
Hoje eu vou dar uma trégua para as feministas. Essa foto estava no rolo da câmera do celular e ela me fez lembrar que todas as vezes que volto à minha terra natal eu faço questão de visitar o jazigo da minha família.
Estive lá em agosto e registrei. Eu gosto de vir aqui e, de preferência, sozinha. Neste lugar está parte da minha história, dos meus antepassados, da minha origem. É o meu “memento mori”.
Essa frase em latim quer dizer “lembre-se que você vai morrer” e ela remete ao tempo do Império Romano quando os grandes generais ganhavam alguma batalha, e no seu retorno pra casa eram recebidos com muita pompa e uma festa gloriosa.
Enquanto o povão fazia a festa e aclamava, um escravo ficava lá atrás repetindo e sussurrando ao ouvido do general a frase em latim “Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori.”: Olhe ao seu redor. Não se esqueça de que você é apenas um homem. Lembre-se de que um dia você vai morrer.”
— ARTIGOS RELACIONADOS
Isso contém uma verdade muito profunda. Serviu para aquela época e serve para todos nós, agora. Ali, diante do festejo de uma conquista ser lembrado que você vai morrer é um chamado para a realidade.
Memento Mori também é a saudação que os monges católicos trapistas usam no mosteiro como um exercício diário de aceitação da morte.
A cultura moderna não gosta de nos fazer lembrar da fragilidade da nossa existência, não estamos acostumados a falar da morte, pelo contrário, desviamos o assunto quanto ela é o tema. Tanto que vivemos obcecados em encontrar o elixir da eterna juventude, pois o envelhecimento é visto como a decadência da condição humana.
“Há uma negação muito clara da finitude. Sobretudo porque os valores da sociedade de massa e de consumo são antagônicos à ideia de morte: o fetichismo da juventude eterna, os ideais de progresso, a acumulação de bens, a busca da imortalidade”, diz Olgária Feres Matos, professora do Departamento de Filosofia da USP.
O resultado é uma sociedade atormentada, que busca inutilmente a felicidade em fugas da realidade de que um dia iremos deixar de existir.
Passamos tanto tempo perdendo tempo. Esquecendo de viver o momento em busca do melhor “close”, não sentando no chão para não amassar a roupa, deixando para depois o olho no olho, o beijo carinhoso estalado na bochecha, aquela palavra doce na hora certa.
Perdemos tempo obcecados com a dieta da moda, com as postagens das redes sociais, com o sapato de grife, com a bolsa que custa três meses de salário, com o telefone última geração mais caro que um transplante de rim.
A gente vive distraído com bobagens. A gente vive achando que somos eternos. Que o amanhã vai sempre existir. Que o outro vai estar sempre ali. Que nada vai mudar.
Até que um dia muda. Até o dia que você percebe que não é nada. Hoje e em todos os dias de nossas vidas ao acordar devemos sempre nos lembrar: não somos eternos.
Você e eu sabemos disso, mas talvez muitos de nós vivamos como se não soubéssemos. Que essa descoberta nos dê motivação para vivermos melhor, optar por escolhas mais virtuosas e fazer da nossa passagem por aqui algo mais significativo.
— * Célia Ilma Carneiro, santarena, é historiadora, conservadora, cristã e não feminista. Mora em Florianópolis (SC) e escreve regularmente neste blog.
LEIA também de Célia Carneiro: Cota para mulheres na política: sistema inócuo no quintal de casa.