A proibição do Sairé e o seu renascimento em Alter do Chão em 1973

Publicado em por em Educação e Cultura, Pará, Santarém

A proibição do Sairé e o seu renascimento em Alter do Chão em 1973
Exibição do Sairé na vila de Alter do Chão nos anos 1970. Fotos: IHGTap

Quando se fala que o Sairé existe há mais de 300 anos, pensa-se que é o mesmo evento celebrado na vila de Alter do Chão.. Entretanto, alguns estudiosos negam isso. Como revelado na matéria anterior, existiam Sairés em outros lugares, muito antes da vila balneária.

A Festa do Sairé deste ano será realizada de 18 a 22 de setembro no distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA). Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.

Não há nenhuma evidência documental ou qualquer menção do Sairé no distrito de Alter do Chão no século XIX. Não foram encontrados registros nos jornais da região oeste do Pará ou mesmo em quaisquer meios de comunicação em outro lugar do estado.

Monsenhor José Gregório à frente do Sairé da Aldeia

O “Çairé” que o naturalista mineiro João Barbosa Rodrigues fez registro em 1872 foi o mesmo reintroduzido pelo monsenhor José Gregório Coelho, mas no bairro Aldeia, na cidade de Santarém. Em nenhum momento Barbosa Rodrigues cita a vila de Alter do Chão. Foi também a partir de 1875 que o naturalista passou a usar a grafia Çairé.

É necessário destacar a figura do monsenhor José Gregório, um religioso que foi importante para a história de Santarém, especialmente nas ações religiosas. Nascido em Belém no dia 5 de fevereiro de 1841, o padre foi vigário geral da diocese de Belém, vigário geral do Baixo Amazonas e pároco de Santarém. Faleceu em 5 de fevereiro de 1897, ou seja, faleceu no dia do seu aniversário de 56 anos.

Monsenhor José Gregório, além de ter ajudado na reintrodução do Sairé e também ter incentivado a volta de outras antigas tradições locais, realizou uma grande reforma na catedral de Nossa Senhora da Conceição, instalando em 1880 o primeiro altar de mármore da província do Pará.

Ajudou a reformar também a igreja de São Sebastião, no bairro Prainha, as igrejas de Alter do Chão, Arapixuna, Aritapera e Água Preta. Seu nome batiza oficialmente a praça da matriz.

A Igreja Católica proíbe o Sairé

O Sairé existia onde hoje é a cidade de Santarém, mais especificamente no atual bairro Aldeia, onde também eram entoadas cantigas em nheengatu – língua indígena geral da Amazônia, especialmente no período colonial. Mas com o processo de urbanização, conforme o passar do tempo, os moradores do lugar não mantiveram a tradição, o que fez com que o Sairé da Aldeia acabasse.

Ao verificar dos registros de séculos passados aos cantos e o modo como o evento é realizado nos dias atuais, especula-se que o Sairé de Alter do Chão pode ter surgido no fim do século XIX ou início do século XX. Essas informações ainda estão sendo estudadas devido a falta de registros necessários.

Entretanto, a Igreja Católica proibiu a realização do Sairé entre os anos de 1943 e 1973. O motivo da proibição teriam sido as desavenças e os excessos que aconteceram entre os moradores da vila e participantes do evento, o que causou essa longa paralisação.

Alter do Chão nos anos de 1970, quando o Sairé foi resgatado

Festas abusivas

Em 1942, monsenhor Anselmo Pietrulha, então administrador apostólico da Prelazia de Santarém, publicou uma carta circular, pedindo aos sacerdotes que cortassem abusos vistos nas festas religiosas. O Sairé estava entre essas festas religiosas “abusivas”.

No teor de uma portaria, de nº 41, de 12 de fevereiro de 1942, lia-se que o chefe de Polícia do Estado recebia “constantes reclamações contra festividades religiosas na sede e no interior da cidade”. Eram vistas nessas festas “práticas de exploração de crença religiosa do povo, para dele se obter dinheiro sobre falsa alegação que se destinava ao santo homenageado”.

Diante disso, as festividades religiosas foram proibidas. Mas ao que se sabe, os próprios sacerdotes nascidos na região não viam nenhum problema no Sairé e nas outras celebrações condenadas pelos seus superiores, pois para eles esses eventos não passavam de uma “cultura tipicamente popular”.

Dom Anselmo Pietrulla: polonês contra o Sairé

As proibições partiram dos missionários europeus e norte-americanos, como o próprio Anselmo Pietrulha, que era polonês. Esses missionários viam as celebrações, como o Sairé, como “degeneração moral e religiosa”. Esse “combate aos excessos” não foram aceitos com tranquilidade pelos santarenos.

Houve tensões por parte dos fiéis, tendo sido necessário na época, inclusive, mudar a sede da paróquia, que era em Alter do Chão, para a então vila de Belterra (hoje cidade). Embora Alter do Chão não tivesse mais o status de paróquia, junto à proibição do Sairé, os fiéis, desde a proibição em 1943, não esqueceriam as suas tradições.

1973: O renascimento do Sairé em Alter do Chão

Dentro desse período, mais especificamente no ano de 1951, o etnólogo Manuel Nuno Pereira, fez o primeiro registro do Sairé na vila de Alter do Chão, consultando figuras importantes que nasceram e viveram na comunidade: Manoel Duarte Sardinha, que foi zelador da igreja Nossa Senhora da Saúde, Antônio Perez Pimentel e Maria Francelina de Braga.

Essas informações, de testemunhas vivas da época, serviram de fontes necessárias para que se tivessem registros necessários da preservação de sua história. Possivelmente foram fundamentais também para que servissem ao retorno do evento, ate então encerrado na cidade.

Depois de longos 30 anos, o ex-governador do Pará Fernando Guilhon, de forma direta, nos festejos de São João, fez retornar a festa do Sairé, em junho de 1973.

Inicialmente ocorreu pelos bairros de Santarém. Mas a sua consolidação aconteceu no distrito de Alter do Chão, de onde a celebração religiosa nunca mais seria interrompida e que se transformaria nessa celebração profano-religiosa tão importante para os tempos atuais.

Fernando Guilhon, ex-governador do Pará

Fonte:

  • Alter do Chão e Sairé: Contribuição para a história (livro do padre Sidney Augusto Canto, de 2014/ 1ª edição – Editora e gráfica Tiagão);
  • https://sidcanto.blogspot.com/2016/09/a-proibicao-do-saire-nos-anos-1940.html?m=1, acessado em 08/08/2025;
  • O Berço do Çairé (livro de Edilberto Ferreira, publicado em 2008).

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