Jeso Carneiro

Agora no PCdoB, mas sempre um sonhador

Jota Ninos, agora no PCdoB48 anos a completar no próximo mês, o jornalista Jota Ninos (foto) acaba de se filiar no PCdoB. Assinou a ficha de filiação ao partido com os mesmos propósitos que o levaram a ingressar no PT em 1982: fazer mudanças.

Não conseguiu o que sonhava no partido de Lula, embora tenha ficado por lá 25 anos. Mas nem por isso, enterrou seu sonho. Quer torná-lo realidade agora na nova agremiação.

– Quero ajudar a construir no PCdoB a filosofia de um partido de massas, como era o PT, consolidando a criação das chamadas OB´s (Organizações de Base), que têm a mesma filosofia dos Núcleos de Base que o PT abandonou após chegar ao poder – disse ele em entrevista ao blog.

Candidatura em 2012? Não. Essa não é a obsessão dele. Deseja, sim, abrir o leque de opções aos eleitores santarenos insatisfeitos com os grupos Maia e Martins, que há mais de 15 anos se revezam no poder neste município.

Filho de um grego com uma paraense, divorciado há um ano, pai de 4 filhos, avô de duas netas e duplamente alvinegro (Botafogo e São Raimundo), Jota Ninos na entrevista abaixo fala sobre o seu passado petista e o presente e futuro comunista.

Que as motivações o levaram decidir pela volta à política partidária?
Jota Ninos – A política entrou no meu sangue desde a adolescência, quando passei a participar do grupo político que viria ser o embrião do PT em Santarém, nos anos 1980, assim que cheguei aqui. Aos 18 anos, já era membro do Diretório Municipal e integrava a Comissão de Formação Política do partido. Aliei minha capacidade de comunicar à vontade de mudar a situação que o Brasil vivia, ainda no final da ditadura militar. Mas comecei a romper com o grupo monolítico que comandava o PT à época, a “Corrente” (hoje dividida nos grupos AS – Articulação Socialista e PT Pra Valer), ao tentar formar uma tendência, com 10 companheiros, que lutou contra o chamado “centralismo democrático” (típico de ditaduras stalinistas, que precisavam ter o pensamento único) tendo entre eles os professores Anselmo Colares e Gilmar Pereira e o jornalista Dornélio Silva, entre outros. Por causa disso, fomos sempre marginalizados dentro do partido, mas mesmo assim continuei no PT e cheguei a aceitar ser candidato a vereador em 1992, sem sucesso. Me desliguei do diretório e quase não participava mais das atividades do partido, até surgir o chamado “escândalo do Mensalão”. Foi a gota d’água pra eu sair do PT, em 2007. Mas a vontade de militar continuava e agora me acho mais maduro para retornar à organização partidária, do que simplesmente fazer o papel de jornalista e analista dos bastidores políticos. Isso não significa buscar simplesmente uma candidatura. Ser candidato é consequencia do trabalho que se fizer. Sempre trabalhei melhor nos bastidores e quero contribuir assim como secretário de Imprensa do PCdoB, e colaborar com a secretária de Formação Política, Maruza Rodrigues e com o secretário da Juventude, Daniel Fernandes, que aceitou entrar no partido comigo. Além do daniel estou trazendo outras pessoas para o PCdoB, que acreditam nas ideias que pretendo implantar. Muitas surpresas ainda serão anunciadas até o final de setembro.

Por que essa volta através do PCdoB e não do PT, onde estão as tuas origens políticas?
Jota Ninos – Apesar de ser aliado do PT, o PCdoB (até onde sei) não teve nenhum de seus membros vinculados a escândalos de corrupção. Seu único defeito foi sempre ser uma espécie de “filial do PT”, mas o PCdoB vem dando sinais de não querer ser mais apenas um “satélite” do partido. Quero ajudar a construir no PCdoB a filosofia de um partido de massas, como era o PT, consolidando a criação das chamadas OB´s (Organizações de Base), que têm a mesma filosofia dos Núcleos de Base que o PT abandonou após chegar ao poder. E espero que as direções estaduais e nacional respeitem seus documentos básicos que deixam as direções municipais livres para decidir o que for melhor para os seus filiados. Isso significa não haver a obrigação de se ligar ao PT local, já que hoje a família Martins (leia-se Maria do Carmo, Everaldinho et caterva) comanda o partido e isso descontenta todos os seus aliados e até filiados do próprio partido, como Pedro Peloso. O PCdoB quer liberdade para decidir por outros caminhos, que não a submissão aos Martins.

