A vitória de Lula, a nova esquerda e o desafio do PT em Santarém. Por Isaac Lisboa

Publicado em por em Opinião, Política, Santarém

A vitória de Lula, a nova esquerda e o desafio do PT em Santarém. Por Isaac Lisboa

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2026, representa um acontecimento político que ultrapassa a continuidade de um projeto de governo. A vitória também revelou a importância de uma nova geração de lideranças de esquerda, da mobilização estudantil e da ascensão dos comunicadores digitais, que passaram a ocupar espaços relevantes na disputa política nacional.

O fenômeno merece atenção porque evidencia transformações na maneira de organizar, comunicar e participar da política brasileira.

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Essa chamada nova esquerda não surgiu da negação da trajetória histórica dos partidos, sindicatos e movimentos populares. Ao contrário, dialoga com essa tradição, mas incorpora novas linguagens, lideranças e formas de mobilização. Jovens estudantes, parlamentares, comunicadores digitais e militantes passaram a disputar ideias em espaços que ultrapassam as estruturas partidárias convencionais.

A política ganhou novas vozes, novas plataformas e novas possibilidades de participação.

O movimento estudantil assumiu posição de destaque nesse processo. A União Nacional dos Estudantes lançou a campanha “Estudantes com Lula”, mobilizando universidades, centros acadêmicos, diretórios estudantis e organizações juvenis. A participação dos estudantes demonstrou a permanência de uma tradição histórica de envolvimento da juventude nas grandes questões nacionais, agora associada a novas formas de comunicação e organização coletiva.

Ao lado dos estudantes, destacou-se a presença de comunicadores das mídias sociais, influenciadores e jovens parlamentares com expressiva atuação digital.

A campanha de Lula contou com a participação de figuras como Ana Elisa, Pedro Rousseff e Jones Manoel, entre outras lideranças que ganharam visibilidade na internet. A mobilização digital, inclusive por meio de grandes comunidades de mensagens, tornou-se uma dimensão importante da disputa eleitoral.

A grande novidade não está apenas no surgimento de novas lideranças, mas na transformação da própria maneira de fazer política. A comunicação deixou de depender exclusivamente dos discursos oficiais, dos programas eleitorais e das estruturas partidárias. Passou a contar também com iniciativas descentralizadas, conteúdos produzidos por militantes e participação direta de cidadãos no debate público.

As redes sociais, embora também apresentem riscos de desinformação e polarização, tornaram-se espaços relevantes de organização política. Seria equivocado atribuir exclusivamente a esses movimentos a vitória presidencial.

O resultado também decorreu da atuação de partidos, sindicatos, movimentos sociais, alianças políticas e eleitores com diferentes posições ideológicas. Entretanto, a visibilidade alcançada pela juventude e pelos comunicadores digitais revela uma transformação que merece ser compreendida pelos partidos tradicionais.

∎ Leia também: Helder venceu para o Senado, mas seu projeto de poder foi derrotado.

E qual é o significado dessa nova realidade para Santarém? A pergunta é especialmente relevante porque Santarém possui uma importante tradição de organização popular, participação estudantil e mobilização social. A presença da Universidade Federal do Oeste do Pará e de outras instituições de ensino superior constitui um ambiente de formação acadêmica, produção de conhecimento e debate político.

A juventude santarena participa de discussões sobre educação pública, oportunidades profissionais, desigualdade social, desenvolvimento regional e os desafios específicos da Amazônia.

Nesse contexto, merecem destaque os movimentos indígenas e quilombolas, que conquistaram expressiva presença nas lutas sociais de Santarém e do Baixo Amazonas.

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Suas organizações e lideranças atuam na defesa dos territórios, da identidade cultural, da preservação ambiental e dos direitos coletivos. Esses movimentos possuem história, legitimidade e autonomia próprias, não podendo ser reduzidos a instrumentos de
mobilização de qualquer partido político.

A força dessas organizações demonstra que a renovação da política amazônica não se resume à juventude ou ao uso das redes sociais. Ela também se manifesta na afirmação dos povos tradicionais, na organização comunitária e na defesa de diferentes concepções de desenvolvimento regional. A presença indígena e quilombola constitui parte fundamental da realidade social e política santarena.

