A dicotomia do rio: desenvolvimento econômico e respeito à natureza. Por Walace Gomes Leal

Publicado em por em Amazônia, Negócios, Opinião, Pará

 A região que hoje chamamos de Santarém é o berço de uma história milenar, onde as águas do rio Tapajós testemunharam a ascensão e a resiliência de civilizações complexas muito antes de qualquer mapa colonial ser traçado.

O nome do rio é uma homenagem direta aos indígenas Tapajós, uma das maiores e mais influentes sociedades agrícolas e ceramistas do período pré-colombiano, cujo domínio e cultura floresceram em perfeita simetria com a pulsação da floresta.

Hoje, seus descendentes e outros povos tradicionais permanecem como os guardiões desse ecossistema, enfrentando agora um dos dilemas mais agudos do XXI: desenvolvimento econômico versus respeito à natureza. Precisamos encarar o fato de que a recente aprovação do Decreto Federal 12.600/25 coloca em lados opostos o desenvolvimento econômico e o respeito ao meio ambiente, além da saúde dos guardiães da floresta e de todos nós, amazônidas, que vivemos aqui.

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Do ponto de vista econômico, a urgência em viabilizar a dragagem do rio é compreensível dentro da lógica de mercado, uma vez que o Tapajós é o corredor natural para o escoamento da soja, barateando custos e fortalecendo o chamado Arco Norte. Isso é influenciado pelo motor que hoje move as decisões em Brasília e a influência da bancada ruralista e dos grandes escritórios do agronegócio.

Mas, afinal, o que é esse projeto? Em resumo, o Arco Norte é a grande aposta logística do Brasil para inverter a lógica do escoamento de grãos. Em vez de mandar a soja do Centro-Oeste para os distantes e congestionados portos de Santos ou Paranaguá, a estratégia é empurrar essa produção para cima, utilizando os portos e terminais do Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Maranhão.

Para a economia nacional, o benefício é matemático: rotas mais curtas significam fretes mais baratos e uma chegada muito mais rápida aos mercados da Europa, Estados Unidos e Ásia — especialmente via Canal do Panamá. É um sistema que tenta integrar rodovias, ferrovias e, claro, as nossas hidrovias, para desafogar o sistema de transportes do país e tentar impulsionar o desenvolvimento econômico da Amazônia.

O grande desafio, que estamos vendo agora com a crise do Tapajós, é como fazer esse corredor funcionar sem que o preço dessa eficiência seja pago pela saúde dos nossos rios e das nossas populações tradicionais. O Arco Norte é um gigante logístico que chegou para ficar, mas o seu sucesso real dependerá de quanto ele consegue ser, de fato, sustentável e respeitoso com a Amazônia.

Apesar do argumento econômico, como neurocientista e morador desta região não posso ignorar os riscos que as máquinas trazem ao revolver o leito do rio. O fundo do rio Tapajós abriga um passivo perigoso de mercúrio metálico herdado de décadas de garimpo. Ao dragar sem o uso de tecnologias de contenção de ponta, como as cortinas de turbidez, corremos o risco de facilitar a metilação desse metal. O resultado é a criação do metilmercúrio, uma substância altamente tóxica que entra na cadeia alimentar através dos peixes e ataca diretamente o sistema nervoso humano, podendo causar danos sensoriais, cognitivos e motores irreversíveis, especialmente em crianças e fetos, mas também em adultos.

Isso foi observado desastre ocorrido na Baía de Minamata, no Japão, o evento mais sombrio da história sobre como a negligência industrial pode devastar o sistema nervoso de populações inteiras. Tudo começou na década de trinta, quando a empresa química Chisso Corporation passou a despejar toneladas de metilmercúrio diretamente nas águas da baía, um resíduo silencioso que rapidamente se integrou ao ecossistema local.

O que se seguiu foi uma tragédia biológica em cadeia, onde o metal pesado foi absorvido pelo plâncton, acumulou-se nos peixes e, finalmente, chegou à mesa das famílias de pescadores que dependiam do mar para sobreviver. Os primeiros sinais surgiram de forma bizarra, com animais domésticos apresentando convulsões, seguidos por seres humanos que perdiam a coordenação motora, a visão e a fala, em um quadro clínico que hoje conhecemos como a Doença de Minamata.

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A face mais cruel desse episódio foi a descoberta de que o metilmercúrio possui a capacidade de atravessar a barreira placentária, fazendo com que uma geração de bebês nascesse com danos cerebrais severos e paralisia, mesmo quando suas mães não apresentavam sintomas graves.

Por décadas, o governo e a empresa negaram a origem da contaminação, permitindo que o despejo continuasse até o final dos anos sessenta, deixando um rastro de milhares de vítimas e um solo marinho tão tóxico que exigiu operações de dragagem de remediação extremamente complexas e caras. Este legado de sofrimento deu origem à Convenção de Minamata, um tratado internacional do qual o Brasil é signatário, e que hoje serve de base jurídica e ética para evitar que intervenções em rios como o Tapajós repitam os mesmos erros do passado, despertando o mercúrio adormecido no leito em nome do lucro imediato.

