Demônios ainda assombram o mundo: a ciência continua sendo uma vela na escuridão. Por Walace Gomes Leal

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Demônios ainda assombram o mundo: a ciência continua sendo uma vela na escuridão. Por Walace Gomes Leal

Em 1995, o astrofísico Carl Sagan publicou “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, um manifesto apaixonado em defesa da racionalidade. Sagan temia um futuro onde, apesar dos avanços tecnológicos, a sociedade regrediria ao pensamento mágico, incapaz de distinguir o agradável do verdadeiro.

Trinta anos depois, ao olharmos ao redor, percebemos com pesar que o futuro temido por Sagan chegou. Os demônios da ignorância não foram exorcizados; eles se adaptaram, vestiram jalecos, criaram perfis em redes sociais e compraram horários nobres no rádio e na TV.

A pseudociência moderna é perigosa justamente porque mimetiza a linguagem científica. Ela não se apresenta como mágica, mas como uma “alternativa” validada por termos complexos e vazios de sentido. Um exemplo disso surgiu nas manchetes recentes. Aproveitando-se da ansiedade pós-pandemia, médicos e influenciadores digitais começaram a vender tratamentos fraudulentos para uma suposta — e inexistente — “Síndrome Pós-Vacina”.

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 O jornal O Estado de S. Paulo denunciou recentemente como médicos lucram com a venda de cursos de ‘detox vacinal’ e prometem cura de supostas sequelas. Por valores exorbitantes, charlatães prescrevem substâncias sem eficácia comprovada (como ivermectina em doses perigosas e soroterapias) prometendo “reverter” a vacinação de RNA mensageiro. É a monetização do pânico: cria-se uma doença imaginária para vender uma cura falsa, explorando pessoas que buscaram se proteger e agora são manipuladas pelo medo.

Não são apenas os charlatães de internet que confundem o público; às vezes, a própria estrutura acadêmica falha. O desejo por inovação leva, ocasionalmente, revistas e portais a darem palco para hipóteses duvidosas que carecem de base empírica sólida e flertam com o misticismo.

Um exemplo disso é a discussão sobre o cérebro e o campo quântico, uma hipótese radical que sugere que a consciência nasce da energia do vácuo. Embora a física teórica deva ser especulativa, a publicação de tais ideias sem o devido ceticismo acaba validando narrativas esotéricas.

Quando a fronteira entre a neurociência rigorosa e a especulação física se torna tênue, abre-se a porta para que gurus da “cura quântica” digam: “Vejam, a ciência confirma o que eu digo”. A revisão por pares deve ser a guardiã da qualidade, mas quando ela falha ou se deslumbra, a pseudociência ganha um verniz de legitimidade acadêmica perigoso.

Essa apropriação indevida é a base da “Terapia Quântica”. A mecânica quântica lida com partículas subatômicas, não com o bem-estar emocional. Gurus sequestram termos como “entrelaçamento” para vender curas. Como aponta o físico Marcelo Gleiser, “não existe conexão causal entre a física de partículas e a terapia de vidas passadas”. É uma metáfora vendida como ciência literal.

No cotidiano, a homeopatia resiste como um monumento ao pensamento pré-científico. Baseada em princípios do século XVIII que ignoram a química, ela propõe que diluições extremas podem curar.

Revisões sistemáticas robustas, como a do governo australiano (NHMRC), concluíram que não há evidências de que a homeopatia supere o efeito placebo (veja artigos no site do Instituto Questão de Ciência). Similarmente, braceletes energéticos prometem equilíbrio através de hologramas, mas testes duplo-cegos demonstram repetidamente que qualquer efeito é puramente sugestão.

Talvez a onipresença desses “demônios” seja mais visível no trivial. Você está no carro e liga o rádio. Em vez de cultura, o locutor anuncia o “Horóscopo do Dia”. Uma concessão pública é usada para validar a astrologia — a ideia refutada de que a gravidade de gigantes gasosos decide se você terá sorte no amor hoje.

Por que normalizamos a astrologia no rádio, mas  não temos um programa matinal sobre um “Minuto da Ciência”? Por que ouvimos falar do alinhamento dos planetas, mas desconhecemos como funcionam as vacinas? A ausência de divulgação científica cria um vácuo. E a mente humana tem horror ao vácuo; se não a preenchermos com fatos, ela será preenchida por mitos.

Carl Sagan nos deixou em 1996, apenas um ano após publicar seu alerta profético. Sua voz física se calou, mas a batalha que ele travou contra a escuridão não terminou com sua morte; pelo contrário, tornou-se nossa herança e responsabilidade.

Hoje, os “demônios” são mais barulhentos e organizados do que eram na década de 90. Se quisermos honrar seu legado e proteger a sociedade do obscurantismo, não basta lembrar de Sagan com nostalgia. É preciso agir.

Precisamos exigir mais minutos de ciência nos meios de comunicação, confrontar fraudes médicas e ensinar o pensamento crítico nas escolas. A ciência continua sendo uma vela na escuridão, mas somos nós que devemos protegê-la dos ventos fortes da ignorância e da pseudociência para que ela não se apague.

Leitura Sugerida

  1. SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios: A Ciência como uma Vela no Escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
  2. ESTADÃO. Médicos lucram com venda de cursos de ‘detox vacinal’ e prometem cura de supostas sequelas. Disponível em: <Link>. Acesso em: 2024.
  3. GIZMODO BRASIL. O cérebro e o campo quântico: a hipótese radical que sugere que a consciência nasce da energia do vazio. Disponível em: <Link>. Acesso em: 2024.
  4. NHMRC (National Health and Medical Research Council). Statement on Homeopathy. Canberra: NHMRC, 2015.
  5. CARLSON, Shawn. “A double-blind test of astrology”. Nature, v. 318, p. 419–425, 1985.
  6. GLEISER, Marcelo. A Ilha do Conhecimento. Rio de Janeiro: Record, 2014.

⚀ Walace Gomes Leal é neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará); do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (UFPA); do Programa de Pós-Graduação em Fisiologia e Bioquímica (UFPA). E da Rede Bionorte (Ufopa). Escreve regularmente no JC.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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