
O governo Lula assinou decreto que prevê a concessão do rio Tapajós à iniciativa privada no trajeto Itaituba-Santarém. A ideia é viabilizar uma hidrovia trabalhando a todo vapor, 365 dias do ano. O rio não terá descanso nem no período da seca. No pacote, também estão os rios Tocantins e Madeira.
Dragagem, portos, controle de fluxo. A prioridade do rio Tapajós será o transporte de commodities. Soja, milho, minério, madeira e tudo que possa ser exportado em larga escala. Um rio cheio de vida tratado como uma estrada.
O fluxo de barcaças se multiplicará por dez, lama das dragagens chegando às praias, alteração do ecossistema, redução da piscicultura, mais portos no trajeto, como já se tentou um em Porto Novo e certamente a Alcoa proporá um porto à margem esquerda para escoar minério; porões de navios e barcaças lavados no leito do rio, fuligem de soja no ar. Parece um pesadelo, mas o decreto 12600/2025 é real.
De Itaituba a Santarém habitam mais de 500 mil pessoas, em breve estarão sujeitos a um concessionário. A Bacia do Tapajós, excetuando alguns afluentes agredidos pelo garimpo ilegal no alto Tapajós, e a cidade de Itaituba em acelerado crescimento, sem saneamento e um porto graneleiro, todos fontes de poluição, é uma das bacias hidrográficas mais preservados, com florestas ainda intactas.
— ARTIGOS RELACIONADOS
Sem dúvida é o rio de maior potencial turístico de todo o território brasileiro, de águas límpidas, dezenas de praias, habitado nessa extensão alvo do decreto, por populações indígenas e ribeirinhas de uma riqueza cultural inconteste.

Como rios dessa magnitude são colocados à disponibilidade dos grandes negócios sem que haja uma distinção entre eles, sem que ocorra na região ampla discussão e sem o conhecimento da população nacional? Rios com mais de mil quilômetros de extensão entregues ao agronegócio em um pacote sinistro.
O rio Tocantins enfrenta problemas com barragens e assoreamento, necessita de intervenção humana. Recuperar matas ciliares e dragagens localizadas para viabilizar o transporte fluvial comunitário.
O rio Madeira, com grandes extensões desabitadas no estado do Amazonas, sofre com intenso garimpo ilegal, seu potencial turístico é pequeno e a logística difícil. Intensificar a navegação em seu leito pode facilitar seu monitoramento.
O rio Tapajós tem outra realidade, rico em belezas naturais, praias e florestas, seu potencial é incalculável, com fluxo turístico em franca expansão. Suas populações ribeirinhas coexistem com a floresta de onde extraem uma ampla diversidade de produtos, muitos manufaturados, de maior valor agregado.
É onde está sendo desenvolvido o conceito de bioeconômia com ampla participação comunitária, alternativa exitosa para manter a floresta em pé, com a perspectiva de produzir bens de consumo em escala comercial. A utopia possível, para um ambiente saudável, planeta equilibrado e sustentável.
Isso não é pouco e pode ser impactado para favorecer uma economia que já poluiu e destruiu em todos os biomas do país. E é de extrema concentração de renda. Ninguém virá fazer turismo no Tapajós, com os pés mergulhados na lama, para ver navios e barcaças de 100 metros carregadas de soja.
O rio está sendo visto como um ativo a serviço do lucro da iniciativa privada, lucro medido pelo volume de carga embarcada. O que fica para o povo do Tapajós? Nada! Ainda estamos sob as regras da Lei Kandir, situação que só mudará a partir de 2033 com a total implantação da reforma tributária. Isso se a bancada ruralista não aplicar uma emenda que vire a mesa.
No momento que todos estão de olho no julgamento de golpistas no Supremo Tribunal Federal, o governo Lula encontrou a ocasião para passar uma boiada. O rio Tapajós virou moeda de troca. Enfiado em um pacote com três seres vivos de realidades distintas.

