Jeso Carneiro

Catraieiros no Sairé: a missão de conduzir o início da festa religiosa

Catraieiros no Sairé: a missão de conduzir o início da festa religiosa
As catraias partem da orla em busca dos mastros no lago Verde. Fotos: reprodução

Os catraieiros têm uma participação fundamental para a realização do Sairé. São, na verdade, indispensáveis para que a festa religiosa possa acontecer. Pouco notados no cotidiano, fazem história todos os anos para tornar o evento um dos mais importantes da Amazônia.

A Festa do Sairé deste ano acontecerá de 18 a 22 deste mês, no distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA). Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.

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Os catraieiros conhecem muito bem a travessia entre a orla de Alter do Chão e a Ilha do Amor. Passam um dia inteiro à espera de passageiros, sempre naquela mesma rotina por muitos anos. Mas eles não são simplesmente os profissionais encarregados de conduzir as pessoas de um lado para o outro. Eles têm outras missões que vão muito além da rotina diária.

Eles são os verdadeiros protetores das águas do Tapajós. Cabem aos catraieiros ajudarem nos primeiro rituais feitos na vila balneária e fazerem toda condução necessária, da forma primitiva, remada a remada, na certeza de estar cumprindo a missão religiosa e fortalecendo a tradição da festa.

Das 100 catraias disponíveis, cerca de 80 terão o dever de buscar os mastros

Preparação das catraias para a festa religiosa

Para participarem de mais uma edição do Sairé, as catraias são devidamente preparadas para começarem a missão na vila. Elas têm as pinturas renovadas e os catraieiros recebem fardamentos e coletes novos. O rito religioso fornece bandeirinhas coloridas aos profissionais, para que suas embarcações estejam bem enfeitadas.

Faltando duas semanas para o início do Sairé, iniciam os primeiros trabalhos entre os profissionais, que terão desafios e muitos serviços pela frente. Atividades que exigirão revezamento entre seus ganhos financeiros e ações voluntárias pela manutenção da tradição religiosa.

Das 100 catraias disponíveis, cerca de 80 terão o dever de buscar os mastros, enquanto as outras 20 continuarão os trabalhos de levar e trazer visitantes ao lago Verde, entre a orla de Alter do Chão e a Ilha do Amor. Muitas pessoas não estarão acompanhando o rito religioso, mas continuarão a passeio pela vila, fazendo com que necessite da presença dos catraieiros para a travessia.

Mastros na chegada à praia do Cajueiro

Os condutores dos mastros do Sairé

Os catraieiros levam e trazem os comunitários que farão a derrubada dos mastros, duas semanas antes da festa. Uma semana depois da derrubada, as catraias são amarradas nas embarcações maiores por cordas, que as puxarão até o local onde os mastros foram deixados, no meio das vegetações.

“Antigamente, nossos antepassados, nossos mais antigos, iam de canoa a remo (para buscar os mastros). Hoje em dias, elas (as catraias) são puxadas pelos barcos”, ressalta Antônio Sardinha, presidente da Associação de Catraieiros da Vila de Alter do Chão – ACVAC.

Nessa ida pela busca dos mastros, os catraieiros seguem outra tradição: consumir o tarubá, uma bebida bastante curiosa e comum na vila. Eles consomem dentro das cuias, dessas que são utilizadas para secar as suas canoas. Na volta, cada catraieiro leva em suas cuias mais um pouco do tarubá para levar pra casa e dividir com a família.

A importância do tarubá nos ritos em Alter do Chão

O tarubá é uma bebida leitosa de origem indígena preparada a partir da macaxeira. Era consumida entre os nativos como forma de socialização entre os membros da tribo. A bebida possui um aroma agradável e sabor misturado a um gosto levemente azedo com um adocicado que fica no paladar. Durante a sua produção, ela é fermentada, durando vários dias para que chegue ao ponto ideal.

Conta-se também que o tarubá, assim que passou a ser apreciada por outras pessoas que não fossem indígenas, foi bastante consumida nos finais dos puxiruns de colheita e nos trabalhos de roça, sempre ofertados pelos donos das plantações e colheitas, acompanhados de alguma refeição.

Barcos levando as catraias até à mata na busca dos mastros

Atualmente, a bebida exótica tem uma grande importância cultural, sendo sempre utilizada em dias festivos. É ofertada e consumida no Sairé, tanto no começo da festa, como nos ritos finais. Por passar pelo processo de fermentação, ela se torna alcoólica. Por isso, há o alerta de não se deixar levar pela sua doçura e não consumi-la em excesso.

Guardiões da história do Sairé

Os catraieiros levam os mastros da região de mata de Alter do Chão até a praia da Gurita (também conhecida como praia do Cajueiro). Na margem dessa praia, os mastros ficarão até o dia do início do Sairé, que será na quinta-feira seguinte, quando serão devidamente ornamentados para a festa.

Todo esse processo faz parte de uma tradição bem peculiar da vila, do Sairé e de Santarém. Uma história repleta de narrativas que contribuem de forma significativa para o que gerações passadas viveram e, de alguma forma, contribuíram para todo esse processo tradicional que hoje se vive.

A presença das catraias é mais do que se observa. Ela invade o imaginário das pessoas que presencia esses acontecimentos.

Hoje, como patrimônio histórico, cultural e imaterial de Santarém, o ofício dos catraieiros deve ser mais valorizado e mais respeitado. Esses profissionais também ajudam a valorizar a história e a escrever o futuro na vila de Alter do Chão.

Tarubá, bebida indígena consumida pelos catraieiros na busca aos mastros

Fonte:

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