
De um lado, o topo inquestionável da pirâmide financeira do país. Do outro, uma série de irregularidades que culminam em demissões sumárias e cobranças judiciais. O dono de cartório brasileiro se consolidou como a categoria profissional com o maior patrimônio médio declarado do Brasil.
O peso dessa lucratividade, porém, contrasta duramente com recentes escândalos de gestão no interior do Pará, onde titulares foram destituídos por embolsar milhões que deveriam financiar o Estado.
A elite
Dados da Receita Federal (referentes às declarações do IRPF 2026) confirmam: ninguém no Brasil acumula mais bens do que os titulares de serviços notariais e de registro. Os donos de cartório declararam um patrimônio médio de R$ 3,28 milhões.
Para se ter dimensão da liderança, eles superam com folga a segunda classe mais abastada do funcionalismo: os membros do Judiciário e do Ministério Público (juízes, desembargadores, promotores e procuradores), cujo patrimônio médio bateu na casa dos R$ 2,93 milhões.
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A atividade cartorária, que só passou a exigir concurso público e formação em Direito com a Constituição de 1988 — encerrando privilégios vitalícios e hereditários —, administra serviços essenciais e com demanda cativa (monopólio estatal delegado). É um negócio de altíssima rentabilidade garantida. Contudo, administrar esse fluxo de caixa exige prestação de contas, um pilar que ruiu no interior paraense.
Curiosamente, é o Judiciário (a segunda classe mais rica e responsável pela fiscalização) que está freando os excessos da categoria que lidera o ranking de milionários. Conforme revelado pelo JC, o Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) precisou agir com rigor contra a apropriação indevida de recursos públicos em duas cidades diferentes nesta mesma semana.
O rombo de Altamira
A responsável pelo 1º Cartório de Notas e Protesto de Títulos de Altamira, Nadyr Sandra Anchieta da Rocha, perdeu definitivamente a delegação. A investigação do TJ revelou que a tabeliã reteve indevidamente mais de R$ 1,3 milhão em taxas obrigatórias apenas entre o final de 2019 e o início de 2023.
Os valores, cobrados diretamente do cidadão no balcão, deveriam custear a manutenção da própria Justiça e financiar o sistema de registros civis gratuitos (como certidões de nascimento para a população de baixa renda). Nadyr ignorou notificações e não apresentou justificativas para a inadimplência.
A quebra de confiança em Faro
Um dia antes da decisão de Altamira, o TJPA já havia exonerado a responsável interina pelo cartório da cidade de Faro, Pauliana Góes Belém.
O motivo foi o mesmo “modus operandi”: graves irregularidades financeiras, ausência total de prestação de contas e a retenção de dinheiro destinado ao TJ. Para evitar um apagão nos serviços essenciais, a titular da cidade vizinha de Terra Santa assumiu provisoriamente o comando, e a antiga gestora responderá civil e criminalmente pelas dívidas.
O recado
O cotejamento dessas duas realidades evidencia que, se o comando de cartórios oferece o caminho mais seguro para a elite financeira do Brasil, ele também embute um risco administrativo que não perdoa a má-fé.
O repasse de valores fiduciários não é uma escolha contábil, é o preço imposto pelo Estado para a concessão daquele serviço. As intervenções do TJPA mostram que a fiscalização sobre os “donos do papel” está menos tolerante: quem tentar inflar seu patrimônio retendo o que é público perde a caneta, o cartório e, invariavelmente, os milhões.
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