Em Santarém, entretanto, a derrota eleitoral de Lula impõe uma reflexão profunda ao Partido dos Trabalhadores e às demais forças progressistas. A diferença entre o resultado nacional e o desempenho municipal não pode ser ignorada. É necessário compreender as razões desse contraste, as mudanças no comportamento do eleitorado e as dificuldades de articulação e comunicação política no município.

É indispensável recordar que o PT governou Santarém durante oito anos, de 2005 a 2012, com a prefeita Maria do Carmo Martins Lima. Foram dois mandatos consecutivos à frente de uma das principais cidades do Pará. Portanto, não estamos falando de um partido sem experiência administrativa, sem tradição eleitoral ou sem raízes na sociedade santarena.

O PT já esteve no centro das decisões municipais e assumiu a responsabilidade de apresentar e executar um projeto próprio de governo.

Essa trajetória torna inevitável uma pergunta: como um partido que governou Santarém durante oito anos passou a enfrentar dificuldades para recuperar seu protagonismo político? A resposta exige mais do que explicações eleitorais. É necessário examinar a organização partidária, a renovação de lideranças, a relação com os movimentos sociais e as escolhas políticas realizadas ao longo dos últimos anos.

É verdade que o PT continua demonstrando presença eleitoral na região. A eleição de Maria do Carmo para deputada estadual e a reeleição de Airton Faleiro para deputado federal confirmam a existência de representação petista na Assembleia Legislativa do Pará e na Câmara dos Deputados.

Entretanto, essas conquistas convivem com outro fenômeno que merece atenção: a expressiva votação de candidatos identificados com a direita e com setores conservadores do eleitorado santareno.

Os números ilustram essa realidade. Na eleição para deputado estadual, JK do Povão, do PL, recebeu 51.164 votos em Santarém, enquanto Maria do Carmo obteve 23.933 votos. Na disputa para deputado federal, Henderson Pinto, do União Brasil, alcançou 39.369 votos; Delegado Caveira, do PL, recebeu 30.756 votos; e Airton Faleiro obteve 8.051 votos no município, embora tenha conquistado sua reeleição pela votação estadual.

Esses resultados revelam a existência de diferentes correntes políticas com significativa presença eleitoral em Santarém. A conquista de mandatos pelo PT não significa, por si só, predominância partidária no eleitorado municipal. Da mesma forma, a expressiva votação de candidaturas conservadoras exige uma análise das propostas, dos interesses representados e das transformações econômicas e sociais da região.

Outro aspecto relevante é a presença política de setores vinculados ao agronegócio e às pautas conservadoras. Santarém está inserida em uma região marcada pela expansão das atividades agropecuárias, por disputas sobre o uso da terra e por diferentes concepções de desenvolvimento da Amazônia.

Nesse cenário, a representação de interesses econômicos relacionados à produção rural, à infraestrutura e à ocupação territorial constitui parte importante do debate político.

É necessário, contudo, distinguir o grande agronegócio da agricultura familiar, dos pequenos produtores e das comunidades tradicionais. Também não se pode presumir que todos os candidatos de direita defendam posições idênticas. A análise política precisa considerar os compromissos efetivamente assumidos por cada representante, especialmente em questões relacionadas ao desenvolvimento econômico, à proteção ambiental e aos direitos territoriais.

A questão central é compreender como o PT de Santarém interpreta essas mudanças no eleitorado e quais propostas apresenta diante delas. O debate sobre desenvolvimento regional não pode ficar restrito a posições abstratas. Envolve geração de empregos,
produção econômica, agricultura familiar, infraestrutura, preservação ambiental e respeito aos direitos indígenas e quilombolas.

São temas que exigem formulações concretas e diálogo com os diferentes segmentos da sociedade. Há, entretanto, uma questão particularmente sensível na realidade municipal. Atualmente, o PT ocupa a vice-prefeitura de Santarém, com Carlos Martins, em uma administração comandada por José Maria Tapajós, do MDB.

