Jeso Carneiro

“Mais Médicos” é do Estado e não do PT

Professor e jornalista, Samuel Lima comenta o post “O PT não tem jeito mesmo”, critica advogado, da lavra de Ismaelino Valente:

Caro Ismaelino,

Quem me parece brigar contra os fatos é você. As manifestações de junho e outras que se seguiram em julho, com diferentes matizes ideológicos e atores sociais (alguns tradicionais, como sindicatos e movimentos sociais; outros difusos, mas igualmente legítimos) colocaram em cheque o sistema de representação da sociedade: partidos políticos, governantes, casas legislativas, poder judiciário, etc. etc.

Quem conseguiu entender o recado e saiu de sua zona de conforto fará algo em benefício público. O PT governa, em coalizão, o país, há 10 anos; o PSDB governa o maior e mais rico estado da Federação (São Paulo) há quase 20 anos; outros partidos estão representados em diferentes executivos estaduais e dos principais municípios do país.

Logo, meu caro, tentar eleger Dilma Rousseff como “prefeita do Brasil” é tão leviano quanto jogar nos ombros de um partido, exclusivamente, como é o caso do PSDB em S. Paulo, a conta pelas mazelas sociais e os problemas nos serviços públicos essenciais.

Para muito além da conquista do Movimento Passe Livre, ator social que liderou as mega manifestações de junho, a força das ruas fez com que, por iniciativa da presidente da República, todos (sem exceção) os gestores de estados e capitais sentassem para discutir como melhorar os serviços públicos.

Essa iniciativa, como tantas já tomadas por gente de diferentes partidos, passou batido pela mídia tradicional, interessada em reforçar a tese que aqui esboças: a de transferir apenas para a “conta” do governo Dilma os problemas do país. Isso é o ‘blá-blá-blá” da mídia comercial, liderada pelo jornal Folha de S. Paulo, revista Veja e alguns eminentes “colunistas” da TV Globo. É o que estás repetindo aqui, mano.

O tal “contra tudo o que está aí” esconde, na real, um ranço fascista e reacionário. Se o PT (e seus aliados) governam o país há 10 anos devem ser cobrados por isso, sem dúvida. Mas, qual o peso de tua cobrança sobre quem governou os outros 503 anos, mano? Sim, fiz uma conta elementar, em sala de aula, com meus alunos: desde a inauguração do país, em 1500, somando na ponta do lápis temos pouco mais de 40 de Estado Democrático de Direito, nos fundamentos liberais mais clássicos. Democracia exige paciência histórica, muita luta e suor para que os avanços sejam consistentes e não se abra espaço para nenhum tipo de retrocesso.

O Programa Mais Médicos tenta responder, por uma ação de Estado, um grave problema enfrentado pela saúde pública do país: a falta de profissionais de saúde (não apenas médicos) nas cidades do interior.

Aqui no Sul Maravilha (moro em Floripa há mais de 20 anos), municípios com boa infraestrutura e qualidade de vida excelente não conseguem contratar médicos, mesmo oferecendo R$ 18 mil reais de salário (como é o caso da pequena Presidente Getúlio, no Alto Vale do Itajaí, com 20 mil habitantes, que eu conheço de perto).

Partidos, sindicatos, entidades da sociedade civil organizada, movimentos sociais e populares, enfim, quem luta há décadas para que se tenha avanços democráticos e melhorias nos serviços públicos estão instados a sair de suas “zonas de conforto” e dialogar com quem foi às ruas protestar. Isso é parte do jogo democrático; é absolutamente legítimo. E quem não o fizer vai perder o trem da história…

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