Jeso Carneiro

O maior erro do Pró-Tapajós

Belém do ParáBelém, a “Cidade Sebastiana”

por Manuel Dutra (*)

As lideranças do Movimento e da Frente Pró-Tapajós cometeram muitos erros na campanha e no período pré-campanha. Mas um deles foi fatal: cutucar a fera com vara curta e, pior, tocando na ferida aberta que, de modo consciente ou inconsciente, incomoda a elite tradicional de Belém, o “paraense da gema”. E os separatistas o fizeram movidos pelo imediatismo e pela ignorância.

Defino aqui o conceito de “paraense da gema”: são aqueles indivíduos e grupos com raízes familiares, seculares ou não, em Belém e redondezas, ou pessoas que aqui chegaram mais recentemente e que se afinam cultural e ideologicamente com aquele grupo mais antigo. Em geral brancos, têm vínculos com a posse da terra herdada de antepassados, dominam o comércio, as atividades culturais, as instituições políticas e a economia de modo geral.

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Batem no peito afirmando ser paraenses, mas caminham com frequência para a Europa ou Estados Unidos, onde não raros têm imóveis. Muitos investem fora do Pará o que aqui ganham. Para matar a saudade das famosas calçadas de Paris desenvolvem o hábito de tomar café nas calçadas de algumas esquinas do centro de Belém.

Pois bem, foi deste grupo, assim superficialmente definido, que saíram as lideranças do Não à divisão do Pará. Logo, representava a tradição. Logo representava um outro aspecto grave que identifica os grupos hegemônicos da capital paraense: um profundo sentimento de perda e decadência, perda territorial e perda da riqueza que caracterizou esta bela cidade há um século e pouco.

Em seu recente livro sobre Belém, sintomaticamente intitulado Era da Borracha, Memória e Melancolia numa Capital da Periferia da Modernidade, o professor da UFPA, Fábio Castro, criou apropriadamente o conceito de “Cidade Sebastiana”, fazendo o paralelo histórico com o sentimento de perda da nação portuguesa, eternamente esperando a volta de dom Sebastião, o Desejado, desaparecido na batalha deAlcácer-Quibir. O mito é que ele voltará/voltaria para resgatar Portugal de suas carências e tristezas.

Para desassossego de alguns divisionistas, um mês antes do plebiscito eu falei disso em Santarém na palestra de abertura que fiz num seminário promovido pela Universidade Federal do Oeste do Pará, com a presença da geógrafa Bertha Becker, da UFRJ, do economista Francisco Costa, do NAEA/IPEA e de outros pesquisadores e lideranças comunitárias.

A ferida que sangra no inconsciente coletivo da elite desta cidade-síntese da Amazônia é o mesmo que sangrou na alma e no corpo de uma cidade que, de uma hora para outra, viu entrar pelo ralo da história toda a imponência e importância que ela havia conquistado no período dourado da extração/exportação da borracha.

Suicídios houve no início do século passado, quando a cultura da seringueira mudou de mãos e de geografia, ensejando a saída, de Belém, de várias representações diplomáticas, das filiais dos principais bancos estrangeiros; era o fim de uma festa que parecia não ter fim e teve. Era o final infeliz da Paria n’América.

No auge da economia da borracha chegou-se a dizer que, na América do Sul, três cidades se destacavam: Buenos Aires, São Paulo e Belém. Na capital paraense se esboçava a instalação de um parque industrial, abortado à mesma época, mas que deixou a prova de sua pujança inicial nos prédios enormes que aos poucos vão sendo reocupados no Umarizal. Hoje, para tristeza de todos nós, o Pará e a sua capital estão com frequência nos noticiários nacionais por outras razões, por índices de desigualdade e violência.

No aspecto da posse do território, a sensação de perda não é menor. Não precisa ir até o período colonial quando tudo a que hoje chamamos de Norte do Brasil era o Grão-Pará. Basta rever 1832, quando o hoje Estado Amazonas intentou declarar sua autonomia por conta própria, pagando caro, inclusive militarmente, pela sua ousadia. Afinal foi atendido 18 anos mais tarde por Pedro II, que partiu a Amazônia ao meio, criando as Províncias hoje Estados do Amazonas e Pará.

