
Em 1988, ano da Constituinte, quando travamos luta em defesa do Ensino Público, eu, estudante não tão menino, organizava movimentos de mobilização à frente do Setor de Extensão Cultural no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O palco era o Largo de São Francisco, no centro da cidade.
Época de um reitor progressista, com especial atenção à Extensão. Levou a universidade para dentro da favela da Maré e trouxe jovens estudantes do ensino médio para o campus, vizinho ao Complexo da Maré. O objetivo era melhor prepará-los para um vestibular, pautado pela desigualdade. Não havia cotas.
Minha trincheira sempre foi a cultural. Filosofia na Praça, Universidade Urgente – em Defesa do Ensino Público, Mora na Filosofia (projeto de linguagens artísticas experimentais), S.O.S Educação (em parceria com a UERJ) foram projetos que produzi e coproduzi com a participação de artistas da cena alternativa carioca.
- Leia também de Paulo Cidmil: A pedido dos amigos do Canto Solidário.
Natural de Santarém, no Tapajós, desconectado da realidade amazônica desde 1976, recebia informações pelos jornais e TVs, notícias sempre ruins. E claro, através de entrevistas concedidas por porta-vozes dos problemas amazônicos, todos com boa compreensão sobre a degradação ambiental. Avançando na medida em que avançavam os negócios do grande capital sobre a floresta e seu subsolo.
A pauta dessas vozes ambientalistas, elevadas pela mídia à condição de “especializadas” em Amazônia, em regra, trazia (e ainda traz) como preocupação central a preservação da floresta: bioma, fauna, flora; seu potencial econômico inexplorado e pouco pesquisado: biotecnologias, fármacos, recursos hídricos. Até chegarmos onde nos encontramos, diante de um novo conceito: a sustentabilidade, essa sim de uma urgência inadiável. E a bioeconomia, alternativa econômica para a floresta em pé.
Pouco ou quase nada sobre as populações, suas culturas e peculiaridades regionais. Um olhar, que não acreditavam ser, mas também colonizador. Quase Bandeirantes, no quase século XXI.
A Amazônia tem algo de África. O senso comum se refere à África como uma realidade única, ali todos são africanos, mesmo coexistindo dezenas de Áfricas no continente. A mesma generalização ocorre com os olhares externos sob a Amazônia.
O êxito dos projetos que produzia e a Amazônia, sempre presente no noticiário, me estimularam a propor um evento para o início do ano letivo de 1989, intitulado Amazônia Urgente! Seria apenas um show-manifesto com Hermeto Paschoal.
Uma reunião em Altamira, convocada por povos indígenas e com a presença de Sting, mudou meus planos. Solicitei a instituição uma passagem para ir a Altamira. A ideia era estar mais informado sobre a realidade amazônica.
Foi quando fui impactado pelo que agora é reivindicado por cientistas, intelectuais, gestores públicos e artistas: o Protagonismo Amazônida. Vi-me diante de uma realidade que desconhecia. Havia ali estudiosos e lideranças indígenas de diversas partes da Amazônia, com profundo conhecimento e diagnósticos precisos sobre os dramas vividos pelas populações da região, sendo recorrente o de representatividade na esfera política e midiática.
Minha ideia inicial era fazer um relato da viagem. Ocorreu-me, porém, mudança radical. Vou fazer um jornal para que essas pessoas falem. Havia conhecido alguns ativistas da Sopren, mas foi uma recém amizade com Coxini Carajá, da Ilha do Bananal, à época um dos raros indígenas com função administrativa dentro da Funai, que me abriu as portas para entrevistas.
Paulo Paikan, Davi Yanomami, Arutana Carajá, Marcos e Jorge Terena, Julio Barbosa, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, do recém-assassinado Chico Mendes, CIR, APIR, COIAB, COICA entidades indígenas recém-criadas, Museu Antropológico de Goiânia, pesquisadores do INPA, Goeldi, UFPA, Fernando Branches, Lúcio Flávio Pinto, Audemir de Oliveira, um mundo se abriu, me reencontrei com a Amazônia.
Ao retornar sabia que um evento seria pouco. Mudamos a data e começamos a organizar o que resultou no projeto Makunaimî – Uma Semana em Defesa da Amazônia. Shows, mostra de cinema, teatro, exposição e o seminário com lideranças indígenas e pesquisadores da Amazônia.
Na sequência, participei da equipe que assessorou na organização do I Encontro dos Povos Indígenas de Roraima, liderando um grupo da UFRJ, a convite da APIR. A Revista-Documento Filhos da Terra e o Seminário Amazônia 500 Anos de Resistência Indígena e Popular, realizado no Fórum Global, Eco/92, com a participação de 28 palestrantes amazônidas entre lideranças indígenas e pesquisadores.

