O sojinocídio do bioma amazônico tapajowara. Por Paulo Cidmil

Publicado em por em Amazônia, Opinião, Pará

O sojinocídio do bioma amazônico tapajowara. Por Paulo Cidmil

Com o decreto 12600/2025, Lula consegue ultrapassar o limite de suas contradições. Se torna um capitão-do-mato do agro transnacional, assume o posto de presidente mais entreguista, incluindo os da ditadura. Seu decreto o torna o mais nocivo ao bioma amazônico, nem Bolsonaro fazendo continência a bandeira do EUA foi tão longe.

O decreto é de uma clareza inequívoca, ele afirma como objeto central: DESESTATIZAR os rios Tapajós, Madeira e Tocantins, para transformá-los em corredor para passagem da soja e outras commodities. O Estado brasileiro abre mão da gestão/soberania sobre um bem coletivo, fundamental para a sobrevivência de milhares de pessoas e o PRIVATIZA.

Transfere a gestão desse bem, que no Tapajós será gerido pela empresa norte-americana Cargill, quando poderão dragar seu leito, para atender empresas exportadora de grãos como a Bunge e a própria Cargill, cujo compromisso com a população amazônica e o Estado brasileiro é zero.

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É a porta de entrada para que o capital predatório penetre em nossas artérias e venham saquear nossa biodiversidade e minérios, cometendo todo tipo de crime ambiental.

Ou alguém acha que vão se contentar em ter apenas nossos rios como caminho curto para fazer mais dinheiro. Se antes o Estado era ausente, agora ele entrega e se ausenta de vez. O mercado regula. Nova lei de Lula.

Como se a Amazônia não fosse uma região estratégica para o futuro do país, como se água não fosse um bem estratégico em um futuro muito próximo, como se o ouro, abundante nos rios Tapajós e Madeira, não fosse um ativo como reserva estratégica para a maioria dos países que enfrentam guerra comercial com os EUA e buscam alternativa ao dólar.

O Partido dos Trabalhadores (PT) há muito abdicou das lutas populares. Se algum dia havia o desejo revolucionário de transformar o país, isso se perdeu nos caminhos do deslumbre com o poder.

O PT não tem programa nem compromisso com seus eleitores, tem estratégia eleitoral para permanência no poder. Não tem Estatuto, é um estamento que requer adesão absoluta da esquerda não petista e a obediência de seus filiados.

Parte de seus quadros se aburguesou, o modo de vida burguês os viciou e os acomodou. Bons salários, boa moradia, hotéis cinco estrelas, bons restaurantes e mais os penduricalhos de quem está sobre as tetas do Estado. O deslumbramento e o medo de perder os privilégios extinguiu o pensamento revolucionário do partido.

Lula é o fator de desmobilização das lutas populares e o Partido dos Trabalhadores é o gás paralisante que está soterrando a esquerda.

Hoje, esse partido, que há vinte anos se recusa a fazer autocritica, coloca a esquerda contra a parede e senta no colo do Centrão, esse agrupamento de espoliadores do orçamento e terras do Estado e do sangue do trabalhador brasileiro.

Não podemos ficar reféns de argumentos que soam mais como chantagem, nos dizendo para não causar marola, isso prejudica a reeleição de Lula. E que estamos apoiando a extrema-direita.

Não há hipótese de um eleitor de esquerda, comprometido com as causas populares, votar na extrema direita ou em um Bolsonaro. Lula e o PT sabem disso. Mas também não há hipótese de silenciar diante dessa covardia que revela um capitão-do-mato querendo ver sangue indígena.

É a juventude, que votou em Lula na última eleição, que está na trincheira contra esse decreto anti populações amazônicas, anti ambiental e entreguista.

Enquanto nos acusam de apoiar a direita reacionária, Lula assina decreto que a médio prazo determina crise ambiental no rio Tapajós, opressão dos povos indígenas e ribeirinhos com crise alimentar, crise aguda no turismo, pressão da sojicultora sobre a floresta, conflito agrário. Seu decreto soltou os demônios contra nosso povo e o Tapajós.

Melhor seria se Lula entregasse ao agro transnacional um plano safra sem juros e com bônus, a grana do BNDES sem juros, sem controle e carência infinita, isenção total de tributos, e, um “papai te ama”, dito por dona Janja. Sairia mais barato para o futuro da Amazônia e do país. Não podemos entregar à gula de empresas transnacionais nosso ativo mais precioso.

Há uma esquizofrenia em seu governo, seu discurso é de natureza social e as ações de seu governo são neoliberais. Lula joga as sobras do banquete que oferece ao grande capital ao povo pobre brasileiro. E cobra caro por essas migalhas. Quer a fidelidade do voto e o nosso silêncio. Merecem não uma marola mas um tsunami sobre suas cabeças.

A covardia de Lula não permite que enfrente os interesses do grande capital transnacional, vimos isso por ocasião da nova Lei de Licenciamento Ambiental, a 15.190/2025. Manteve-se mudo, vetou artigos e silenciou, sabendo que a bancada do agro iria derrubar.

Esbravejou aos quatro cantos que seu governo reduz desmatamento na Amazônia, promete desmatamento zero. Enquanto permite o desmantelamento das leis de proteção ambiental, sem uma firme resistência dele e de seu partido. Se acovarda ou judicializa, quase sempre via outro partido.

Lula não confia na esquerda que o elegeu, não à mobiliza para defender pautas que todos concordamos, talvez porque não a queira ver mobilizada para não questioná-lo. Prefere os acordos com os Alcolumbres, os Ciros Nogueira, os Hugos Mota, gente que odeia tudo e todos que ele ainda representa.

Me parece que o sonho de Lula seria fazer um acordo com o diabo, acho que agora conseguiu, com esse decreto que entrega nossos rios. Resta saber se conseguirá desfazê-lo e resgatar sua alma.

Não devemos ter ilusões e nem aceitar o falso dilema que esse estamento nos impõe “ou estamos com eles ou estamos apoiando a extrema-direita”. Se relutam em fazer autocritica, reconhecer e corrigir suas contradições, nós, que o apoiamos em oito eleições, precisamos fazê-la. Melhor enfrentar  o inimigo, a dormir com um, estando iludido.

Ou Lula revoga esse decreto ou decreta sua derrota eleitoral na Amazônia. Com potencial para grandes perdas, no eleitorado de esquerda, em todo território nacional.

Haverá resistência permanente, rede social cuspindo fogo, seu decreto quer destruir o que para nós é sagrado. O nosso bem-estar, a nossa paz de espirito, a subsistência e lazer, nas aguas limpas do Tapajós.


⚀ Paulo Cidmil (*) é diretor de produção artística e ativista cultural. Santareno, escreve regularmente no portal JC. Ele está no YouTube e no Instagram. Siga-o nessas plataformas! Leia também deleApós a vitória envergonhada, Zé enfrenta a hidra de 7 cabeças. E ainda: Protagonismo amazônida.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos.

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