Há quem diga, o sociólogo Tiberio Alloggio é um deles, que não há espaço ainda para uma candidatura de 3ª via à Prefeitura de Santarém. Concorda com essa análise?
Jota Ninos – O Tibério é um grande analista político, mas às vezes contamina seu discurso por ter uma vinculação a setores do PT. Tenho boa relação com ele e já discutimos outras vezes sobre isso, mas ao “carregar nas tintas” contra tudo o que está além do PT e menosprezar a possibilidade do surgimento de novas tendências, Tibério mantém uma visão estrábica sobre a dinâmica da política. Por sua vez, a expressão “3ª via” já foi banalizada, principalmente porque nos últimos 15 anos houve a polarização entre as famílias Maia e Martins. E na luta para acabar com essa polarização, surgiu o PSOL na eleição passada, mas seu discurso ainda não foi bem aceito pela sociedade local. Creio que é possível criar outras alternativas que possam se confrontar com as candidaturas das “famiglias” quer representam a maracutaia e o marasmo para Santarém. Os candidatos dessas “famiglias”, Alexandre Von e Inácio Corrêa, como já disse há algum tempo em outro artigo, serão meros capachos. Cansei de ir às urnas para escolher o “menos pior”. Quero contribuir para que surja algo diferente e isso não envolve nem estas famílias, nem os Corrêa (que representam a elite santarena desde os tempos do Barão do Tapajós) e muito menos os Rocha (aliados de última hora de quem estiver no poder). Pode ser utopia a 3ª via, mas sem utopia não se vive. O Tibério, como bom militante esquerdista, sabe disso.

O PCdoB sempre esteve atrelado ao PT no Pará, e em Santarém em particular. O partido terá coragem, força para cortar esse atrelamento?
Jota Ninos – Se não tiver coragem será apenas uma das dezenas de siglas de aluguel que o PT e o PSDB/DEM juntaram na última campanha de 2008. O PCdoB é um dos partidos mais antigos e mais tradicionais da história política brasileira. Ele precisa resgatar essa história e saber a hora em que uma aliança, na qual ele é apenas um mero coadjuvante para aumentar o horário de TV, não lhe é benéfica. Na eleição de 2010, o PCdoB estadual ousou em lançar candidaturas a deputado sem se atrelar a outros partidos. Foi o sinal de que o partido quer voltar a ser mais que um mero irmão tatibitate do PT.

Qual a maior crítica que fazes ao governo Maria I e II?
Jota Ninos – A falta de transparência. A prefeita ainda não desceu do palanque (isso ela até faz bem), mas se demonstra um tanto desequilibrada em alguns momentos. Acaba delegando o poder de gestão ao irmão todo-poderoso Everaldo Martins, que toca o governo comprando aliados com cargos, criando secretarias fajutas e conseguindo ser mais fisiológico até que o Lira Maia (se é que isso é possível)! Já disse outras vezes que o governo é ruim com o Everaldo à frente, mas talvez fosse ainda pior sem ele, pois a grande parte de seus integrantes precisa ser tocado como gado pelo “Big Brother”, uma visão orwelliana que me assusta. Por conta disso, problemas de gestão como a infra-estrutura, que não são fáceis de resolver, acabam transparecendo ainda mais pela inércia. Mas a falta de transparência não nos deixa ver se existe algo além da pura incompetência de gerir. Espero que um dia a gente não encontre esqueletos nos armários, quando os Martins forem desalojados de seu feudo…

Se naufragar o projeto do PCdoB de lançar ou apoiar uma candidatura de 3ª via, quem achas que é melhor para o partido apoiar: Inácio Corrêa ou Alexandre Von?
Jota Ninos – Essa é uma pergunta que é difícil de responder. Eu, particularmente, sempre me relacionei muito bem com os dois, mas infelizmente, tanto o Inácio quanto o Alex são incapazes de não serem subservientes ao Everaldo Martins e ao Lira Maia, respectivamente. Não sei qual dos dois é pior como capacho. Vou defender até o fim que o PCdoB, mesmo sozinho, entre numa campanha para utilizar seu espaço, nem que seja para marcar posição e denunciar a inércia da política local. Uma coisa é certa: em nível nacional o PCdoB não tem como se aliar ao PSDB. Mas se eu for voto vencido por uma candidatura própria ou uma aliança com outros partidos que queiram se desatrelar da “famiglias”, acatarei a decisão que o partido tomar, mas, sinceramente, não me sentirei à vontade de fazer campanha para nenhum dos dois.

Serás candidato em 2012?
Jota Ninos – Sou candidato a ajudar a organizar o partido e construir suas bases para o futuro. Como já disse antes, para mim a política não se resume à candidaturas. Isso deve ser consequencia de um trabalho. Quero ver um partido que tenha sede funcionando todos os dias, que esteja presente na vida da comunidade, que tome a frente de debates como a questão do Estado do Tapajós e não somente que fique filiando qualquer um para apresentar chapas em eleições. A população quer ver partidos ativos, coletivos e não personalistas. Não quero construir um partido do Jota Ninos, e sim contribuir para que partido tenha vida própria. Se eu conseguir fazer metade do que sonho, ficarei satisfeito.

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