Jeso Carneiro

Quanto do Pará se investiu no Tapajós

por Evaldo Viana (*)

A luta pela emancipação de Tapajós e Carajás sempre foi uma luta essencialmente por liberdade e por igualdade. Liberdade para podermos decidir sobre a escolha do que julgamos ser o melhor caminho para desenvolvermos nossas regiões e com elas proporcionar melhor qualidade de vida ao nosso povo; e igualdade porque histórica e sistematicamente Belém, com o patrocínio do governo do Estado, vem usurpando e se apropriando ano a ano de recursos que por direito pertencem às regiões do Tapajós e Carajás.

Essa usurpação, essa apropriação indevida, esse esbulho que Belém pratica contra o nosso povo, que a enriquece ao mesmo tempo em que depaupera, empobrece e condena nossas regiões a eterna miséria, pode ser facilmente percebido quando se analisa o que os municípios do Tapajós, por exemplo, recebem – ou que não recebem – de recursos do estado a título de investimentos e quando confrontamos com os destinados à capital que, fato inconteste, se apropria de praticamente de todos os recursos originados dos impostos que pagamos aos cofres estaduais.

Ao analisar apenas dois exercícios (2010 e 2011), pois o que os números abaixo mostram é prática histórica incorporada na sistemática de distribuição de investimentos do governo do estado do Pará, vemos com absoluta clareza o tratamento profundamente injusto e desigual, para não dizer cruel e desumano, que caracteriza, irrefutavelmente, o desprezo que os políticos de Belém, sua elite e os mandatários estaduais têm por nossas regiões e por nosso povo.

Vamos aos números:

Em 2010, o governo do Estado, após contrair empréstimo de R$ 780,00 milhões ( o que demonstra uma extraordinária capacidade de mau gerenciamento dos recursos públicos), conseguiu investir R$ 1,25 bilhões, o que significa que a cada paraense, se distribuídos igualitariamente, deveria ser destinado, a título de investimentos (obras e aquisição de bens de uso permanente) em média R$ 166,66.

Pois bem, vejamos o primeiro grupo de municípios do Tapajós:

Ord.

Municípios

Investimentos 2010 (R$)

População Invest. Per capita
1 Alenquer

3.876.028

52.714 73,53
2 Almeirim

2.269.168

33.665 67,40
3 Altamira

574.362

105.030 5,47
4 Aveiro

352.119

15.767 22,33
5 Belterra

3.511.117

16.324 215,09
6 Brasil Novo

1.550.028

17.960 86,30
7 Curuá

310.000

12.262 25,28
8 Faro

1.422.967

8.181 173,94
9 Itaituba

3.790.815

97.343 38,94

Percebam que, exceção de Belterra e Faro, todos os municípios tiveram investimentos per capita abaixo da média estadual de R$ 166,66. Alguns casos, como Altamira, Aveiro, Curuá e Itaituba, os investimentos não representam um terço a que teriam direito se houvesse isonomia na distribuição dos recursos.

Vamos ao segundo grupo:

Ord. Municípios Investimentos 2010 (R$) População Invest. Per capita
10 Jacareacanga 929.786 14.040 66,22
11

Juruti

1.735.871 47.123 36,84
12 Medicilândia

3.459.412

27.442 126,06
13 Mojuí dos Campos

0

0 0,00
14 Monte Alegre 2.135.012 55.459 38,50
15 Novo Progresso 2.323.958 25.106 92,57
16 Óbidos 1.576.318 49.254 32,00
17 Oriximiná 2.865.650 62.963 45,51
18 Placas 1.162.697 23.930 48,59

Nesse grupo fica claro que todos os municípios foram ‘tungados’, no sentido de usurpados, ou roubados mesmo, quando se leva em conta o que receberam em confronto com os recursos que lhe eram de direito. A maioria do grupo recebeu menos de um quarto do que lhe era devido.

E agora, o último grupo:

 

Ord. Municípios Investimentos 2010 (R$) População Invest. Per capita(R$)
19 Porto de Moz 2.688.739 33.951 79,19
20 Prainha 53.171 29.265 1,82
21 Rurópolis 387.856 40.068 9,68
22 Santarém 19.418.545 294.774 65,88
23 Senador José Porfírio 916.823 12.998 70,54
24 Terra Santa 250.000 16.952 14,75
25 Trairão 100.944 16.885 5,98
26 Uruará 1.083.942 44.720 24,24
27 Vitória do Xingu 994.040 13.480 73,74

Nesse grupo vê-se o mais do mesmo: profunda injustiça com municípios extremamente carentes aos quais deveriam ser concedido tratamento diferenciado, não no sentido de subtrair o que lhes pertencem, mas, o contrário, de a eles se destinar mais recursos para minimizar, ao menos minimizar, a dura vida do sofrido povo desses municípios.

Destaque no grupo para Prainha (investimentos de R$ 1,82 por habitante), Rurópolis e Trairão, que receberam menos de 1/16 da média estadual.
Mas não dá para falar só de miséria, de pobreza, de escassez e de injustiça. Se há usurpados é porque alguém se habilitou a figurar no pólo de usurpador. E a quem se pode, com justiça, atribuir essa posição?

Belém!

E vejam como foi contemplada com os investimentos a cidade de Simão Jatene, de Zenaldo Coutinho, de Celso Sabino e da mesquinha e egoísta elite econômica e empresarial do Pará em 2010:
Investimentos = R$ 605,45 milhões.
População = 1.392.031 (censo 2010).
Investimentos per capita = R$ 434,94.

Que isso quer dizer? Que o governo do Estado, ao desviar investimentos dos municípios mais pobres e desassistidos e transferi-los para Belém está descumprindo nossa Constituição Estadual que tem como um dos mais importantes objetivos a diminuição das desigualdades sociais e regionais.

Quer dizer, também, que se o nosso sonho de liberdade foi momentaneamente adiado, por uma visão egoísta, inconseqüente e malsão do povo de Belém, potencializada pela nanograndeza do governador Simão Jatene, que tem o dever de defender os interesses de todo o povo do Pará e fez odiosa opção exclusivamente pelos interesses da elite belenense, quer dizer que é nossa missão inarredável e prioritária lutar aguerrida e até raivosamente, quando necessário, para que o governo do estado nos trate com isonomia e igualdade e destine os recursos a que temos direito.

Na seqüência, trataremos dos investimentos realizados no ano de 2011, já no governo Jatene, e da destinação que o governo dá às demais despesas.

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* Nascido em Alenquer, é servidor público federa e especialista em orçamento público. Escreve regularmente neste blog.

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