
Imagino o que se passou na mente de Mike Emme, um jovem americano de 17 anos, naquele mês de setembro de 1994. Certamente ele não estava bem e sua angústia e seu sofrimento psíquico eram insuportáveis. O passado, os dias de felicidade, quando passeava no seu Mustang Amarelo ano 68 deviam estar distantes. O vento no seu rosto e o cheiro das flores, o sorriso dos amigos e o carinho dos pais – nada disso o fazia feliz. Os familiares não perceberam, mas o jovem Mike sofria muito.
Normalmente, Mike era um jovem cheio de vida, carinhoso e de muitas habilidades. Ele trabalhou arduamente para reformar o seu Ford Mustang ano 1968 para dar as suas voltas.
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Ele era popular entre os amigos e parecia um jovem feliz. Andar no Mustang era um hobby importante para Mike. Seus amigos o chamavam de Mustang Mike. Mas naquela semana de setembro do ano de 1994, Mike estava atordoado e triste. A alegria tinha indo embora e ele ficou imerso na solidão e sofrimento psíquico. O amor pela vida tinha desaparecido. Talvez o próprio Mustang não parecia mais tão importante.
No dia 8 de setembro de 1994, os pais de Mike chegaram em casa por volta das 23h e deparam com a cena mais triste das suas vidas. Mike estava morto com um tiro na cabeça dentro do seu querido Mustang amarelo. Ele tinha se suicidado.
Ao lado do corpo havia um bilhete: “Mãe, pai, não se culpem. Eu amo vocês. Com amor, Mike”. Nem o amor pelos pais o impediu de tirar a própria vida, tal tinha sido a sua agonia. O que se passou na mente de Mike? Eu fiz esse mesmo questionamento quando escrevi sobre o suicídio do meu amigo Carlos Rocha, doutor em farmacologia e professor da UFPA que se suicidou no ano de 1996, aqui mesmo nesse portal.
O que faltou para salvar o jovem Mike ou o professor Carlos? Acolhimento? Atenção? Por que suas angústias internas foram maiores que sua vontade de viver? Perguntas complexas, com respostas complexas, certamente.
No dia do enterro do jovem Mike, seus amigos e familiares estavam desolados. Em homenagem ao rapaz, levaram uma cesta repleta de cartões a serem entregues e cada um deles tinha uma fita amarela com uma mensagem de incentivo a jovens que poderiam estar com os mesmos problemas: “se você precisar, peça ajuda”. No enterro, todos os cartões foram entregues.
Para a surpresa da família e amigos, dias após o enterro, inúmeras cartas de apoio começaram a chegar. Pessoas confessando seus problemas e pedindo apoio. Um gesto simples levou a pessoas revelarem seus problemas de saúde mental. Muitos suicídios acontecem por problemas aparentemente banais, como o termino de um namoro, uma dívida, uma desilusão.
Mas para uma mente alterada, onde as áreas cerebrais de tomada de decisão estão comprometidas, com baixa flexibilidade cognitiva (capacidade de adaptar-se a novas situações) e memória de separações de padrões (manter separados na memória eventos parecidos, até emocionais) 1, pequenos problemas não são pequenos, mas fonte intensa de sofrimento de psíquico, angústia, falta de esperança.
A neurocientista Maura Boldrini, da Universidade Columbia em Nova York, estudou o cérebro de pessoas que tiveram uma adversidade precoce na vida aos quinze anos ou próximo dessa idade 2. Ela descobriu que algumas dessas pessoas desenvolveram depressão maior e se mataram enquanto outras desenvolveram esta condição, mas não chegaram a cometer suicídio.
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Usando técnicas modernas que permitiram calcular volumes específicos do giro denteado do hipocampo, uma região que produz novos neurônios no cérebro adulto (neurogênese adulta), a pesquisadora e seus colaboradores descobriam que os resilientes apresentaram um giro denteado (uma parte do hipocampo) maior, em comparação aos que tiraram a própria vida. A conclusão incrível foi que a resiliência ao suicídio depende de neuroplasticidade do giro denteado do hipocampo e suas conexões com outras áreas cerebrais.
Ao ser submetido a estresse crônico, o cérebro de uma pessoa pode responder com aumento da neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro adaptar-se a novas situações, e adquirir resiliência às situações adversas 1. É possível que essa capacidade varie de pessoa para pessoa, além de influências genéticas e epigenéticas (o ambiente influenciando na expressão gênica).
Nas horas que antecedem ao suicídio, circuitos cerebrais podem entrar em colapso. Isso pode ser precedido por meses e anos de ideação suicida (vontade de se matar), que poderá ou não ser concretizada.
