Jeso Carneiro

Por que decidi fechar a boca na orla. Por Jeso Carneiro

Por que decidi fechar a boca na orla. Por Jeso Carneiro
Orla de Santarém. Foto: Jeso Carneiro

Sou um biohacker tardio. Isso significa que não tenho tempo a perder com modas, mas tenho toda a paciência do mundo para rituais que funcionam. Hoje, às 9h, sob um sol que não pede licença, decidi levar o meu corpo ao limite de uma forma silenciosa: fechar a boca na orla.

Não foi por falta de assunto, foi por excesso de propósito.

Sempre acreditei que a saúde se constrói nos detalhes que ninguém vê. Minha manhã é uma sequência de pequenos ajustes que muitos chamariam de esquisitices esotéricas, mas que chamo de sobrevivência.

Publicidade

Começa com 600ml de água para despertar os órgãos e um choque de água gelada no rosto para avisar ao cérebro que o dia começou. Depois, os pés no chão: 1.000 passos e ao menos 5 minutos de cócoras no quintal — uma posição que o homem moderno, o homo sentadus, esqueceu, mas que a nossa biologia reclama. Caminho de olhos fechados, tateando o espaço com o equilíbrio, e sinto o peso bruto de um kettlebell de 8kg, mãos erguida para o céu ainda estrelado. Não busco o cárdio desesperado; quero posse do meu próprio corpo.

Faltava, porém, o teste final. Uma provocação que uma IA me lançou quando pedi sugestões de otimização: “A boca foi feita para comer e falar; não para respirar”.

Parece simples, até tentares caminhar 7km na orla com os lábios selados.

Fechar a boca para o oxigénio é como praticar um jejum intermitente de ar. Domino já algum tempo o jejum da comida — aquela disciplina que une o rigor bíblico à lógica científica — mas o jejum de ar é novidade. É visceral. Durante a caminhada, o pulmão, que a gente costuma deixar no automático, assume o comando da operação.

Houve momentos em que o corpo implorou para “abocanhar” o vento, mas segurei a urgência. Confiei no filtro que a natureza nos deu. No fim, entre o calor do asfalto e o chão de pedras, entendi que a verdadeira performance não está em quanto ar consegues engolir, mas na qualidade do que deixas entrar.

O pulmão agora é o meu mestre. E a boca? Essa fica guardada para o que realmente merece ser dito.

Publicidade

∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.

O JC mais perto de você! 📱

Gostou do que leu? Siga nossos canais e receba notícias, vídeos e alertas em primeira mão:

Sua dose diária de informação, onde você estiver.

Sair da versão mobile