Jeso Carneiro

O rio Tapajós e a insaciável gula do agronegócio. Por Paulo Cidmil

O rio Tapajós e a insaciável gula do agronegócio. Por Paulo Cidmil

É constrangedor o imobilismo da população de Santarém diante do risco de termos o rio Tapajós dilapidado, com a destruição de suas praias, ocasionado por decreto federal que entrega a gestão da navegação no trecho Itaituba-Santarém ao agronegócio transnacional. Prevendo a dragagem de seu leito para ampliar o fluxo de barcaças e navios, com o transporte de soja e outras commodities.

A covarde omissão dos políticos, a conversa cheia de curva, sem a determinação e firmeza que o momento exige, diante da ameaça de destruição de um projeto de desenvolvimento comunitário assentado no turismo, na bioeconomia, na cultura como elemento transformador e gerador de renda, que hoje ocorre no médio e baixo Tapajós. O silencio cínico, cumplice da vampiragem, é de quem está a serviço do vampiro.

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A covardia começa com o governo federal, na visita de Luiz Inácio Lula da Silva, quando ao navegar no Tapajós disse que natureza como essa jamais poderia ser destruída em troca de alguns trocados. Ele sabe que são bilhões, de dólares. Logo Lula, em quem depositamos nossa esperança.

Persiste com a promessa em público, durante a COP30, do ministro Guilherme Boulos, afirmando que nenhuma ação seria iniciada sem consulta às populações da região, quando já havia edital no Dnit com verba para estudo e dragagem. E ninguém foi ouvido.

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O argumento do Dnit é outro ato de covardia. Dizem que farão estudos para identificar possíveis problemas de trafegabilidade e realizarem intervenções pontuais de dragagem, se necessário.

Quando sabemos que em épocas de vazante, ocorrem trechos de menor profundidade, especialmente para as gigantescas barcaças e navios que o trade exportador de grãos irá introduzir.

Vão escavar o leito de um rio que sofre com a garimpagem ilegal a um século. Que teve despejado em seu leito e afluentes, centenas de toneladas de mercúrio. Dragagem é um decreto de morte.

O governo, ao incluir o rio Tapajós no decreto 12600/2025, decretou a destruição de nossas praias, ameaçando a subsistência de populações indígenas e ribeirinhas, destruindo médios e pequenos negócios, desferindo um golpe mortal na atividade turística, da qual dependem milhares de famílias e comunidades inteiras como Alter do Chão, Pindobal, Aramanaí, Ponta de Pedras, Pajuçara, Maracanã e os povos da Flona do Tapajós.

Sem consulta à populações afetadas, sem estudo de impacto ambiental, sem nenhum respeito. O primeiro golpe será na atividade turística, em plena expansão. O segundo será no sistema de saúde. E o desastre se propagará em cadeia.

O fluxo de barcaças será intenso, são três safras anuais, teremos de esperar e pedir licença a um concessionário que irá gerir a trafegabilidade do Tapajós, ordenar o fluxo e dragar quantas vezes forem necessárias para ampliar a rentabilidade do negócio. Aos cofres municipais, as migalhas; aos habitantes, os danos ambientais e efeitos colaterais.

Logo surgirá o gargalo do embarque no Porto de Santarém com filas de barcaças e navios lavando e despejando agua dos porões nas águas do Tapajós. Em pouco tempo, a Cargill irá solicitar licença para um novo terminal. Como os sojicultores e o município de Belterra vem tentando construir um em Porto Novo há alguns anos.

A mudança é drástica. Um Rio piscoso, repleto de praias e atrativos naturais, de grande fluxo turístico, habitado por dezenas de comunidades indígenas e ribeirinhas, de riqueza cultural inconteste, passará a ser uma hidrovia. Entregue pelo governo à gula do agronegócio, sob às garras da Cargill.

Irá favorecer um negócio de extrema concentração de renda, gerador de parcos empregos na região, mesmo os indiretos, cujo principal favorecido e cabeça pensante dessa logística que visa maiores lucros, é a Cargill. Empresa que não tem rosto, não se relaciona com a cidade e sua cultura. Nos vampiriza e age como se estivesse nos fazendo um favor.

Esse conglomerado de empresas transnacional que se apresenta como grupo familiar, comprometido com a sustentabilidade e baixo impacto ambiental, agora quer dragar o Tapajós, Rio mais preservado e de maior potencial turístico do país. E conta com o Denit para o serviço sujo, iniciando as dragagens. Depois de obterem a concessão irão dragar todos os anos.

