
A Amazônia é frequentemente celebrada nos palanques internacionais como o “pulmão do mundo”, mesmo liberando oxigênio e não CO2, ou o grande celeiro global “da biodiversidade”. Na verdade, ela pode liberar CO2 quando a desmatam e queimam.
Apesar dos discursos globais, para quem faz ciência de ponta no chão da floresta, a realidade é muito diferente da retórica. Existe um preconceito velado, geográfico e epistemológico que atua como um freio de mão puxado contra a inovação nascida no Norte do Brasil. A ciência amazônica é tratada como periférica, exótica, mas raramente como o que ela realmente é: uma fronteira tecnológica de potencial global.
Nossos cientistas, mesmo que sejam brilhantes, são poucos reconhecidos. Para sermos reconhecidos temos que fazer muito, mover o mundo, e ainda nos vêem com desconfiança. Só não nos dão tacapes e flechas, nada contra os indígenas, porque não podem.
Sou um simples neurocientista da Amazônia, nascido nessa terra maravilhosa. Falo por experiência própria e com a legitimidade de quem lidera um projeto que pode ter impacto mundial. Estamos desenvolvendo um neuroprotetor derivado do gergelim preto (Sesamum indicum) para o tratamento do acidente vascular cerebral (AVC), doenças de Parkinson, Alzheimer e outras condições neurológicas.
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Descobrimos que o sésamo amazônico também é bom para dor e os médicos começam a nos procurar para perguntar a respeito. Alguns já até prescrevam como terapia alternativa para AVC, o que podem fazer quando não existe alternativa. Nesse caso, podem usar terapias ainda experimentais.
É uma tecnologia translacional, nascida de teses por mim orientadas na Universidade Federal do Pará do Pará (UFPA) e avançada para a inovação na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e testada em um renomado laboratório credenciado pela Anvisa, o CIENP (Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos) de Florianópolis e pela startup Neuroprotect, startup Amazônica que fundei em Santarém em 2021. Esse projeto teve apoio da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) na sua fase inicial, mas precisamos ir adiante.
O potencial do nosso neuroprotetor é tão evidente que furou a bolha regional e ganhou as páginas da grande imprensa nacional.
Tivemos nosso trabalho destacado em veículos de massa, incluindo uma matéria de grande repercussão na Folha de S.Paulo (https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2025/09/pesquisa-testa-substancia-derivada-de-gergelim-amazonico-contra-o-avc.shtml), e reverberado aqui nesse blog e em outros veículos de mídia importantes, como O Liberal, Portal R7 e um só planeta, do grupo globo.
A sociedade lê, se interessa e cobra; a mídia especializada reconhece a inovação. Mas, paradoxalmente, enquanto jornalistas de São Paulo e outros estados enxergam o valor do que fazemos em Santarém, os detentores da chave do cofre público nos ignoram.
A assimetria é gritante. Vejamos o caso da brilhante professora Tatiana, da UFRJ, que desenvolveu a polilaminina para tratar pessoas paraplégicas e tetrapléticas. Seu projeto recebeu financiamento da farmacêutica Cristália e apoio do governo federal, já estando em ensaio clínico fase I, com autorização da Anvisa. É um apoio justíssimo e muito merecido, que aplaudo de pé. Mas a pergunta que ecoa é: por que o nosso projeto, que também ocupa as manchetes nacionais e tem potencial para salvar milhões de vidas, não recebe a mesma atenção?
Precisamos avançar e enviar um dossiê técnico para a Anvisa e iniciar os testes em humanos. Ainda temos um último teste toxicológico, de segurança, para realizar, mas esbarramos em problema de financiamento.
Há uma clara resistência da grande indústria farmacêutica. Primeiro, existe um preconceito histórico contra produtos naturais, vistos erroneamente como “menos tecnológicos” que as moléculas sintéticas. Segundo, e mais grave, há um estigma contra a origem. Talvez se o meu laboratório estivesse nos Estados Unidos (EU), ou na Europa, ou mesmo na avenida Paulista, Leblon, o caminho para o mercado já estaria pavimentado. Mas estamos em Santarém, no meio da Amazônia
A barreira não é apenas privada; é estatal. O Governo do Pará, que deveria ser o primeiro interessado em exportar tecnologia e não apenas minério, nos virou as costas.
Ganhamos editais, mas não levamos. O estado não pagou o prometido pelo programa Startup Pará de 2020 e, numa atitude que beira o escárnio, colocou procuradores para bloquear nossa ação na justiça para receber a verba que nos é devida por mérito. Não há diálogo, não somos recebidos e já fui comunicado que não há interesse, apesar que na campanha o Startup Pará foi alardeado como um grande programa de governo.
No âmbito federal, a via crucis continua. Buscamos apoio para a etapa final regulatória, essencial para submeter o dossiê à Anvisa ainda este ano, do Ministério da Saúde. Estamos há oito meses tentando, sem sucesso, uma reunião com o ministro Padilha para apresentar uma solução que pode revolucionar o tratamento de doenças neurodegenerativas e, futuramente, ser incorporada ao SUS.
É preciso ser justo e reconhecer as exceções. Tivemos o apoio visionário de empresários locais, da cidade de Santarém, como os últimos presidentes da ACES Santarém, que enxergaram o futuro antes do poder público.
E é fundamental louvar o esforço da Finep, que através de editais como o Pró-Amazônia e o Finep Amazônia, tenta corrigir essas distorções históricas e irrigar o deserto de financiamento na nossa região, bem como do Sebrae com ações de apoio à inovação, incluindo as acelerações Inova Amazônia e Oka Hub, essa última, uma brilhante ideia chamada de A Incubadora da Floresta que fornece uma bolsa e treinamento a dez projetos de inovação com grande potencial, incluindo do da Neuroprotect.
Apesar de tudo, continuamos na luta. A ciência da Amazônia é resiliente por natureza. Mas não podemos normalizar a dificuldade. O Brasil precisa decidir se quer a Amazônia apenas como cenário ou como protagonista do desenvolvimento biotecnológico. Não podemos ser apenas como os colonizados fornecedores de matéria prima. Podemos ser protagonistas em ciência, inovação e tecnologia de ponta.
Parafraseando a canção imortal de Nilson Chaves, a pesquisa translacional da Amazônia, ignorada pelos gabinetes de Brasília e pelas sedes das farmacêuticas, merece “um olho de boto no fundo dos olhos” de toda a ciência nacional.
Merece ser vista com profundidade e respeito. Não queremos favores. Queremos apenas que parem de ignorar que nós podemos produzir ciência e tecnologia de ponta. Uma terapia para AVC e outras desordens neurológicas pode estar sendo destilada agora, em uma universidade às margens do Tapajós. Já estamos nos jornais, mas queremos chegar às farmácias.
⚀ Walace Gomes Leal é neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará); do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (UFPA); do Programa de Pós-Graduação em Fisiologia e Bioquímica (UFPA). E da Rede Bionorte (Ufopa). Escreve regularmente no JC.
∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.
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