
Os mastros são outros símbolos icônicos que fazem parte da festa do Sairé. Eles representam o agradecimento pela colheita e a fartura conquistada na última safra. A importância dos mastros é tão grande que são justamente por meio deles que a festa religiosa inicia e faz parte do seu término. Existe todo um ritual realizado para que tudo seja feito de acordo com a tradição.
O Sairé deste ano será realizado de 18 a 22 de setembro, no distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA). Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.
Leia também sobre o Sairé:
- Arco do Sairé, o símbolo mais representativo da festa religiosa.
- Os personagens, novos e antigos, que fazem o Sairé.
A cerimônia dos mastros é realizada bem antes do início do Sairé. A primeira missão feita pelos comunitários é justamente a chamada “tiração dos mastros” ou “cortada dos mastros”. Quem retira são os comunitários junto a outros personagens da festa. A cortada dos mastros é realizada duas semanas antes do início do Sairé.
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Mastros e preservação ambiental
No barracão do Sairé é feito um momento de confraternização, onde os presentes, como autoridades, personagens da festa e demais comunitários compartilham de um café da manhã, antes de desbravarem nas matas e buscarem pelos caules ideais para que sejam os mastros que iniciarão a festa.
Grupos de pessoas vão até a área de mata que circunda o lago, onde um dos lados é definido previamente para extrair as madeiras para que sejam ideais para a confecção dos mastros. De acordo com Antônio Sardinha, presidente da Associação de Catraieiros da Vila de Alter do Chão (ACVAC), todo ano há revezamento de qual lado do lago extrair as madeiras.

Num ano, escolhem um lado do lago para extração das madeiras, onde, em seguida, é feito plantio de várias mudas, para que não fique um espaço vago de vegetação. No ano seguinte, são extraídas madeiras do outro lado do lago, sendo feito depois o plantio de mais mudas. Dessa forma, além de manterem a tradição, contribuem para evitar o desmatamento, havendo sempre o equilíbrio ambiental.
As madeiras extraídas são recolhidas e colocadas na margem, no lado do lago definido para a extração do caule, para ficar por um determinado tempo naquele local. Os comunitários saem daquele lugar para retornarem na semana seguinte, quando as madeiras já não estarão mais verdes.
Homens e mulheres carregam os mastros
Faltando uma semana para o início do Sairé, os caules extraídos são buscados pelos barcos, que por meio de cordas puxam as catraias que vêm logo atrás, todas ornamentadas com bandeirinhas coloridas e devidamente organizadas.
O ritual continua ao carregarem os dois mastros e levá-los na direção das catraias. Logo atrás dos dois barcos estão duas catraias maiores. Cada uma dessas catraias grandes carregarão um dos caules.
São cerca de 80 catraias que saem da margem de Alter do Chão para seguir nessa importante missão, indispensável para que a festa religiosa finalmente possa acontecer. A visão das catraias coloridas, organizadas em fila indiana nas águas do Tapajós, é apenas a primeira das belas imagens que compõem o Sairé.

Da mata, os caules são encaminhados para a praia da Gurita (popular praia do Cajueiro), que fica de frente para a Ilha do Amor, permanecendo por mais uma semana, até a próxima quinta-feira, dia que finalmente iniciará o Sairé. Chegando esse dia, sobem com os mastros para serem enfeitados.
Na tradição, um mastro é carregado pelos homens, conduzidos por um “juiz”, e o outro mastro é carregado pelas mulheres, conduzido por uma “juíza”. Na procissão em que homens e mulheres carregam seus mastros, a saraipora é vista liderando a caminhada e tendo em suas mãos o arco do Sairé, símbolo da Santíssima Trindade.
A procissão dos mastros liderada pela saraipora
Junto à saraipora, juiz e juíza, vêm os outros personagens: capitão, alferes, mordomos, entre outros. Os procuradores são os que avisam os mordomos sobre a retirada dos mastros ou para fazer outras atividades da festa.
Junto a eles estão os foliões, que cantam e agitam bandeiras, além dos rufadores, que tocam seus instrumentos, levando a alegria para todos que marcam presença nesse momento histórico e importante da fé local.
O mastro carregado pelos homens é dedicado a São José. Já o mastro carregado pelas mulheres é dedicado a Nossa Senhora. Na frente dos mastros, outra pessoa que faz uma personagem, chamada de saraipora, conduz o sairé, o famoso arco, que é o mais conhecido símbolo da festa.
Durante a procissão, enquanto carregam os mastros, é entoada uma canção de origem portuguesa, junto ao toque dos rufadores e canto dos foliões, que assim diz:
Marabaixo, maracima, Quem trouxe nesta terra Lágrima de uma viúva, Suspiro de uma donzela. Por aqui vamos andando, Remando contra a maré, Para ver se encontramos Bom Jesus de Nazaré.

Um ato de conexão com tradições locais
Após ser enfeitada com grande quantidade de frutas, várias bandeirinhas, garrafas de cachaça e todo colorido característico do evento, é realizada a “fincada dos mastros” na praça do Sairé, diante da multidão e de todos os personagens. Um gesto mostrando o seguimento da festa religiosa.
Somente no dia do encerramento da festa é feita a “derrubada dos mastros” ou a “cortada dos mastros”. As bandeiras e garrafas de cachaça são retiradas do alto, antes de iniciar os cortes. Tanto no mastro dos homens como no mastro das mulheres há revezamento por pessoa a cada machadada. É dado o primeiro golpe e, um por um, diferentes pessoas fazem o uso do machado.
A partir daí, há a competição de quem derruba primeiro o mastro, se são os homens ou as mulheres. A tradição dos mastros não tem uma data certa de quando iniciou. Mas seu significado no Sairé é indispensável historicamente.
A busca pelos mastros na mata, as procissões, ornamentações e derrubadas são uma formas de conectar os comunitários com as tradições e culturas locais.

Fonte:
- Çairé: Uma festa na Amazônia (livro de Socorro Santiago, de 1999 | 1ª edição – ICBS);
- O Berço do Çairé (livro de Edilberto Ferreira, publicado em 2008).
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