
Ainda é uma dúvida por parte de muitas pessoas sobre a escrita do nome desse importante evento que movimenta a vila de Alter do Chão e, claro, a cidade de Santarém: afinal, escreve-se Sairé ou Çairé?
A Festa do Sairé (ou será Çairé?) deste ano será de 18 a 22 de setembro, em Alter do Chão, em Santarém (PA). Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.
Leia também sobre o evento:
- Alter do Chão: história, significado e palco do Sairé. E ainda: A proibição do Sairé e o seu renascimento em Alter do Chão em 1973.
Por muito tempo a grafia “Çairé” chegou a protagonizar nas logomarcas oficiais do evento, nos anúncios, nos cartazes, nos banners e em muitos outros meios. Até mesmo em livros essa grafia passou a ter domínio diante dos olhos dos leitores.
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Mas logo a palavra “Sairé” ganhou força, também fazendo parte das logomarcas e tantos outros anúncios, passando a disputar com “Çairé” a sua “legitimidade”. Certamente que isso passou a confundir muitas pessoas, que ainda se perguntam: qual é a grafia correta?
Etimologicamente, conforme os pesquisadores santarenos, Sairé ou Çairé vem do nheengatu, variante do tupi, que assim significa: “Çai” ou “Sai”= Salve; “Ere”= Tu o dizes, ou seja, representa a saudação “Salve! Tu o dizes”.
Os defensores do “Çairé” e o nheengatu “corrompido”
O ativista cultural Paulo Cidmil no artigo “A linguiça acaba de comer o cachorro” defende que a escrita correta da palavra seja “Çairé”. Em sua justificativa, afirma se tratar de um termo de “origem na língua ‘nheengatu tupi’”.
Outro defensor de “Çairé” é Edilberto Ferreira, que publicou um livro intitulado “O berço do Çairé”. Um dos argumentos do escritor tem por base o folclorista Luís da Câmara Cascudo, que teria registrado “Çairé” no Dicionário do Folclore Brasileiro, edição de 1954.

Felisberto Sussuarana destaca que muitos tupinólogos, como o coronel Francisco Raimundo Correia de Farias, preferia a escrita inicial com “ç”. No estudo de Francisco Raimundo Correia, “Annaes da Biblioteca e Archivo Público do Pará”, de 1902, são vistos outros termos com a mesma inicial, como “çuaçumé” (cabra) e “çoçoca” (pilar ou socar), possivelmente da mesma origem indígena.
Tanto Edilberto Ferreira como padre Sidney Canto, este na sua obra “Alter do Chão e Sairé: Contribuição para a história”, afirmam que quem implantou a palavra “Çairé” foi o naturalista mineiro João Barbosa Rodrigues que, passando por Santarém na década de 1870, descreveu o evento, registrando o nome iniciado com “ç”.
Barbosa Rodrigues achava que o idioma nheengatu do Pará teria sido “corrompido” e que, por tanto, o correto seria iniciar a palavra com esse sinal (ç). Sidney Canto, no entanto, afirma que em nenhum jornal paraense do século XIX foi encontrada a palavra “Çairé”.
O “Sairé” defendido até por um fundador da ABL
Um crítico ferrenho e contemporâneo de Barbosa Rodrigues foi justamente José Veríssimo, escritor obidense, fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), estudioso da literatura brasileira, que tinha bastante conhecimento do nheengatu e que, para ele, o correto seria “Sairé”.
Sobre a escrita de “Sairé”, na obra “O cedro vermelho”, de Francisco Gomes de Amorim, publicada em 1874, na segunda cena do terceiro ato, a juíza da festa, uma das personagens da obra, afirmou “Tragam o Sahyré; vamos soltar fogueiras e cortar o mastro”. Nas páginas seguintes lê-se: “As três mulheres do Sahyré cantavam: ‘Sahyré, Sahyré, Sahyré, em louvo do senhor são Thomé’”.

Francisco Gomes de Amorim foi um poeta e dramaturgo português que viveu na Amazônia entre os anos de 1837 e 1846, na comunidade Curumu, em Alenquer (PA). Essa experiência influenciou a sua obra literária. O cenário da história de “O cedro vermelho” é justamente essa comunidade alenquerense.
Os indígenas não tinham alfabeto organizado
A maioria dos nativos das Américas não tinha um alfabeto organizado e com estrutura gramatical, como os europeus tinham na época e como se tem atualmente. Esse tipo de escrita foi trazido ao Brasil pelos colonizadores.
Embora pintassem, desenhassem e criassem esculturas próprias, os nativos da Amazônia tinham a oralidade a forma de comunicação principal para, assim, preservar os conhecimentos e experiências que tinham para as gerações seguintes.
Certamente que eles tinham os grafismos, que são as pinturas corporais, como método para expressarem seus pensamentos, ideias, vivências, por meio de linhas e desenhos geralmente geométricos.
Por exemplo, o tupi é uma língua oral, ou seja, não tinha um sistema de escrita. As gramáticas surgiram. Os jesuítas tiveram o desafio de criar um sistema de escrita para esse idioma, utilizando e adaptando o alfabeto latino para expressar os sons do tupi.
“Ç”, um sinal criado na Europa
O “ç” é um sinal diacrítico, ou seja, um sinal colocado sobre ou sob uma letra para mudar a sua pronúncia ou o seu significado. Originou-se na Espanha no século XI. Atualmente, o espanhol não utiliza mais esse sinal.
O nome “cedilha” vem de “zedilla”, diminutivo de zeta, que é o nome da letra “z”. Na época, o “ç” era uma letra ibérica arcaica chamada de “z visigótico”.
“Sairé” segundo as regras do português; “Çairé” segundo o marketing
Para Sidney Canto, a palavra “Çairé” é usada como marketing, já que as normas da língua portuguesa não permitem que uma palavra seja iniciada com “ç”. E que também não se viu ainda qualquer explicação convincente que comprove o uso desse sinal no início da palavra, da qual usam como justificativa ser de “origem indígena”.
De todo modo, não se vê total proibição dos dois diferentes termos. Eles têm suas histórias, têm suas justificativas e são utilizados para um único evento. “Sairé” segue as regras da língua portuguesa e é considerada a “forma correta”.
“Çairé” é recomendada pelos estudiosos para que seja escrita sempre entre aspas. Sua escrita chama a atenção pela peculiaridade e pela polêmica, fazendo com que a festa tenha essa diversidade de ideias e significados.

Fonte:
- Alter do Chão e Sairé: Contribuição para a história (livro do padre Sidney Augusto Canto, de 2014| 1ª edição – Editora e gráfica Tiagão);
- Amazônia: Tapajônia: Santarênia – Enigmas e revelações (livro de Felisberto Sussuarana, de 2000 | 1ª edição – Instituto Boanerges Sena);
- https://super.abril.com.br/coluna/oraculo/o-que-e-a-cedilha-c/, acessado em 05/08/2025;
- O Berço do Çairé (livro de Edilberto Ferreira, publicado em 2008);
- O cedro vermelho (livro Francisco Gomes de Amorim, de 1874| 1ª edição – Imprensa Nacional de Portugal);
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