
Já está clara a estratégia do governo federal com relação a ocupação da Cargill pelos povos indígenas do Tapajós. O governo enrola o movimento mandando representantes para ganhar tempo. Cancelar edital é coisa corriqueira, logo virão outros com pequenas concessões. Nossos rios viraram moeda de troca, com draga, cancela e logo do agronegócio, sobrenome Cargill.
Mas esse não é um problema apenas de nossos irmãos indígenas. O rio Tapajós destruído, suas águas turvas e barrentas, seus peixes contaminados por metil mercúrio, é o extermínio de um modo de vida, de uma cultura singular, rica e vibrante. Em Santarém, não somos um povo de beira de rio, somos um povo praiano. Praias fazem parte de nossa cultura, de nosso lazer, vem daí nossa ligação visceral com o rio Tapajós.
O rio faz parte de nossa identidade cultural, é determinante no que nos diferencia. Nossas praias são motivo de orgulho, elevam nossa autoestima. E é muita ave de rapina grilando as terras do Tapajós, é muita hiena babando de ódio porque não compreendem nossa maneira de viver. O que para eles é progresso, para nós é extermínio e destruição.
Os que compreendem a extensão dos danos que esse edital de privatização do Tapajós irá causar, ao entregar o rio para o controle e dragagem do agro transnacional, precisam se mobilizar e somar com a dura luta que o movimento indígena organizado está realizando.
Além de privações e desconforto, vivendo em um acampamento que pulsa vida e resistência no pátio da Cargill, eles enfrentam nas redes ataques e fakenews. Diariamente tentando minar a força do movimento, que permanece inabalável e crescendo. São muitos os Malaquias que por aqui não deveriam estar. É preciso mostrar a eles o caminho de volta.
E por falar no elemento, Malaquias Mottin, vereador eleito legitimamente com voto dos sojicultores (eles também escolhem mal). Que atentou contra a vida de um jovem indígena e vocifera impropérios contra o povo do Tapajós, é contumaz delinquente perante a lei.
- Acusado, junto com outros quatro elementos, com prisão preventiva, busca e apreensão e quebra de sigilo, em inquérito que corre em segredo de justiça: por obstruir, incentivar e liderar ação contra o Ibama em localidade de nome Chapadão, na TransUruará. O crime: desmatamento ilegal, invasão de áreas embargadas, intimidação, manipulação de informações e sabotagem para inviabilizar o trabalho dos órgãos de proteção ambiental. Configurando uma estrutura organizada para o crime.
- É réu: processo 0819408-47.2025.8.14.0051 REINTEGRAÇÃO / MANUTENÇÃO DE POSSE. 2ª Vara Cível e Empresarial de Santarém. Popularmente podemos chamar de apropriação indébita ou grilagem, pelo qual, segundo a acusação, também pode ser cassado. Os interessados podem acessar o processo.
- Entre seus negócios, além da soja, há uma fábrica de reciclagem no bairro do Maracanã, em Santarém. Onde comete crime ambiental, ao despejar a água da lavagem e resíduos dos materiais reciclados, diretamente no lago Papucu, localizado entre o Maracanã e o Juá. Se sacudir a ficha desse carrapicho do mato, sai muito mais capivara.
Nunca pedimos a sojicultora no Tapajós. Lutamos contra, houve resistência, à época Santarém ainda iniciava o processo que a consolidou como polo universitário. O MP não tinha a autonomia e os recursos que tem hoje. E não se podia imaginar, que a instalação do porto criminoso da Cargill, ameaçaria a existência do rio Tapajós.
Com a colaboração e o empenho de algumas ratazanas da terra, ávidas por intermediar as terras do planalto para os produtores de soja, enganando os pequenos agricultores e fazendo muito dinheiro. Foi assim que a Cargill se instalou sob um cemitério arqueológico dos antepassados do povo Tupaiú. Agora querem a posse do rio como parte de seus negócios.
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As dragas do garimpo, há quilômetros de distância do médio e baixo Tapajós, escavando em seus afluentes, já tornaram turvas as águas de nossas praias e paralisaram Alter do Chão. Esse destino turístico tão importante quanto Búzios, Fernando de Noronha, Canoa Quebrada, Pirenópolis, Parati, Parque das Missões e Bonito no Pantanal.
E se não houvesse mais inverno em Campos do Jordão? E se as praias de Búzios fossem contaminadas por urânio? O que seria dessas cidades e de seu povo? Alter do Chão é uma pequena cidade de quase dez mil habitantes, mundialmente conhecida, cuja economia é 100% dependente do turismo.