Recentemente, demonstrou-se em um experimento que durante a tomada de decisão no cérebro de um roedor, diversas áreas, de quase todo o cérebro, são ativadas. No cérebro de um suicida, essas áreas são alteradas e a decisão fatal pode ser tomada. Geralmente, mas nem sempre, o suicida pode ter depressão, o transtorno bipolar ou outra desordem afetiva. Nestas condições psiquiátricas, as áreas de tomada de decisão também são alteradas e a resiliência ao estresse e flexibilidade cognitiva estão altamente diminuídas. Esses eventos cerebrais complexos culminam do desfecho trágico, mas que pode ser evitado se a pessoa tiver apoio, acolhimento e ser acompanhada.
As pessoas com problemas psicológicos/psiquiátricos não podem ficar desamparadas. A família tem que estar atenta. O poder público tem que criar políticas públicas de conscientização.
Os eventos tristes que aconteceram com Mike Emme culminaram no Setembro Amarelo, uma campanha de conscientização e prevenção do suicídio desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2003. A campanha chegou ao Brasil em 2015, com apoio da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Centro de Valorização da Vida (CVV).
Segundo artigo recente do jornal o Globo (https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2025/09/01/setembro-amarelo-saiba-a-historia-por-tras-da-escolha-da-cor-para-o-mes-de-prevencao-contra-o-suicidio.ghtml), os índices de suicídio são alarmantes. Dados da OMS revelam que os índices de suicídio entre pessoas, incluindo adolescentes, com 15 a 29 anos, é a quarta principal causa de morte no mundo, perdendo apenas para tuberculose, acidentes de trânsito e mortes violentas por assaltos etc.
Estudos ainda revelam que os índices de suicídio de jovens entre 15 a 19 anos são alarmantes. No Brasil, dados do ministério da Saúde revelam que o suicídio entre jovens é a terceira causa de morte no país. Dados obtidos pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz Bahia (Cidacs) revelaram que a taxa de crescimento de suicídio entre crianças e jovens de 10 a 24 anos chegou a quase 7% entre 2011 e 2022, o que está acima da média da população em geral. Esse indicador aumentou em quase 50% entre 2016 a 2021 para jovens entre 15 e 19 anos, segundo o ministério da saúde.
Crianças e jovens, além de pessoas de todas as faixas etárias estão se suicidando cada vez mais no Brasil e no mundo. Como mencionado, a base neurobiológica do suicídio é complexa e multifatorial, onde mecanismos genéticos, ambientais e sociais estão envolvidos. Um modelo atual que tenta explicar o comportamento suicida é o de estresse-diátese.
A diátese é um a vulnerabilidade ou predisposição de um indivíduo a ter uma condição patológica ou doença, como depressão, ansiedade ou comportamento suicida. O estresse é o fator desencadeante em uma pessoa vulnerável. O estudo de Maura Boldrini, da Universidade Columbia, sugere que existe vulnerabilidade entre pessoas e que algumas podem ser mais resilientes que outras a condições de estresse.
Atualmente, estamos trabalhando em uma hipótese para explicar o comportamento suicida, considerando que circuitos preservados em várias espécies, importantes evolutivamente para suicídio altruísta para preservação de espécies, podem ter sido preservados em humanos e alterados contribuindo para o comportamento suicida. Também trabalhamos na hipótese de um circuito gatilho para o comportamento suicida. Acreditamos que um dia haverá um conhecimento conciso dos circuitos envolvidos e uma terapia ser disponibilizada na prática clínica.
Independente da causa neurobiológica e/ou psicossocial para o suicídio, o acolhimento é fundamental para as pessoas com sofrimento psíquico. O poder público deve considerar em suas ações programas específicos para este fim, seja no ministério da saúde e/ou nas secretarias de saúde dos municípios.
O setembro amarelo é um mês de reflexão, conscientização e prevenção ao suicídio. Não podemos deixar que vidas, inclusive de crianças e adolescentes, se apaguem dessa forma. Ninguém tem que estar sozinho em nenhuma situação, muito menos no sofrimento.

Referências
- Adult Hippocampal Neurogenesis and Affective Disorders: New Neurons for Psychic Well-Being. Gomes-Leal W. Front Neurosci. 2021 Jun 16;15: 594448.
- Resilience Is Associated With Larger Dentate Gyrus, While Suicide Decedents With Major Depressive Disorder Have Fewer Granule Neurons. Boldrini M, Galfalvy H, Dwork AJ, Rosoklija GB, Trencevska-Ivanovska I, Pavlovski G, Hen R, Arango V, Mann JJ. Biol Psychiatry. 2019 May 15;85(10):850-862.
- A brain-wide map of neural activity during complex behaviour. International Brain Laboratory; Angelaki D et al. Nature. 2025 Sep;645(8079):177-191.

Walace Gomes Leal é neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará); do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (UFPA); do Programa de Pós-Graduação em Fisiologia e Bioquímica (UFPA). E da Rede Bionorte (Ufopa). Escreve regularmente no JC.
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