O silêncio dos esquecidos. Por Walace Gomes Leal

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O silêncio dos esquecidos. Por Walace Gomes Leal. drogas
A arte de em lajota feita pelo interlocutor de Walace Gomes. Foto: reprodução

 A euforia caminhava ao meu lado naquele nascer do dia, na Cidade das Mangueiras. Tinha ido para umas reuniões em Belém sobre as minhas pesquisas e sobre startup que fundei. Tudo estava dando certo. Ao caminhar na praça da República, o mundo parecia conspirar a meu favor: a startup acabara de alcançar um marco importante, aquela validação que todo empreendedor busca.

O futuro parecia brilhante, sólido, garantido. Mas enquanto eu celebrava internamente aquela conquista, comecei a observar o ambiente ao meu redor. Saí da praça República e comecei a andar pela avenida Presidente Vargas em direção ao comercio de Belém. Foi então que a minha alegria começou a esvanecer, quando observei a realidade a poucos metros de mim.

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Vi pessoas dormindo nas calçadas… crianças, velhos.. corpos encolhidos contra o frio do concreto. Ali, na sarjeta, não estavam apenas números estatísticos; estava o desperdício silencioso do potencial humano.

Stephen Jay Gould, o grande paleontólogo, disse uma vez que “de alguma forma, estou menos interessado no peso e nas convoluções do cérebro de Einstein do que na quase certeza de que pessoas de talento igual viveram e morreram em plantações de algodão e oficinas de costura”.

Eu vi isso acontecer na minha frente. Quantos Newtons, quantos Machados de Assis, quantos grandes cientistas e poetas não poderiam estar ali…invisíveis e com fome, sem nenhuma esperança.

Eu voltei para Santarém e fiquei vários dias pensando nisso. Eu caminho todos os dias, às vezes na orla, ou no “Parque da Cidade”. Um dia desses, sentei em um banco e olhava o encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas em frente de Santarém. Era um belo dia de sábado. Um morador de rua se aproximou.

Ele era magro e jovem. Eu pensei no que aconteceu em Belém. Eu resolvi perguntar a ele o que o levou a morar na rua e o que ele fazia para viver. E a resposta veio carregada de tintas e traumas. Ele me contou que começou a usar drogas aos 14 anos. Começou com o álcool, que sua mãe também usava. O pai os tinha abandonado. A mãe ia para as festas e o levava. E logo começou a usar outras drogas. 

Foi como uma herança maldita, uma via de escape para um cérebro ainda em formação. Depois que ficou adulto casou e teve uma filha. Mas ele continuou usando drogas, vários tipos. Sua esposa pediu para ele sair de casa. E ele saiu. Foi morar nas ruas.

Perguntei a ele o que fazia para viver. Ele disse que pintava lajotas e já tinha ensinado crianças. Eu pedi a ele que pintasse algo para mim que o pagaria, algo para a minha filha.  Ele tirou uma lajota da bolsa e umas bisnagas de tintas. Começou a misturar as cores com o dedo indicador.

Em minutos, surgiu, na minha frente, um pôr do sol vibrante sobre malocas ribeirinhas. Aquele rapaz era um artista nato. Imaginei o talento que aquele rapaz tinha e que estava sendo desperdiçado. Que as drogas e a pobreza extrema estavam tirando o seu potencial, a sua dignidade. …aquele rapaz poderia ser um dos maiores artistas de Santarém, talvez do Pará.

Um erro crucial da nossa sociedade é insistirmos em tratar o dependente com a mesma lógica que usamos para o criminoso. O uso crônico de substâncias sequestra os centros de recompensa do cérebro. O sistema dopaminérgico é reprogramado e a “fissura” torna-se um imperativo de sobrevivência fabricado pela química.

Punir um cérebro doente com cadeia é tão ineficaz quanto prender alguém por ter diabetes. A ciência avança enquanto a política patina. Estudos recentes apontam que substâncias que imitam de GLP-1 (peptídeo similar ao glucacon), liberado pelo intestino, base do Mounjaro, usado para tratar a obesidade, podem ser fundamentais para tratar a dependência química, diminuindo a compulsão biológica 1.

Um viciado escreveu um dia e deu a dica par um cientista nos Estados Unidos e ele viu que era verdade. A medicina busca a cura metabólica, enquanto o Estado ainda oferece a cela.

É claro que não podemos ser ingênuos: o combate implacável ao tráfico de drogas e ao crime organizado é imperativo para a segurança pública. Mas é preciso separar o joio do trigo. Enquanto combatemos o traficante com inteligência policial, o mundo civilizado já percebeu que a “guerra às drogas” não pode ser uma guerra contra o usuário.

Países como Canadá, Uruguai, Alemanha e diversos estados dos Estados Unidos já avançaram na legalização e regulação de drogas recreativas, retirando esse mercado das mãos do crime. Outros, como Portugal, optaram pela descriminalização focada na redução de danos. Nesses lugares, entendeu-se que a proibição cega apenas marginaliza ainda mais quem precisa de ajuda, enquanto a regulação enfraquece o poder financeiro do tráfico.

A tragédia do Jimmy e de outros 281 mil brasileiros (segundo o IPEA) é viverem num limbo onde não há nem a liberdade regulada desses países, nem o tratamento médico de ponta. O Estado falha ao não oferecer a política de “Housing First”(Moradia Primeiro) — teto antes da exigência de sobriedade — e falha ao ignorar a psiquiatria moderna.

Ao final do dia, levei comigo a imagem daquele pôr do sol na lajota. Jimmy ficou lá, talento sufocado pela doença e pelo abandono. Que tenhamos a coragem de exigir que a adição em drogas (vício) seja tratado com jalecos e pesquisa, e que a segurança pública foque nos verdadeiros criminosos, não nas vítimas do sistema.

Precisamos resgatar os Jimmys, antes que seus talentos se apaguem definitivamente na escuridão das ruas. Na lajota que comprei do Jimmy, ele escreveu “Deus é Amor”. Talvez seja o que o Jimmy busque da sociedade.

Referência

1. Will blockbuster obesity drugs revolutionize addiction treatment? Scientists are testing whether GLP-1 drugs can help to cut cravings for cigarettes, alcohol and opioids — as well as food(https://www.nature.com/articles/d41586-025-03911-x?utm_source=Live+Audience&utm_campaign=ef48bd9c52-nature-briefing-daily-20251202&utm_medium=email&utm_term=0_-33f35e09ea-49157239


⚀ Walace Gomes Leal é neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará); do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (UFPA); do Programa de Pós-Graduação em Fisiologia e Bioquímica (UFPA). E da Rede Bionorte (Ufopa). Escreve regularmente no JC.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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