
por Emanuel Júlio Leite (*)
Leia também do autor: Roteiro turístico a partir de Alter do Chão: dicas e atrações.
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As redes sociais trataram de dar ‘moral’ ao mesmo, fazendo com que uma quantidade impressionante de pessoas passasse a frequentá-lo aos finais de semana.
O que está ocorrendo com o Jamaraquá dá um retrato fiel do que está acontecendo, ou mesmo o que vai acontecer nos próximos meses com os atrativos turísticos de Santarém e Belterra.
Pelo Plano Encontro (Plano Estratégico de Turismo de Santarém e Belterra), através da metodologia chamada Hierarquização dos Atrativos Turísticos dos dois municípios, já é do conhecimento de muita gente que temos 69 atrativos devidamente pontuados. No ponto de ser divulgados e promovidos. É o momento de ser colocados na prateleira.
Em outras palavras, a democratização dos atrativos acontecerá paulatinamente.
Antes mesmo da população local ‘descobrir’ os apelos do Jamaraquá, o turista estrangeiro vem, nos últimos anos, colocando o lugar em seus roteiros de viagem.
É comum a presença de pessoas da Europa, com especialidade, transitarem por essas comunidades, comprando artesanato, se hospedando em pequena pousada e almoçando em casas de comunitários.
Aliás, os artesãos de Jamaraquá, onde existe um trabalho bastante expressivo utilizando o leite da seringueira para a produção de artigos à base de látex, se acostumaram a receber por seus artigos em dólar e euro.
O mais importante é que a comunidade de Jamaraquá fica dentro da Floresta Nacional do Tapajós, uma Unidade de Conservação Federal.
Pesquisando na internet, encontrei o conceito de Flona: “As florestas nacionais foram criadas por ter área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas, e tem como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas”.
A Flona do Tapajós foi criada em 1974, tem 549.066 hectares e, pasmem, 160 quilômetros de praia.
Jamaraquá é um detalhe da Flona Tapajós. Há dentro da área as comunidade de Maguari e Jaguarari, que possuem praias fantásticas. Dentro da área moram 5 mil moradores tradicionais vivendo em 25 comunidades.
Ou seja, são populações ribeirinhas mantendo hábitos culturais próprios, fato que desperta o interesse de turistas espalhados ao redor do planeta. Nas comunidades de Bragança, Marituba e Takuara vivem cerca de 500 indígenas da etnia Mundurucu.
Nos últimos tempos, o rio, os igarapés, lagos, áreas alagadas, áreas de terra-firme, morros, planaltos, áreas de flores, campos e açaizais formam um pacote completo para quem optar por turismo de natureza, um segmento que somente cresce.
Só que o Igarapé do Jamaraquá se transformou em preocupação para ambientalistas e simpatizantes do turismo de natureza. A frequência no local cresceu de forma acentuada. De uma hora para outra o público cada vez maior se desloca para lá.
Às margens do igarapé, gente demais, consumindo cerveja sem se preocupar com as latinhas e assando churrasco de maneira descompromissada. Ou seja, um verdadeiro piquenique. Só que em local inapropriado.
Os estudiosos dizem que o ecossistema é frágil, e a capacidade de carga não permite um fluxo tão intenso, sob pena de os impactos serem negativos para um lugar que tem por preceito o desenvolvimento do turismo em bases sustentáveis.
Lembro-me que cerca de dois anos atrás eu fui barrado na guarita que dá acesso à Floresta Nacional do Tapajós. Naquela ocasião, o guarda solicitou um convite que me dava direito à entrada na Unidade de Conservação.
Como não fiz o dever de casa, que dizia que eu precisava buscar uma autorização na sede do ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade), não pude completar o meu intento, que era desfrutar um domingo na companhia de amigos num lugar realmente paradisíaco. Contentei-me com o Igarapé da Boca do Jacaré, na comunidade de São Domingo, igualmente maravilhoso.
De repente, o que está faltando é o ICMBio voltar à prática de antes. Outrora, existiam três tipos de ingressos. Um valor para pessoas de Santarém e Belterra, além de municípios próximos; outro valor para turistas nacionais; e uma quantia maior para o visitante de outro país. Esse era o procedimento até pouco tempo atrás (menos de um ano).
E nunca é demais lembrar que o acesso ao local também deve ter um limite de entrada aos fins de semana. Do contrário, corre-se o risco de a Flona se transformar em balneário do tipo comum, o que não é nada aconselhável.
Toda vez que se pensa em Floresta Nacional do Tapajós um destino deve ser levado em consideração: Bonito, no Mato Grosso do Sul. Com uma população de cerca de 20 mil habitantes, o destino é considerado o mais sustentável do mundo. Existe limite para acesso aos pontos de visitação.
Por isso, Jamaraquá precisa ser melhor tratada. Com todo cuidado. E aí temos que comungar dos velhos preceitos do desenvolvimento sustentável, que diz: “é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”.
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* É produtor audiovisual, autor de dois livros – Turistificando um Caminho da Amazônia (2001) e Amazônia no Tapajós, uma abordagem turística (2004), ambos pela Editora Ícone (SP) e pós-graduando MBA Gestão Empresarial (FGV). Email: ejlteite@gmail.com