Jeso Carneiro

O calcanhar de Aquiles da opinião fast food nas redes sociais. Por Célia Carneiro

O calcanhar de Aquiles da  opinião fast food nas redes sociais. Por Célia Carneiro
O calcanhar de Aquiles da opinião das redes sociais: irrelevância

Todas as vezes que eu vejo jornalistas, youtubers, digitais influencer,
comentaristas, especialistas ou o seu Zé das Couves fazendo balanços e
diagnósticos sobre fatos que acabaram de acontecer eu lembro da velha
piada sobre o senso de perspectiva histórica da antiquíssima civilização
chinesa.

Em uma ocasião perguntaram a Mao Tse-tung o que ele achava da
Revolução Francesa. O ditador comunista chinês respondeu que havia se
passado pouco tempo (pasmem! mais de um século e meio), e que ainda
era muito cedo para avaliá-la.

Célia Carneiro *

Por que somos tão apressados em emitir opinião sobre assuntos tão complexos? Por que nosso fetiche em sair atropelando os fatos abordando-os com nosso achismo?

Instantes após qualquer acontecimento, a queda do muro de Berlim, do dólar ou das torres gêmeas somos convulsionados a “repercutir”, a procurar sentido e explicação; e a procurar os desdobramentos daquilo que nos parece fatos importantes.

A verdade é que esse fenômeno se evidenciou sobremaneira com o avanço e a democratização da internet e dos meios de comunicação e, consequentemente, das redes sociais.

 

Isso por si só não é um mal, no sentido de que a internet deu voz a muita
gente. O problema é que para emitir opinião sobre algo pressupõe que se
faça tendo em mão algum repertório. Porque, de fato, direito todos temos
de opinar sobre qualquer coisa, mas a gente sabe que quando a quantidade
é grande (aqui neste caso, de opiniões!) a curva tende a pender à total
irrelevância.

Na Filosofia há um famoso diálogo de Platão, chamado Teeteto, em que
Sócrates aparece discutindo com este personagem sobre a diferença entre
o que é conhecimento verdadeiro e o que é opinião.

No grego original essa opinião seria definida como doxa e conhecimento seria designado como episteme, daí a origem do termo epistemologia. O diálogo culmina com a famosa frase socrática – aquela que todo mundo é obrigado a decorar na escola – e mal sabe em que contexto ela surgiu: “só sei que nada sei.”

→ LEIA também de Célia Carneiro: Casamento: como ele pode resistir ao tempo e à liquidez.

O grande calcanhar de Aquiles dessa cultura fast-food é que na exigência
do acesso e da velocidade de informação, tudo vai perdendo a qualidade. Inclusive, as opiniões.

E a pressa é inimiga da perfeição, já dizia a minha e a sua avó. Nenhuma reflexão mais apurada dos fatos se faz com ansiedade e ritmo veloz, correndo o risco de qualquer “doxa” se manter apenas na superfície.

Mas, nem só de fast-food vive o homem moderno e é claro que há, circulando na rede, opiniões bem mais fundamentadas que outras, e portanto, mais relevantes e dignas de discussão e diálogo.

Escultura de Mao Tse-tung quando jovem: opinião sem pressa, o calcanhar de Aquiles das redes sociais

A potencialização do fenômeno de opinar é fundamental no exercício da liberdade, e repito: isso não é mal em si porque deu voz a todos.

A reflexão que devemos fazer antes de sair por aí numa verborragia incontrolável é: será que temos bagagem suficiente para comentar sobre
tudo? Será que temos conhecimento para exercer juízo de valores sobre
determinados assuntos?

Para a teologia cristã, aquele “que muito fala muito erra” é o que diz
Salomão no livro de Provérbios: “Nas muitas palavras não falta ofensa,
quem retém os lábios é prudente”.

 

Na internet, o “muito falar” ou o muito “comentar” pode ser explicado pela teoria freudiana de pertencimento, a qual a pessoa se sente representada por uma determinada ideia ou grupo, ou para preencher o tempo ocioso com algo que ela supõe ser útil e, na grande maioria das vezes, para suprir a carência de se sentir percebida pelas pessoas.

Muitas das vezes, lacrar nos post ou comentários para receber muitos likes serve, para muitos narcisistas, mais como pílulas de conforto emocional do
que pela necessidade de se debater um assunto de forma séria e intelectualmente honesta.

Para esses, o próprio Cristo, a sabedoria encarnada, tem uma admoestação: “O que sai da boca do homem é o que o contamina, pois o que sai da boca procede do coração”, e como todos sabemos, “a boca fala do que o coração está cheio!”.

Teeteto, diálogo famoso de Platão: remete ao calcanhar de Aquiles das opiniões

— * Célia Ilma Carneiro, santarena, é historiadora, conservadora, cristã e não feminista. Mora em Florianópolis (SC) e escreve regularmente neste blog.

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