O impacto ecológico vai além da química do mercúrio. A dragagem altera a própria arquitetura do rio, aprofundando o canal e modificando a velocidade da correnteza. Ao concentrar o fluxo em um canal estreito para permitir navios de grande calado, aumentamos a energia da água nas margens, o que potencializa o fenômeno das “terras caídas”. Essa erosão acelerada pode destruir áreas de várzea, derrubar quintais produtivos e descaracterizar comunidades inteiras.

Além disso, a remoção do sedimento destrói pequenos organismos que vivem no fundo e servem de base para a alimentação dos peixes, e compromete o regime dos igapós, fundamentais para a reprodução da fauna aquática. O aumento do tráfego de grandes embarcações traz ainda o risco de poluição sonora subaquática, que desorienta espécies, como o boto, que dependem do som para comunicação e caça.

A história mundial nos oferece lições valiosas sobre os riscos e benefícios de tais intervenções. No rio South Yuba, na Califórnia, a dragagem imprudente em áreas contaminadas por mineração antiga espalhou mercúrio por todo o ecossistema, causando um desastre ambiental duradouro.

Por outro lado, o Porto de Roterdã, na Holanda, utiliza dragagens constantes para manter sua liderança econômica global, mas o faz em um ambiente já profundamente artificializado e com investimentos bilionários em engenharia de contenção que a realidade amazônica atual ainda não possui. Mesmo em casos de remediação, como na Baía de Minamata, no Japão, a dragagem só foi benéfica quando executada com um rigor científico extremo para limpar o ambiente, e não apenas para servir ao comércio.

Para resolver esse impasse, não basta apenas suspender licitações sob pressão. É preciso estabelecer um meio termo técnico e ético onde a economia não se sobreponha à vida. Um caminho viável envolve a adoção de hidrovias de baixo calado, que utilizam barcaças menores e dispensam escavações profundas nos trechos mais contaminados. O uso de barcaças com fundo chato e menor calado permite o transporte mesmo em períodos de seca, sem a necessidade de aprofundar o canal (o que revolte o mercúrio).

Portanto, ao invés de grandes navios transoceânicos subindo o rio, utiliza-se o modelo de “transbordo”, onde as barcaças levam a soja até portos de águas profundas (como o de Santana, no Amapá) para então carregar os grandes navios.

Também pode-se utilizar a sinalização Inteligente. Investir em sistemas de batimetria em tempo real e sinalização digital (GPS diferencial) para que os comandantes saibam exatamente onde estão os bancos de areia, evitando encalhes sem precisar remover o leito do rio.

Para que qualquer obra avance, a confiança só será estabelecida se houver um protocolo de biomonitoramento independente, que pode ter participação de cientistas da Ufopa. O Ministério Público Federal (MPF) sugeriu que se realize uma análise de metilação pré-obra, pois não basta medir o mercúrio total; é preciso mapear os hotspots, locais mais abundantes em matéria orgânica, onde a transformação em metilmercúrio é mais provável.

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Além disso, propõe-se a instalação de sensores de turbidez que travam a operação da draga automaticamente se a resuspensão de sedimentos ultrapassar um limite seguro, além do uso de bioindicadores por monitoramento constante da ictiofauna e das comunidades ribeirinhas locais para garantir que os níveis de mercúrio no sangue não subam durante a intervenção.

Uma análise importante é se o Governo Federal aceita alterar o texto do Decreto 12.600/25 para excluir trechos específicos que ferem os territórios indígenas ou se manterá a suspensão recente apenas como uma manobra para esfriar os protestos. O MPF já sinalizou que, sem a análise de impacto sinérgico, considerando não apenas a dragagem, mas o aumento do tráfego e o impacto social nas cidades portuárias, qualquer licença ambiental concedida pelo Ibama será judicializada e provavelmente derrubada no STF.

É imperativo que qualquer intervenção seja precedida por uma consulta livre e informada, respeitando os protocolos dos povos indígenas, e que o monitoramento químico da água seja realizado de forma independente por instituições locais.

O desenvolvimento de Santarém e da Amazônia deve ser medido não apenas pelas toneladas de grãos exportadas, mas pela preservação da integridade neurológica e cultural de seu povo, honrando o legado dos antigos Tapajós que nos ensinaram a importância de viver em harmonia com as águas.


⚀ Walace Gomes Leal é neurocientista e professor do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará); do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular (UFPA); do Programa de Pós-Graduação em Fisiologia e Bioquímica (UFPA). E da Rede Bionorte (Ufopa). Escreve regularmente no JC.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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2 Responses to A dicotomia do rio: desenvolvimento econômico e respeito à natureza. Por Walace Gomes Leal

  • O desenvolvimento econômico pela soja é grotesco e banal. É grotesco pois tudo é gigante. É banal pois as consequências são banalizadas. Na BR 163 as carretas, camionetes, máquinas gigantes ocupam a pista, as laterais, mas também o entorno das comunidades e não trouxeram nenhuma melhoria efetiva para o morador, que na maioria das vezes sofre por ter que usar uma estrada congestionada, perigosa, e ainda ser vizinho de uma plantação. É banal pois banaliza a vida seja pelo desmatamento, ou pela monocultura com uso intensivo de agrotóxicos próximo de casas, escolas ou ainda pela dragagem de um rio como o Tapajós. Enfim, os brasileiros essa região merecem outro tipo de modelo de desenvolvimento que respeite a sua moradia, o modo de vida é as leis ambientais.

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