Há madrugadas em que a vida, nas suas misteriosas engrenagens, decide brincar de ironia na nossa cama. Na minha incessante busca por decifrar o que afinal preenche as nossas “24h vividas”, se é o trabalho exaustivo, o acúmulo de vitórias e derrotas, ou a pura contemplação, acabei por convidar o acaso para dividir o quarto comigo.
O que eu não esperava era descobrir que ele tem duas faces, e que ambas, na sua aleatoriedade, habitavam a minha casa.
De um lado da cama, repousava o acaso que me roubava o sono. Eu o comprei atraído por um tema instigante. Investir dinheiro e tempo em Iludidos pelo Acaso, de Nassim Nicholas Taleb. O oco da sua obra, a aleatoriedade que governa as nossas vidas cartesianas, fascina-me. Mas a leitura foi dolorosa. A líquida prosa do autor não rolou; sua água mole não furou minha cabeça dura.
Encontrei no livro um muro intransponível. Taleb, percebi, carece de fluidez, de clareza estilística e daquela sedução fundamental que separa um texto burocrático de uma epifania. Tratando-se de um estrondoso best-seller, a frustração potencializou a minha angústia literária, forçando-me a voltar às suas páginas várias e várias vezes na esperança vã de que a culpa fosse da minha cognição, e não do estilo do escritor.
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Era a literatura impondo-se como dever, como um algoz que exige submissão antes de entregar o prazer.
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No outro lado da cama, contudo, dormia um segundo acaso. Silencioso, negro, encadernado em elegância. Jorge Luis Borges, El Aleph. Eu o havia colocado ali por um motivo quase banal. Não estava em busca de respostas sobre o caos do universo ou sobre a fragilidade humana; queria apenas a sua “casca”.
Pedi ao meu filho, em Buenos Aires, para comprar El Aleph, claro pela envergadura do argentino, mas principalmente para que eu pudesse lustrar o meu pobre espanhol, usá-lo como afiador de vocabulário.
Mas eis que a vida me enredou na teia do imponderável. Quando o cansaço angustiante do primeiro Acaso (o de Taleb) ameaçou estragar meu gozo literário, olhei para o lado e vi que o socorro repousava ali, ao alcance da mão.
Foi o acaso absoluto que me fez buscar Borges não pela sua temática, mas pelo seu idioma, apenas para descobrir que ele era a chave mestra para a porta que Taleb havia me trancado. Enquanto um autor enumerava teses áridas para me provar como somos peões da sorte, o outro convidava-me para entrar nos seus labirintos, mostrando-me que o acaso não é uma equação a ser temida, mas é o próprio transbordamento da vida.
Taleb e Borges me ensinaram uma lição inestimável sobre a gestão da vida: ela é, definitivamente, essa soma imensa de gozos, crenças, meditações e filosofias. Não há tempo a perder forçando chaves que não giram ou tentando extrair sabedoria de uma casca amarga que não dá liga, não seduz e não engata.
A partir de agora, o decreto está assinado: se um livro tirar o meu sono por excesso de pedantismo, eu viro para o outro lado da cama. Sempre haverá um Borges adormecido, pronto para me salvar de um intragável acaso.
∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.
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