
O símbolo mais conhecido Sairé chama a atenção pelo seu formato, de como é feito, pelos coloridos nele presentes e partes que parecem estar repletos de muitas outras simbologias. Em cada detalhe, mostra uma figura ou um formato peculiar, devidamente implantado naquela posição e que faz o visitante tentar entender os seus significados.
A Festa do Sairé deste ano acontecerá de 18 a 22 de setembro, no distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA). Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.
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Esse símbolo é posicionado na dianteira da procissão do Sairé. Sua presença no ritual chama a atenção e gera muitas curiosidades sobre a sua função e importância no evento religioso. Logo se percebe que não é qualquer pessoa que o segura e o conduz nas caminhadas pelas ruas de Alter do Chão. É um objeto sagrado e tratado com devido respeito.
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Descrições do símbolo
Quem conduz o arco na procissão é a saraipora, que é acompanhada pelas moças da fita. Assim como o símbolo, a saraipora é o personagem mais icônico. As duas figuras (arco e saraipora) extremamente fundamentais para que a festa aconteça, liderando a procissão na companhia dos juízes e dos alferes.
Chamado de Sairé, o semicírculo é um símbolo religioso relatado por vários estudiosos e pesquisadores por séculos. Esses estudiosos buscaram entender aquele objeto diferente, interpretando e publicando o seu significado, de acordo com as conversas contadas por seus fiéis moradores e das análises feitas dos detalhes desse objeto sagrado.

Esse estandarte tem o formato de semicírculo, feito com cipó ou com madeira. A medida dele tem aproximadamente 1,40m de diâmetro. No seu interior, são vistos mais três semicírculos: dois ficam na parte inferior, um ao lado do outro, e o terceiro semicírculo se sobrepõe aos dois. Os três são arrematados por uma cruz cada, além da cruz existente sobre o semicírculo maior.
Para ser confeccionado, o arco do Sairé é todo revestido por algodão e, sobre esse algodão, são colocados diversos trançados de fitas coloridas, tendo como destaque as cores vermelha, amarela, verde e azul, dando aquele visual característico. Por fim, ele é adornado com diversas flores e também com alguns cacos de espelho.
Significado do semicírculo
O naturalista Barbosa Rodrigues, que esteve em Santarém na década de 1870, descreveu o semicírculo e afirmou, conforme as suas pesquisas, que esse símbolo representa a arca de Noé, a narrativa bíblica encontrada no livro de Gênesis, entre os capítulos 6 e 9. Cada uma das quatro cruzes existentes representam as três pessoas da Santíssima Trindade.
A cruz que fica sobre o arco maior representa Deus; a primeira cruz do interior do arco representa Deus Pai; a cruz inferior do lado esquerdo representa o Deus Filho; a cruz inferior do lado direito representa o Deus Espírito Santo. Toda essa representatividade compõe a Santíssima Trindade, que faz parte da crença da igreja católica, trazida pelos colonizadores europeus na época da colonização.
Na composição do símbolo, o primeiro revestimento do semicírculo é feito de algodão, representando as espumas das águas dos rios, que vêm das maresias.

Há outro significado do algodão, que junto aos tamborins utilizados na procissão utilizados pelos rufadores, representam o ruído das águas. As fitas coloridas, junto às flores presentes no objeto, representam a abundância de alimentos existentes na arca de Noé. Os cacos de espelhos representam a luz.
O sociólogo francês Roger Bastide, que faleceu em 1974, época do retorno da festa, relatava que o Sairé seria conduzido por homens e que o símbolo teria um significado bem diferente do que havia proposto Barbosa Rodrigues. Para Bastide, enquanto a cruz do meio, no interior do arco, representa a cruz do Salvador, as cruzes das laterais representam os dois ladrões que foram crucificados ao lado de Jesus.
Relatos do semicírculo por estudiosos
Além de Barbosa Rodrigues, outras figuras históricas descreveram o arco, como o naturalista inglês Henry Walter Bates, que na então vila de Serpa, hoje cidade de Itacoatiara, no estado do Amazonas, assim descreveu por volta de 1848: “…grande armação semicircular, coberta de algodão e cheia de enfeites, cacos de vidro, etc. Dançavam acima e abaixo, cantando todo o tempo um hino lamentoso e monótono, em língua tupi…”.

O etnógrafo Lourenço da Silva Araújo e Amazonas registrou em 1892: “É um semicírculo com seu diâmetro, raios, cordas, etc., tudo forrado de algodão, ou arminho, enfeitado com fitas e coroado com uma cruz da mesma forma, forrada e enfeitada. Três mulheres (indígenas) o carregam; e é muito raro que uma delas não seja coxa. Elas levam o Sairé, dançando e cantando um hino em honra da Santa Cruz, da Virgem Santíssima e São João Batista”.
O francês Roger Bastide complementa em seus relatos: “Dois arcos menores estão presos no interior do maior por fitas das cores especiais de diferentes santos, e as flechas, que ponteiam pressas aos três arcos, terminam em forma de cruz.” Durante o cortejo do semicírculo, Bastide ainda afirmou que era entoado o seguinte cântico à Maria:
Nossa Senhora é tão linda! Seu filho, mais belo ainda, É como rosa em botão Que nasceu na sua mão.
O semicírculo é um símbolo tão importante para Alter do Chão, que ele é representado no letreiro onde está o nome da vila, construído pelo artista Apolinário Oliveira, assim como também é visto nas artes das empresas locais, nos produtos para vendas, nas apresentações folclóricas do distrito e tantos outros objetos e lugares que fazem parte dessa comunidade.

Fonte:
- Alter do Chão e Sairé: Contribuição para a história (livro do padre Sidney Augusto Canto, de 2014| 1ª edição – Editora e gráfica Tiagão);
- Çairé: Uma festa na Amazônia (livro de Socorro Santiago, de 1999 | 1ª edição – ICBS).
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