Jeso Carneiro

Poesia. Água e cloreto de sódio

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente;
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio
experimentei ao lume,
de todos às vezes
deu-me o que é costume.

Nem sinais de NEGRO,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo),
e cloreto de sódio.

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De António Gedeão, poeta português.

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