicos ativos.

Defesa da OAB Pará

Por sua vez, a OAB-PA argumenta em nota oficial, encaminhada ao JC, que os repasses efetuados à CAAPA em 2025 foram superiores aos de 2024 e que a Caixa encerrou o ano de 2025 com uma reserva financeira 16 vezes maior que a da própria Ordem.

A Ordem afirma que as pendências financeiras não impedem as atividades da CAAPA, uma vez que a instituição herdou mais de R$ 400 mil de receitas em 2025 e obteve aumento de arrecadação devido às ações de combate à inadimplência lideradas pela seccional.

A diretoria informou ainda que não continuará a debater publicamente o caso na imprensa para preservar a imagem da instituição, concentrando as discussões nos fóruns competentes do Sistema OAB.

Nota da OAB-PA, a íntegra

Nota Institucional

A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará (OAB-PA) informa que encaminhou oficialmente à Caixa de Assistência da Advocacia do Pará (CAAPA), nesta segunda-feira (10), o Ofício nº 393/2026-Sec., em resposta às manifestações relacionadas aos repasses das cotas estatutárias.

Fatos graves, aptos a fundamentar a suspensão total dos repasses estatutários, surgiram desde o ano passado, tendo recebido tratamento institucional e jurídico, por meio de instauração de processos administrativos, no qual está sendo assegurado o contraditório e a ampla defesa (o direito legal que uma parte tem de responder às acusações e de se defender plenamente no processo).

O ofício encaminhado à CAAPA apresenta um quadro detalhado de todo esse contexto, com destaque para as seguintes informações, devidamente comprovadas:

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A partir desta manifestação, a Seccional não dará continuidade a esse debate por meio de seus canais oficiais, de modo a preservar a imagem da instituição, mantendo os próximos desdobramentos nas instâncias institucionais competentes (os órgãos e tribunais internos responsáveis por julgar o caso dentro da própria organização). A resposta da Presidência já foi formalmente apresentada, e os desdobramentos do caso serão conduzidos nos fóruns competentes (os órgãos internos responsáveis por avaliar a disputa) do Sistema OAB.

A OAB-PA seguirá atuando com responsabilidade e transparência, preservando e defendendo a integridade da instituição e assegurando que questões internas não se sobreponham à sua missão de representar, fortalecer e defender a advocacia paraense.”*

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