É através de Alter do Chão que o turismo se expande para a Flona do Tapajós e Arapiuns. Não é apenas um turismo de praias e contemplação, há os bens de consumo cultural, o rico artesanato regional, produtos manufaturados da floresta, frutos da bioeconômia e agroecologia, conceitos muito difundidos e assimilados no Tapajós.
Aramanaí, Cajutuba, Pindobal, Ponta de Pedras são vilas praianas também dependentes do turismo e da pesca. Carapanarí, Juá, Pajuçara e Maracanã são praias em bairros de Santarém, região para aonde a cidade se expande. Em todos esses lugares existem novos investimentos em infraestrutura turística, atividade econômica em plena expansão.
Dos endinheirados ao mais pobre dos cidadãos todos sentirão o golpe. Não é pouca gente, são 350 mil habitantes em Santarém. Mais a população regional de outros 10 municípios que por aqui estudam, fazem negócios e veraneiam nas praias do Tapajós.
O que fazemos com isso, presidente Lula? Que espécie de acordo o senhor fez para entregar rios dessa magnitude, depositários de tanta riqueza? Quem vota no senhor são os indígenas, os nordestinos, os negros, os trabalhadores, os professores, os estudantes, os artistas. O agro lhe puxa o tapete e sabota. Por que esse silêncio acovardado? O senhor anda fazendo promessa a Deus e acendendo vela ao diabo.
Qual a ideia que irá nos dar ministro Guilherme Boulos? Você que prometeu diálogo e ainda não veio aqui ver o que o país irá perder com esse estúpido projeto de transformar o rio Tapajós na hidrovia Tietê. Para atender um único negócio, excludente e concentrador de renda. Isso desqualifica sua história.
O que fazer ministra Simone Tebet, a senhora que é entusiasta das ferrovias e hidrovias e tem estreita ligação com o agronegócio? Poderia vir nos visitar para constatar o tamanho da vergonha ao vislumbrar o rio Tapajós. Onde iremos jogar o lixo contaminado de mercúrio das escavações da Cargill?
Para além dos direitos dos povos indígenas, consagrados em nossa Constituição e legislação, e também em tratados internacionais, há o direito das populações que residem na região e que serão direta e indiretamente afetadas.
Os povos indígenas deram o alerta, eles conhecem o mal desde os primórdios da colonização, é preciso que a população de Santarém acorde, atenda o chamado das organizações indígenas e caminhe junto com eles quando ocorrer manifestação.
Precisamos do apoio de diretores das escolas, professores e professoras, para informar nossos jovens e adolescentes o que significa a privatização e dragagem do rio Tapajós, quais os beneficiados e o que iremos perder.
A juventude tem sido a energia vital desse movimento. A juventude indígena da Ufopa precisa ir a nossas escolas conversar com os estudantes, colher assinaturas, deixar informações para que levem às suas casas, alertando pais e parentes sobre esse projeto macabro que atenta contra a vida do rio Tapajós.
É preciso se conectar com todos os movimentos sociais, redes de ambientalistas, de favelas, do movimento negro, dos atingidos por barragens, da cultura, de proteção animal. Não será na mídia corporativa que teremos plena voz. Essa denúncia precisa reverberar em todos os cantos do país.
O jornalismo independente, os artigos e manifestações qualificadas vindos dos espaços acadêmicos, estão sendo fundamentais para esclarecer a população local e o país, sobre os riscos de destruição de um ecossistema do qual dependem muitas comunidades e é base do desenvolvimento de uma economia limpa, plural, inclusiva e duradoura: o turismo.
Não basta notas de apoio da Câmara de Vereadores. É preciso uma frente parlamentar supra partidária, com vereadores, deputados, senadores, caminhando junto, se posicionando com clareza, dizendo não a privatização dos rios.
Sem oportunismos e tentativas de protagonismo. Esse protagonismo é dos povos indígenas, eles estão botando a vida entre a ganância do agronegócio e a sobrevivência do rio Tapajós.


⚀ Paulo Cidmil (*) é diretor de produção artística e ativista cultural. Santareno, escreve regularmente no portal JC. Ele está no YouTube e no Instagram. Siga-o nessas plataformas! Leia também dele: Após a vitória envergonhada, Zé enfrenta a hidra de 7 cabeças. E ainda: Protagonismo amazônida.
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