A fórmula do casamento duradouro que resiste ao tempo e à liquidez. Por Célia Carneiro
Cena do filme Encontros e Desencontros, de Sophia Coppola, EUA, 2003, onde é possível perceber o traços do pensamento de Bauman. Foto: Reprodução

A ideia de um pacto eterno estabelecido entre um homem e uma mulher
parece que se tornou um tabu em nossos dias. A máxima “felizes para sempre” outrora outorgada nos atos nupciais ao que parece, aos poucos, foi sendo substituída pelo vaticínio do poeta Vinicius de Moraes: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”.

Falar de casamento nos dias de hoje não é mais falar de uma comunhão de vida eterna, mas falar de nosso olhar particular sobre felicidade e realização, é falar de nossas carências, de nossos desejos.

 

Escolhemos os itens de uma relação como se estivéssemos escolhendo um apartamento na planta. E nossos pares tem que dar conta de caberem nesses requisitos previamente estabelecidos.

Célia Ilma

O amor romântico floresceu há pouco mais de 200 anos como uma resposta ao excesso de racionalidade da Idade Moderna. O casamento como um eterno namoro é um fetiche dos românticos que parecem desconhecer os
verdadeiros ingredientes que fazem parte do cotidiano de um casamento.

Quem quer morrer de amores todos os dias será que terá paciência para resolver problemas corriqueiros, como fazer o supermercado, levar o carro no mecânico, decidir o cardápio do jantar. Será que esse excesso de
romantismo sobrevive a boletos não pagos e despensas vazias?

Um casamento não tem nada de idealismo romântico, mas é um ato que pressupõe maturidade e renúncia.

“A grande, a perfeita solidão exige uma companhia ideal”, já dizia Nelson Rodrigues. Para este romântico quase caricatural, a escolha pelo casamento é uma escolha solitária. Não adianta procurar a felicidade no outro. Ela está em nós mesmos. E é na solidão que a encontramos.

Nossa pretensão contemporânea de sermos críticos, cultos, modernos faz vermos tudo aquilo que é tradicional como ultrapassado. E o casamento não fica fora dessa rota. Mas será que rejeitar o modelo tradicional de casamento não nos coloca numa busca errante (e incessante!) pela pessoa
(e pelo relacionamento) ideal?

Viramos noivos eternos para nos tornamos protagonistas dos nossos
desejos. “Descobrir, aceitar e se conformar ao outro é o bravo ato de humildade que está por trás de um casamento” diz o filósofo, Felipe Pondé.

Mas, não nos enganemos: não somos os senhores dos nossos desejos. Desejar algo é sempre desejar o que nos falta. Portanto, saciado o desejo faltante logo um outro virá à tona. Por isso, basear o casamento em um desejo é a receita certa para a frustração.

Toda essa nossa conversa engloba aquilo que fundamenta o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro Amor líquido. Para ele, as relações amorosas modernas carecem de baixo investimento e de dificuldade de
estabelecimento de vínculos. É como água que você tenta pegar com a mão
e ela escorre. Ou seja, são frágeis, fugazes e maleáveis como os líquidos.

Bauman escolheu a metáfora da fluidez para exemplificar as relações humanas porque o líquido sofre constante mudança e não conserva sua forma por muito tempo. Para ele, amor líquido não significa que as pessoas não querem se apaixonar, mas que quando isso acontece elas não conseguem manter essa relação.

Para manter o relacionamento moderno é necessário reinventar-se diariamente, mostrar-se melhor que a concorrência para não entediar o ser amado, decorar todas as posições do Kama Sutra e (re)conquistar a mesma pessoa todos os dias. Ufaa! é praticamente uma maratona de longuíssima distância. E as pessoas cansam. Todas essas imposições as fazem cansar.

 

Ainda que seja criticado e subvertido um dado nos intriga: muitos casais ainda querem viver num casamento tradicional. Segundo o IBGE, setembro de 2020 foi o período com maior registro de matrimônios do ano, registrando um crescimento de 143%* em comparação a abril, período mais crítico do isolamento social no país, superando inclusive o tradicional mês de maio, fenômeno que não ocorria desde 2018.

Por que isso acontece? A resposta talvez esteja na simplicidade. O casamento tradicional sobrevive a complexas teorias, conceitos e impressões particulares. E sobrevive como um aforismo: só quem é simples pode amar.

Porque amor não é um sentimento, é um pacto, uma aliança. O sentimento sempre acaba em tudo, fenece, se modifica ao longo do tempo. O amor, por sua vez, não! É um ato de vontade. Amo o outro, apesar do outro.

* Os números foram analisados pelo IBGE e constam da Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), base de dados dos atos praticados pelos cartórios de registro civil do país, administrada pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil).


— * Célia Ilma Carneiro, santarena, é historiadora, conservadora, cristã e não feminista. Mora em Florianópolis (SC) e escreve regularmente neste blog.

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5 Comentários em: Casamento: como ele pode resistir ao tempo e à liquidez. Por Célia Carneiro

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  • Maicon Paiva disse:

    Hoje em dia a consegue se achar de tudo o que é bom e
    ruim e pode levar as pessoas aos lugares que elas nunca
    imaginaram. Porém tem alguns artigos na internet que são
    pura perda de tempo infelizmente. Posso dizer que o seu
    artigo ajudou muito e também é de extremo valor. Muito
    obrigado pela informação e compartilhado no meu
    facebook.

  • Francisco Eliandro Reis Martins disse:

    O relacionamento a dois ( casamento ) parece que perdeu a nostalgia. E os casais devem se reinventar todos os dias. Ótima reflexão Célia Carneiro.

    1. Celia Carneiro disse:

      …..reinventar-se todo dia! Haja fôlego. Um abração!

  • Antonio José Arruda Freitas Junior disse:

    Texto extremamente interessante. Boa leitura. Abordagem muito clara e lúcida. Já recomendei aos amigos. Sou casado há 3 anos e como a vida muda quando as escovas de dente passam a ficar juntas. Mas vale muito a pena. E vamos ao Kama Sutra haha

    1. Celia Carneiro disse:

      Tudo vale pena quando a alma não é pequena, já dizia Fernando Pessoa. Obrigada pelas recomendações! Um abração.