Lula assina decreto para privatizar 250 km do rio Tapajós, entre Santarém e Itaituba

Publicado em por em Navegação, Negócios, Pará

Lula assina decreto para privatizar 250 km do rio Tapajós, entre Santarém e Itaituba
Empurrador transporta barcaças em rio da Amazônia. Foto: reprodução

O governo Lula assinou o Decreto nº 12.600 que inclui as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND) e abre o caminho para concessões privadas via leilões bilionários.

Na prática, significa que alguns dos rios mais estratégicos da Amazônia passam a ser vistos como ativos de mercado, destinados a atrair grandes grupos logísticos e operadores do agronegócio.

Para o governo, trata-se de um passo ousado rumo à modernização da infraestrutura nacional. Para críticos, uma entrega de patrimônio natural e estratégico ao capital privado.

O decreto coloca sob desestatização três hidrovias que são vitais para a logística brasileira:

  • Rio Madeira: trecho de 1.075 km entre Porto Velho (RO) e a foz no Amazonas.
  • Rio Tocantins: cerca de 1.731 km, ligando o interior do Tocantins ao porto de Belém (PA).
  • Rio Tapajós: 250 km no Pará, conectando Itaituba a Santarém.

Essas rotas fazem parte do chamado Arco Norte, um corredor logístico que vem ganhando destaque por encurtar em até 30% a distância até os mercados internacionais.

Leia o texto completo do decreto.

A justificativa do governo é pragmática: reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade do agronegócio brasileiro. Estudos apontam que a utilização plena dessas hidrovias pode cortar até 40% dos custos de transporte e reduzir significativamente o tempo de escoamento da soja, do milho e de minérios até os portos amazônicos.

“Cada 25 barcaças equivalem a 500 caminhões a menos nas estradas”, destacou o ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, ao defender o decreto como chave para uma logística mais moderna e sustentável.

Defesa e críticas ao governo Lula

Na visão oficial, o avanço das concessões permitirá menos caminhões nas estradas, menos emissões de CO₂ e mais eficiência no transporte de milhões de toneladas de commodities que sustentam o superávit da balança comercial brasileira.

Se o governo enxerga progresso, ambientalistas, acadêmicos e movimentos sociais ligam o alerta vermelho. A crítica central é que, ao entregar hidrovias amazônicas ao capital privado, o Brasil pode comprometer sua soberania sobre rotas estratégicas, abrindo espaço para interesses externos ditarem o ritmo da exploração.

As preocupações não param por aí: dragagens e intervenções de grande porte em rios amazônicos podem alterar ecossistemas, prejudicar comunidades ribeirinhas e afetar ciclos de pesca que sustentam milhares de famílias. Na prática, rios que sempre foram fonte de vida correm o risco de se tornarem meros corredores de grãos e minérios.

Leilão começa pelo rio Madeira

Com o decreto, a expectativa é de que os primeiros leilões ocorram até 2026, começando pelo rio Madeira. Os investimentos previstos superam R$ 100 milhões apenas em dragagem, sinalização e obras de infraestrutura, com potencial para movimentar mais de 30 milhões de toneladas de carga por ano.

O interesse do setor privado é intenso. Grandes tradings agrícolas e operadores logísticos já monitoram o processo, de olho em um mercado que pode redefinir o transporte hidroviário nacional.

Nova espinha dorsal

O Arco Norte, até pouco tempo atrás visto como uma alternativa distante, ganha força como nova espinha dorsal do agronegócio brasileiro. Se hoje quase 70% das exportações agrícolas ainda dependem dos portos do Sul e Sudeste, a previsão é que a participação do Norte cresça exponencialmente com a entrada das hidrovias em operação plena.

Esse realinhamento logístico pode deslocar o centro de gravidade da produção nacional, ampliando a relevância da Amazônia não apenas como bioma, mas como hub de exportação global.

Marco amazônico

O Decreto nº 12.600 não é apenas uma medida administrativa: é um marco que recoloca os rios amazônicos no centro de um embate que envolve desenvolvimento econômico, preservação ambiental e soberania nacional.

De um lado, a promessa de eficiência logística, redução de custos e protagonismo internacional no comércio de commodities. Do outro, o receio de que a entrega de ativos estratégicos ao capital privado transforme a Amazônia em simples rota de escoamento, sacrificando comunidades e ecossistemas.

O futuro do rio Madeira, Tocantins e Tapajós será decidido nos próximos leilões. E com eles, estará em jogo muito mais do que logística: trata-se de definir o papel da Amazônia no século XXI, entre ser apenas um corredor de exportação ou um território de desenvolvimento sustentável e soberano.

Com informações do site CPG

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