
Mais uma edição da Festa do Sairé será realizada Alter do Chão, distrito de Santarém (PA), em 30 dias. Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional. Ocorrerá de 18 a 22 de setembro.
Contudo, dizer que esta será a edição de número 52 do Sairé poderá, para muitas pessoas, ser algo polêmico e controverso, já que se costuma dizer que ele tem mais de 300 anos de existência. Mas é preciso entender o contexto dessa história, rica em inúmeros episódios, que serão contados aqui no portal JC nos próximos 30 dias.
Embarque conosco nestas histórias e vamos, aos poucos, conhecer os detalhes dessa celebração cultural, de acordo com posicionamentos de estudiosos e entendendo, de fato, o que é o Sairé e qual a sua dimensão, não somente para Santarém ou para a Amazônia, mas também para o Brasil.
Muito além do festival dos botos
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Os indígenas boraris já realizavam seus próprios rituais festivos antes das chegadas dos colonizadores. Esses rituais aconteciam acompanhados de dança, consumindo tarubá e comendo das iguarias que os próprios nativos preparavam.
Mas esses rituais não eram o Sairé. Qualquer sociedade, como os povos tradicionais, de alguma forma já fazia a sua própria celebração, seja para se conectarem com o mundo espiritual, conforme o que eles acreditavam, seja para fortalecer laços comunitários e conviver socialmente.

Atualmente, quando se fala em Festa do Sairé a primeira coisa (ou única coisa) que muitas pessoas pensam é justamente na disputa dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa, que é o evento que, nos dias atuais, possivelmente alcança maior projeção pelos meios de comunicação.
É sempre bom relembrar que o Festival dos Botos surgiu em 1997 e o Sairé, sem data certa de seu surgimento, teria iniciado em outros lugares desde o século XVII. São duas festas (religiosa e profana) que se juntam e levam ao público a importância do evento religioso e folclórico do distrito de Alter do Chão, a pouco mais de 30 km da Santarém.
Sairé veio de séculos atrás
O padre e historiador santareno Sidney Canto destaca que não é fácil dizer quando nasceu o Sairé. Mas afirma que em Alter do Chão essa festa é muito mais recente do que se imagina. Sidney Canto diz ainda que esse evento, da forma como é realizado nos tempos atuais, está muito distante do que era originalmente.
O historiador ainda complementa que a tradição do antigo Sairé, na aldeia dos Tapajós, teria início com o padre jesuíta italiano João Maria Gorzzoni, que também foi musicista, ao ensinar os curumins da aldeia Tapajós a tocar gaitas e tambores. O padre italiano teria criado uma dança, acompanhada de músicas de “meninos e meninas” da aldeia, que seria denominada Sairé.
É importante frisar que o padre João Maria Gorzzoni não foi missionário em Alter do Chão, mas atuou na missão dos Tapajós, onde hoje fica a cidade de Santarém.

Grandeza única
Edilberto Ferreira faz uma análise, associando a festa religiosa aos movimentos ritualísticos dos indígenas boraris, os habitantes dos rios Tapajós e Maró-Arapiuns, do oeste do Pará.
O estudioso especulou, mesmo com “escassas literaturas a esse respeito”, que possivelmente tenha sido no ano de 1659 o nascimento do Sairé, onde hoje é a cidade santarena, devido a chegada do padre Antônio Vieira à região, para incursões religiosas jesuíticas na Amazônia.
Mas isso é apenas uma hipótese. Ainda há a necessidade de mais informações para se saber detalhes minuciosos sobre essa festa que movimenta uma vila e chama atenção de turistas e curiosos que vão ao local conhecer.
Em meio às dúvidas e ao mistério, o Sairé tem sido há muito tempo um evento de grandeza única e tão interessante, que qualquer pessoa mergulha nas narrativas e evidências desta festa, que foi realizada e acompanhada por muitas gerações.
É o que veremos nos próximos episódios da nossa série sobre o Sairé, que estarão disponíveis a partir de hoje, 18 de setembro, a 30 dias do início da festa.

Fonte:
- O Berço do Çairé (livro de Edilberto Ferreira, publicado em 2008);
- Alter do Chão e Sairé: Contribuição para a história (livro do padre Sidney Augusto Canto, de 2014/ 1ª edição – Editora e gráfica Tiagão).
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