Jeso Carneiro

Poetas amazônicos – Dor

Sem trilho

A noite me devora,
O frio me quer matar,
A dor que sinto agora
Só encontra par no mar.
A minha luz sem brilho
Quer te encontrar, meu filho,
Mas não te pode achar.

Deste-me à luz, do nada
E me ensinaste a amar.
E tive a vida amada,
E amei de me acabar,
Mas meu vagão sem trilho,
Assim, sem ti, meu filho,
Ruma pra despencar.

Quisera atar-te a rede,
Quisera te embalar,
Mas tudo agora é sede
E fome, e está sem lar.
Enquanto que, andarilho,
Busco-te em vão, meu filho,
Na noite sem luar.

Por que tu te apressaste
Em sonhos pra voar?
Por que não me deixaste
Agasalhar-te ao ar?
Por que que este estribilho
Quer te ninar, meu filho
Se já não sei cantarr?

E agora que és saudade,
A vida o que será?
Que será da bondade
Que tinhas pra ensinar?
Sob as pedras que empilho
Dorme por mim, meu filho;
Dorme pra eu despertar.

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De Orivaldo Fonseca, poeta e compositor amazônico do Pará (Belém). O poema é dedicado ao seu filho, que morreu no último dia 7.

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