A Cargill tem planos de controlar os rios amazônicos direta ou indiretamente. Controla transporte, portos, armazenagem, fertilizantes e exportação. Possui cinco portos exportadores de commodities, três na Amazônia; Porto Velho, Miritituba e Santarém, o que evidencia o interesse em dois grandes rios, Madeira e Tapajós, dois rios com grandes reservas minerais, especialmente ouro. Onde o Estado brasileiro é mais ausente que presente.

A Cargill é a base de sustentação da sojicultora extensiva em nossa região, Isso deflagrou um surto especulativo sobre as terras do planalto e BR163. Retirou o pequeno produtor rural, no seu lugar vieram a soja e seus pesticidas. Hoje produtos como frutas, legumes, variedades de feijões que tínhamos barato, com excedente, importamos do sul e sudeste.

A soja trouxe elevação do custo de vida, especulação e conflitos fundiários, grilagem, desmatamento e doenças, muitas doenças. Santarém virou um centro oncológico. Os diagnósticos de câncer cresceram exponencialmente, assim como as doenças de pele, consequência da exposição as pesticidas do agro no planalto e BR-163.

Não há controle eficiente do Estado sobre o uso das pesticidas, que o agro chama de defensivo agrícola, mas que não está defendendo o agricultor e a população ao redor. Escolas precisam suspender aulas, estudos apontam a contaminação do lençol freático e de igarapés em diversas áreas onde se instalou a sojicultora.

Agora vivemos sob a ameaça do mercúrio com as dragagens. Comprometendo a fauna do Tapajós, atingindo todas as teias alimentares dependentes do rio. Pescado improprio para consumo, agua impropria para banho e consumo humano. Como ribeirinhos e povos originários irão sobreviver se sua subsistência depende do rio e do turismo?

Veremos de forma ampliada, o que já ocorre no território Munduruku. Um índice alarmante de doenças neurológicas. Câncer no planalto e doenças neurológicas no baixo e médio Tapajós. Prevalência de doenças de altíssimo custo para o sistema pública de saúde e cruéis para as populações atingidas.

As águas cristalinas do rio Tapajós

Se pudéssemos ver nossa floresta em movimento como personagens de um filme animado de realismo fantástico, a soja seria um ET exterminador em meio a nossa flora. Tamanha é a incompatibilidade dessa leguminosa e seus pesticidas, cultivada de forma extensiva, no bioma amazônico.

Já é tempo de termos um estudo minucioso sobre a presença da sojicultura em nossa região. Saber o que ela injeta na economia, o que ela deixa de tributos, qual a integração desses novos agentes econômicos com a sociedade local com relação a postos de trabalho e integração social.

E as custos para os cofres públicos nas áreas da saúde, mobilidade urbana, danos ambientais, custo de vida, de acesso à terra e se há isenções fiscais. É preciso aferir o custo/benefício da sojicultora no município, os impactos sociais são muitos.

Não se trata de ser preservacionista, isso deixamos para o Greenpeace, que não está aqui nas trincheiras com os povos originários e a população de Alter do Chão. Devem estar abraçados em alguma maçaranduba tentando vender crédito de carbono.

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Queremos ciência, universidades fortes com centros de pesquisa e verbas para seu desenvolvimento. Queremos a floresta em pé, biociência, biotecnologias e até industrias para processar a riqueza que podemos extrair da floresta sem derrubá-la. E queremos ver essa riqueza compartilhado com nosso povo. Não um modelo de desenvolvimento predatório e excludente.

Sabemos da importância para economia nacional, mas não comemos PIB, não comemos commodities, não comemos balança comercial. Por aqui também não vivemos em uma bolha preservacionista, queremos desenvolvimento que nos inclua, não nossas riquezas saqueadas e danos ambientais.

As lideranças indígenas do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, a juventude indígena do CITA, a população de Alter do Chão e os jovens artistas de Santarém estão mostrando o caminho da resistência e do Basta!

Movimentos de resistência como o SOS Tapajós e Tapajós Vivo, assim como movimentos culturais e instituições como o MPF e Funai estão somando forças e ressoando esse grito pela vida do Rio Tapajós.

Como canta mestre Chico Malta, “Rema, rema canoeiro, a canoa não sai do lugar, cobra grande já fez o banzeiro, redemoinho pra ela virar” e essa barcaça da Cargill há de virar.

Revoga, Lula, ou nos tire dessa roubada entreguista, o Tapajós é sagrado, nossa existência se confunde com a existência dele, somos filhos desse rio.


⚀ Paulo Cidmil (*) é diretor de produção artística e ativista cultural. Santareno, escreve regularmente no portal JC. Ele está no YouTube e no Instagram. Siga-o nessas plataformas! Leia também deleApós a vitória envergonhada, Zé enfrenta a hidra de 7 cabeças. E ainda: Protagonismo amazônida.

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