Me parece ser um factoide as ferrovias com dinheiro e tecnologia da China. O verdadeiro plano desenvolvimentista do governo é para o desenvolvimento dos tubarões do agronegócio.
O pacote é completo: plano safra com juros subsidiados pagos por nós, perdão de dívidas quando algo dá errado e hidrovias como bônus para sucesso do negócio.
Agora que nossos rios sofrem com estiagens cada vez mais agudas, vislumbra-se a dragagem de seus leitos. A draga do garimpo é crime, a do agronegócio não. As duas são criminosas, do ponto de vista das populações atingidas.
O governo criou uma universidade federal cuja missão era produzir conhecimento voltado para vocação natural de nossa região, em áreas como rios, mineração e floresta. Formar profissionais capacitados para atuarem no desenvolvimento regional. A universidade vem cumprindo seu papel com enorme êxito, além de um lindo programa de inclusão através das cotas.
Profissionais da Embrapa, com campus na cidade de Belterra, município criado em 1995, como parte do plano de expansão do agro em nossa região, lamentam os mais de 40 anos de pesquisas sobre o trópico úmido e silvicultura, com participação de renomados cientistas do Brasil e exterior, mofarem por falta de investimentos. Das sete áreas de pesquisa em Belterra, restam duas, cinco foram engolidas pela soja.
O sítio de pesquisa Barreirinha/Palhão em Santarém, que pertenceu a Sudam e posteriormente foi área de pesquisas da Embrapa, agora está incorporado ao patrimônio da universidade federal. Hoje o terreno é alvo de invasões e grilagem. A falta de investimentos em equipamentos e pesquisa é crônica.
As futuras gerações vão para as universidades cheias de esperança sonhando com um futuro promissor, de oportunidades e inclusão econômica. Estão sendo enganadas. Nada está sendo feito, de forma substancial, para mudar o modelo de exploração econômica colonizador e predatório que subjuga as populações amazônicas.
Haverá trabalho para alguns, poucos, que serão convocados para aferir o leite derramado nos acordos de mitigação dos danos ambientais, como consequência da hidrovia e da cultura extensiva de soja, com seu veneno nocivo ao bioma amazônico.
O que mitigará os danos à nossa autoestima, se o sentimento de pertencimento que nos liga ao Rio Tapajós é nosso maior orgulho e nossa existência se confunde com a existência do rio?
É preciso ir para as ruas, promover grande manifestação popular. Escolas, colégios, universidades, professores, trabalhadores do comercio, donas de casa, moto-taxistas, empreendedores, empresários do turismo, profissionais liberais, funcionários públicos, jacarés e papagaios. O rio Tapajós precisa de nossa voz, ele não fala.
Muitos estão atônitos sem saber o que dizer. Como eleitor de Lula me é imperativo falar e expressar minha decepção. É preciso denunciar, cobrar, se indignar e agir.
Dizer que não queremos ir a COP30, queremos que a imprensa nacional e internacional venha ao Tapajós constatar de que riqueza estamos falando, agora subjugada aos interesses do agro transnacional por obra de um decreto com as digitais de Luiz Inácio Lula da Silva.
O rio Tapajós não pode ser parte desse pacote barganhado com o agro transnacional. Há projetos em andamento, trabalho de muitos anos, gestando o desenvolvimento de uma economia diversificada e inclusiva onde a floresta é um ativo precioso e o rio Tapajós fonte de um turismo inesgotável.
Não é nenhum sentimento nostálgico pelo que já perdemos e se foi na poeira da história, nossa saudade é de futuro.


⚀ Paulo Cidmil (*) é diretor de produção artística e ativista cultural. Santareno, escreve regularmente no portal JC. Ele está no YouTube e no Instagram. Siga-o nessas plataformas! Leia também dele: Após a vitória envergonhada, Zé enfrenta a hidra de 7 cabeças. E ainda: Protagonismo amazônida.
— O JC também está no Telegram. E temos ainda canal do WhatsAPP. Siga-nos e leia notícias, veja vídeos e muito mais.
Deixe um comentário