Sairé começou na Aldeia, e já teve em Aveiro, Alenquer e Parintins, no Amazonas

Publicado em por em Pará, Santarém

Sairé começou na Aldeia, e já teve em Aveiro, Alenquer e Parintins, no Amazonas
Aldeia, em Santarém, berço do Sairé. Muito antes de chegar em Alter do Chão. Foto/reprodução: Sidney Canto

Para muitos estudiosos, é um erro pensar que o Sairé teve origem em Alter do Chão e que só existiu na paradisíaca vila de Santarém (PA). Embora o balneário tenha a fama de ser a “terra do Sairé”, esse importante evento histórico e religioso já aconteceu em outros lugares, o que para muitas pessoas chega a ser algo inimaginável.

Neste ano, a Festa do Sairé será realizada no período de 18 a 22 de setembro. Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.

Início: na aldeia dos Tapajós

Quando o padre italiano João Maria Gorzzoni organizou o Sairé, no século XVII, ele provavelmente o fez na aldeia dos Tapajós, onde hoje fica o bairro Aldeia, em Santarém. Somente muito tempo depois que o evento foi levado para a aldeia dos Borari, em Alter do Chão.

O Sairé, porém, não foi um evento exclusivo de Santarém. Ele já foi organizado pelos religiosos europeus em outros lugares. Segundo Sidney Canto, houve Sairés mais antigos que o de Alter do Chão em outras cidades e comunidades da região amazônica.

Já teve Sairé em Belém, Alenquer, Aveiro, Bragança, Monte Alegre, incluindo cidades amazonenses como Itacoatiara e Parintins. Supõe-se que deve ter acontecido também em outras cidades, o que já exigiria relatos e crônicas da época que comprovassem esses ocorridos.

Itacoatiara, onde o Sairé foi descrito por Henry Bates no século XIX

O Sairé mais antigo que se tem notícia

O relato mais antigo de Sairé vem da vila Franca, na foz do rio Arapiuns. Essas descrições foram feitas pelo jesuíta João Daniel, que era o missionário na comunidade. O então bispo do Grão-Pará, dom frei João de São José e Queiroz, chegou à comunidade em 1762 e acompanhou os trabalhos do padre João Daniel.

As vilas de Boim (missão Santo Inácio de Loyola), Pinhel (missão São José dos Maytapus) e Aveiro (missão Nossa Senhora da Conceição de Aveiro) também tiveram o Sairé. Os registros nesses lugares foram feitos por dom José Afonso de Moraes Torres, que foi o 9º bispo do Pará, entre 1844 a 1857 e teve a oportunidade que visitar essas comunidades.

Outras cidades onde teve Sairé

Próximo à cidade de Monte Alegre (PA), o Sairé foi descrito pelo escritor obidense José Veríssimo, membro fundador da Academia Alenquerense de Letras (AAL) que assim afirmou: “Quando estive pela primeira vez em Monte Alegre (1876) fui, a duas léguas desta cidade, no lugar Juçarateua, assistir a uma pequena festa feita à Nossa Senhora de Nazaré […]”.

O Sairé, na então vila de Alenquer, mais especificamente na comunidade Curumu, é mencionado por Luiz Ismaelino Valente, na sua obra “O Curumu de Alenquer na obra de Francisco Gomes de Amorim”, uma “resenha histórica” publicada em 2011, no qual ele narra a trajetória do escritor lusitano Francisco Gomes de Amorim nessa comunidade.

Vila da Franca, outro lugar em Santarém onde o Sairé também foi realizado

Ismaelino Valente destaca que Gomes de Amorim escreveu o teatro “O Cedro Vermelho”, encenado pela primeira vez em 1856, tratando, entre outros assuntos, dos festejos de São Tomé, entre os tapuius do Curumu, nos idos de 1837.

No Amazonas

Como visto no começo do texto, o Sairé esteve presente também em vilas de onde hoje é o estado do Amazonas.

Há relatos feitos na então vila da Serpa, onde atualmente é a cidade da Itacoatiara. Quem fez os registros nesse lugar foi o naturalista e explorador inglês Henry Walter Bates, que viveu no século XIX e morou na Amazônia entre 1848 e 1859.

Lago do Curumu, em Alenquer, local onde o "Sayré" era realizado, segundo Francisco Gomes de Amorim

Fonte:

  • Alter do Chão e Sairé: Contribuição para a história (livro do padre Sidney Augusto Canto, de 2014| 1ª edição – Editora e gráfica Tiagão);
  • O Curumu de Alenquer na obra de Francisco Gomes de Amorim (livro de Luiz Ismaelino Valente, de 2010 | 1ª edição – Smith Editora);
  • Ensinando a ser padre na diocese do Pará nos oitocentos (artigo de Allan Azevedo Andrade e Fernando Arthur de Freitas Neves, de 2015).

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