
A história da saúde em Santarém (PA) vai muito além dos hospitais e médicos, como se costuma ler e assistir. A história se passa também pelos enfermeiros e auxiliares, pessoas que possuem uma importância de tamanho inimaginável.
Gracil Pinto de Miranda, hoje no alto de seus 101 anos, é uma delas. Ela tem uma história repleta de desafios e conquistas. Trajetória profissional que pode facilmente se tornar exemplo para qualquer pessoa que busca por objetivos em sua vida.
Natural de Santarém, Dona Gracil nasceu no bairro Aldeia no dia 11 de dezembro de 1924. Era a filha mais velha de Augusto da Fonseca Pinto – tio dos irmãos Wilson e Wilde Fonseca – e de Onorina Pires Pinto. Gracil tinha apenas um irmão, já falecido.
Com a morte dos pais, os dois irmãos foram morar em Manaus, mas logo retornaram a Santarém. Na década de 1940, o mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial. A Cruz Vermelha estava realizando em Belém curso de auxiliar de enfermagem, para que pudessem encaminhar profissionais da saúde para Europa em conflito.
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Gracil foi para Belém, integrou a turma da Cruz Vermelha para fazer o curso. Ao concluí-lo, já se sentia preparada para atuar na guerra. Contudo, formada, o grande conflito já estava no fim. Era o ano de 1945. Decidiu, então, se fixar na sua cidade natal.
Na primeira equipe do Sesp
Na época, havia sido inaugurado o Sesp (Serviço Especial de Saúde Pública), fruto de um acordo firmado entre os governos do Brasil (Getúlio Vargas) e Estados Unidos (Franklin Roosevelt). A jovem auxiliar de enfermagem teve a oportunidade de integrar a primeira equipe do Sesp.
Gracil Miranda trabalhou por 33 anos no órgão público, onde aperfeiçoou seu conhecimento e adquiriu uma vasta experiência na área da saúde, além de ter se tornado uma referência no ramo, atuando ao lado de personagens importantes, como o médico Waldemar Penna.
Não tinha uma vida social. Dedicava-se apenas ao trabalho e, quando saía do expediente, ia diretamente para casa descansar. Alguns dos poucos momentos de descontração que ela vivia – que também fazia parte do trabalho – eram nos eventos promovidos pelo Sesp, como nas festas juninas, em que ajudava na organização, e nos eventos de Natal, quando ela se vestia de Papai Noel.
Drogaria Americana
Depois que se aposentou, dona Gracil passou a trabalhar na drogaria Americana, que ficava na sua residência, na avenida Rui Barbosa. Com mais tempo e liberdade, participava mais dos eventos da igreja e podia fazer muitas coisas que não realizava na época de funcionária do Sesp.
Na drogaria Americana, fazia diversos serviços hospitalares, como aplicação de injeções, curativos, aferição da pressão arterial, aplicava soro, coquetel, ajudava a tratar de quem tinha malária, cuidava de pessoas com ferroadas de arraias, entre outros.
Tornou-se uma referência na área da saúde na cidade. Na área central, era a única com essas habilidades. Qualquer problema que se tinha: “Vai lá na dona Gracil, que ela resolve!”. Muitos do que adoeciam caiam em suas mãos.
Trabalhou na drogaria Americana durante 40 anos. Foram década importantes e inesquecíveis para quem viveu essas histórias.
Gracil se casou com Anastácio Miranda, o Beleza Preta, que foi jogador do São Francisco Futebol Clube. Com ele, teve 6 filhos.
Atualmente com 101 anos de idade, vive sob os cuidados da família. Também é conhecida por suas preferências, como torcedora do São Francisco, da Pulga, do boi Garantido, do Flamengo, além de sempre ter gostado de assistir às apresentações de grupos folclóricos.
Recebeu, de forma merecida, no início dos anos 2000, a medalha Padre Felipe Bettendorf, sendo reconhecida pelos seus serviços realizados em Santarém.
Ainda reside na avenida Rui Barbosa, longe dos holofotes, como viveu por muito tempo ao cuidar das pessoas, mas na certeza de que, para quem a conhece pessoalmente ou quem a conhecer por este texto, tê-la-á como grande exemplo de vida e profissionalismo.
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