De 89 e 94, junto com a pesquisadora Márcia Gomes de Oliveira, documentei a luta política dos povos indígenas, acompanhando encontros e manifestações, entrevistando lideranças de todas as regiões do país, trabalho que resultou em um primeiro número da revista-documento Filhos da Terra, com lançamentos na SBPC no Recife, no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Manaus.
Realizar esses trabalhos foi um esforço no limite de nossas resistências, só possível graças a uma boa dose de ingenuidade e um ativismo movido à solidariedade que nos impelia à frente. Esse caminho solitário e independente nos revelou outra faceta desse vasto e complexo território de nome Amazônia.
É difícil caminhar, especialmente na causa indígena e ambiental, sem estar atrelado como satélite a uma grande instituição do terceiro setor. São poucas, mas de robusta estrutura, capilaridade regional, forte articulação nas esferas governamentais, boa articulação com setores da mídia que lhes da visibilidade nacional e financiamentos do país e do exterior. Cobram-te a benção, se você insiste em caminhar com as próprias pernas, colaboram para ampliar suas dificuldades.
Foi um grande aprendizado. Também nos comprovou a invisibilidade programada de homens e mulheres amazônidas que pensam a Amazônia de dentro, convivendo cotidianamente com as adversidades vividas por suas populações.
Uma região antes vista como um vazio demográfico, cujos programas de desenvolvimento e colonização sempre foram impostos a partir do poder central, em sintonia com os interesses econômicos predominantemente encastelados no Sudeste, de capital nacional e internacional.
Do Império à Lei Kandir, uma superestrutura subjuga o querer do amazônida. Assim como o racismo, esse também é um problema estrutural que precisa ser combatido e desconstruído.
Hoje somos 28 milhões que precisam ser ouvidos. Há uma enorme massa crítica e científica constituída ao longo dos anos, nas trincheiras da academia, da gestão pública, nas lutas sociais e nas artes.
Aponta soluções que harmoniza meio ambiente e sociedade, propõe caminhos inovadores, onde homem e natureza estejam integrados a um modelo de desenvolvimento inclusivo. Essa é a história que precisa ser protagonizada.
Minha percepção sobre a invisibilidade do intelectual, pesquisador e cientista que vive, pensa e estuda no território amazônico é reflexo de um sistema de pensamento global sobre meio ambiente. Pensam a partir de conceitos e alardes como crise climática, aquecimento global, fragilidade do bioma, sustentabilidade, crise energética.
Gravitam na superfície, desconhecendo as diversas amazônias, seus povos e cultura. O drama humano é secundário. Isso nos causa incômodo. Dizem-nos: precisamos salvar o planeta. A Amazônia é o mantra. Essa é a pauta das grandes corporações midiáticas.
O que se produz de conhecimento cientifico na Amazônia e sobre a Amazônia, é uma produção que nos fala com método e minúcias de dados sobre fome, miséria, espoliação, doenças medievais, surtos epidêmicos, grilagem, execuções, apropriação, infanticídio, genocídio de indígenas, uso criminoso de pesticidas, a tragédia humana nos garimpos e crimes ambientais de toda espécie.
Fala que por vezes resvala em grandes interesses econômicos. E, como sabemos, a mídia corporativa funciona como mediador, alto-falante, estilingue, suavizador de crises e porta-voz desses interesses. Um ser onipresente apelidado de mercado.
Basta observar a novela global, um excelente entretenimento, tentando incutir na cabeça da população a cotação das commodities do agro, nos dizendo cinicamente que soja e culturas extensivas alimentam o povo brasileiro e que o agro é o esteio da economia nacional.
Sabemos também que as toneladas de ouro extraídas ilegalmente não circulariam na economia mundial sem a intermediação do sistema financeiro. Outra vez o mercado e sua sensível relação com a mídia corporativa. Podemos ver os Yanomamis de Biafra, mas ninguém segue o caminho do ouro.
Estamos enredados em uma complexa teia de muitos personagens. A Amazônia esta posta no tabuleiro de interesses mundiais não apenas porque pode contribuir para o equilíbrio do clima no planeta.
Exercer protagonismo é compreender, dialogar e estabelecer parcerias com a comunidade científica do país e exterior em busca de financiamento e transferência tecnológica para fortalecer nossas instituições e centros de pesquisas.

Exercer protagonismo é identificar o capital predatório, a expansão das fronteiras do agro sobre a floresta. Combatê-los na esfera governamental, legislativa, jurídica, nas redes, nos espaços midiáticos dentro e fora do país. É ultrapassar os limites de nossa atuação e dialogar com as futuras gerações.
Exercer protagonismo é não prescindir do diálogo com outras regiões do país visando a mobilização nacional, para termos êxito em garantir as florestas e seus mananciais para futuras gerações. Não existe mobilização regional capaz de parar a volúpia do grande capital por mais acumulo de riqueza. A Amazônia é o reservatório de recursos a ser pilhada.
Não paramos Balbina, não paramos Tucuruí, não paramos Carajás, não paramos grandes projetos de mineração, não paramos Girau, Santo Antonio e Belo Monte, que nada ou quase nada deixam para o bem estar de nossas populações e ampliam o drama humano em nossas cidades e comunidades.
Kararaô foi adiada (hoje é Belo Monte) por enorme mobilização nacional e internacional graças ao levante dos índios do Xingu. Os garimpos ilegais estão sendo parados pelo impacto que as imagens degradantes dos Yanomamis e dos rios transformados em lama no Tapajós causam nos expectadores.
E sobretudo porque o Estado esta sendo lesado ao não arrecadar sobre essa evasão de riqueza e pelo pânico, similar aos da pandemia, que a contaminação por mercúrio provoca nas populações locais.
Um trem irá partir da Estação das Docas em Belém do Pará, ninguém irá embarcar como bagagem. Somos todos passageiros com nossas respectivas bagagens. Esse trem vem anunciando nove paradas, precisamos ampliar as estações. Desejos, sonhos e expectativas de autonomia não podem ser invisibilizadas e nem silenciadas. Do Tapajós estamos dizendo Presente!
Que a semente de esperança lançada aos corações por cinquenta cabeças conectadas à realidade na construção do futuro se dissemine em terreno fértil.
Que o Protagonismo Amazônida se multiplique por muitas estações, navegue por nossos rios, ultrapasse as fronteiras da Amazônia, estabeleça redes locais capazes de formular saídas, conectadas entre si e com o resto do país, em amplo esforço coletivo que supere nossas dificuldades internas e nos dê protagonismo sobre nossa história.
É preciso amplificar esse chamado.

Paulo Cidmil
Diretor de produção artística e ativista cultural. Santareno, escreve regularmente no portal JC.
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