Já no século passado foi o Amapá retirado, sob surdos protestos, pela ditadura Vargas. Ao longo de toda a sua história o Pará permaneceu objeto de idéias de divisão, são dezenas, entre projetos ou simples demonstração de desejos separatistas, como foi o da Sociedade Literária de Santarém, em 1883.

Toda essa história de perdas e ameaças de redução territorial se tornou aguda e insuportável para as elites metropolitanas agora, em 2011. A exposição pública do novo mapa que se tornou objeto do plebiscito chocou as elites e, de certo modo, o grosso da população da Metrópole: um Estado do Tapajós com quase metade do território paraense, um Carajás com outra parte substancial, e o “Parazinho” remanescente com apenas 17%, imagem essa muito bem explorada pelos políticos do Não, tocando fundo no inconsciente histórico de tantas perdas graves.

Desde 1772, quando se criou Grão-Pará e Rio Negro, desmembrado do Grão-Pará e Maranhão, a superfície remanescente ficou em aproximados 3,6 milhões de quilômetros quadrados, mais ou menos coincidindo com o que hoje se chama de Amazônia clássica (não a “legal”).

Pelo novo mapa proposto no plebiscito de 2011 restariam ao Pará cerca de 240.689 quilômetros quadrados, sua população seria reduzida para aproximadamente 5,2 milhões de habitantes. Do gigante territorial Grão-Pará restariam tão somente 240. 689 quilômetros quadrados. Para uma tradição cultural que vem desde as Capitanias, com o apego à terra que gerou a sesmaria e o latifúndio, e em que o poder político do velho e do novo coronelismo se confunde com a posse de terras extensas, era muito para os grupos de poder de Belém.

Como os políticos – sejam eles daqui ou dacolá, do Brasil ou da Conchinchina – são por natureza imediatistas e, via de regra avessos à leitura e à reflexão (com raríssimas exceções), este plebiscito se fez com base no imediatismo e na ignorância. Os “debates” televisivos o demonstraram à farta: parecia que a luta por emancipação se resumia tão somente a “repasses” de verbas federais, repartição do tesouro ou do butim. Eram discursos onde não se viam história, sentimentos, ideais. Tudo se resumia ao tempo próprio dos políticos, isto é, um tempo que existe entre uma eleição e outra.

Imaginaram, por ventura, que a Metrópole iria aceitar passivamente tamanha divisão de seu chão? Se fosse só o Tapajós, é provável que as resistências diminuíssem. Mesmo assim, não a este mapa que agora foi fabricado de modo estúpido, inteiramente distinto daquele que sempre povoou a imaginação de gerações. O mapa que se desejava era mais ou menos aquele que foi sintetizado pela Comissão de Estudos Territoriais do Congresso, logo após a Constituinte de 1988. E que deveria se chamar Baixo Amazonas.

Contando somente as propostas do século 20, desde a década de 1950, diversos outros foram sugeridos por paraenses, políticos aqui radicados. Deixando de lado os históricos, como Varnhagen e Fausto de Souza (que não eram paraenses e fizeram projetos de redivisão para o Brasil), nas últimas décadas lembra-se o trabalho do deputado estadual Elias Pinto, do intelectual amazonense Benchimol, de Segadas Vianna (1933), Juarez Távora. Projetos dos deputados Elias Pinto, Alfredo Gantuss, Burlamaqui de Miranda e Epílogo de Campos.

Já na Constituinte de 88 destaca-se o intenso esforço dos paraenses Benedicto Monteiro, Paulo Roberto Matos e Gabriel Guerreiro. No entanto, o mapa que afinal foi posto na mesa do voto foi um mostrengo elaborado por quem sequer visitou a região.

Se o Movimento pela criação do Tapajós ou Baixo Amazonas quiser prosseguir no embalo da maciça votação superior a 95% em média, na região, deve retomar o histórico e os esforços de pessoas que efetivamente fizeram propostas aceitáveis. E efetivar um movimento popular que retire dos políticos a exclusividade da luta por emancipação.

Aliás, a entrega legal dessa batalha apenas aos políticos foi uma estratégia que deu certo ao poder central brasileiro: colando um movimento social à cara dos políticos, o plebiscito, em alguns momentos, pareceu uma eleição qualquer. E não era.

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* Santareno, é professor doutor da UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará) e jornalista. Escreve regularmente neste blog. É também blogueiro.

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