Trata-se de uma aliança eleitoral legítima, que deve ser respeitada. Entretanto, a participação no governo não elimina a necessidade de discutir a identidade, a autonomia e as perspectivas futuras do Partido dos Trabalhadores.

Afinal, qual é o projeto político do PT para Santarém? O partido continuará participando de uma composição liderada pelo MDB ou discutirá a possibilidade de apresentar candidatura própria, construída democraticamente com as demais forças progressistas? Essa é uma questão que merece ser enfrentada com maturidade, sem personalismos e sem transformar alianças legítimas em compromissos políticos permanentes e imutáveis.

A provocação pode ser ainda mais incisiva: o PT de Santarém pretende recuperar seu protagonismo ou aceitará ser visto como um mero puxadinho de outras forças partidárias? A expressão é dura, mas traduz uma preocupação sobre os limites da autonomia política.

Participar de uma administração não significa, necessariamente, exercer influência decisiva sobre seus rumos. Da mesma forma, ocupar espaços institucionais não substitui a necessidade de possuir propostas próprias e presença independente no debate público.

Não se trata de negar a importância das coligações. A própria trajetória nacional de Lula demonstra a relevância das alianças na construção de maiorias eleitorais e na sustentação de governos. Entretanto, aliança não pode ser confundida com subordinação, assim como participação no governo não deve significar desaparecimento da identidade partidária.

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O respeito ao MDB e às demais forças políticas é compatível com a existência de um PT organizado, independente e capaz de defender suas próprias posições.

É justamente nesse ponto que a experiência da nova esquerda nacional adquire significado para Santarém. A mobilização estudantil, a ascensão dos comunicadores digitais e a participação de novas lideranças demonstram que a organização política contemporânea não depende exclusivamente das estruturas tradicionais. A experiência convida os partidos a refletirem sobre suas formas de comunicação, seus mecanismos de participação e sua relação com as novas gerações.

O protagonismo político não se constrói apenas pela ocupação de cargos, mas também pela capacidade de formular ideias, organizar a sociedade, dialogar com diferentes setores e apresentar propostas para os problemas concretos da população. A renovação não pode ser apenas uma mudança de nomes. Precisa alcançar as práticas partidárias, a participação da militância e a maneira como as decisões são construídas.

Santarém enfrenta desafios importantes na educação pública, na saúde, na infraestrutura, na mobilidade urbana, na geração de empregos, na agricultura familiar, no desenvolvimento econômico e na proteção dos direitos das populações urbanas, rurais e
tradicionais.

É diante dessas questões que os partidos devem demonstrar sua relevância, e não apenas nas negociações eleitorais ou na distribuição de espaços administrativos.

A discussão sobre uma eventual candidatura própria do PT, em diálogo com outras forças progressistas, constitui uma possibilidade legítima dentro do processo democrático. Mas essa decisão deve resultar de uma reflexão coletiva, considerando propostas, organização, representatividade e compromisso com o futuro do município.

A autonomia partidária não se resume à existência de uma candidatura, assim como uma aliança não significa necessariamente perda de identidade.

O PT de Santarém possui história, militância, representação parlamentar e experiência administrativa. Ao mesmo tempo, enfrenta um cenário de forte concorrência eleitoral, transformações sociais e questionamentos sobre sua autonomia política. Reconhecer
essas diferentes dimensões é indispensável para uma avaliação que não se limite ao saudosismo, ao conformismo ou à celebração isolada de vitórias eleitorais.

A reeleição nacional de Lula, a derrota presidencial em Santarém, a eleição de Maria do Carmo e Airton Faleiro, a expressiva votação de candidatos conservadores, a força dos movimentos indígenas e quilombolas, a mobilização da juventude e a atual participação do PT na administração municipal são elementos de uma mesma realidade política que merece ser discutida em profundidade.

O PT já governou Santarém. Hoje ocupa a vice-prefeitura. O que pretende construir para o futuro? Essa é a pergunta que precisa orientar o debate entre suas lideranças, sua militância e os diferentes setores da sociedade.

A nova esquerda que ganhou visibilidade na campanha de Lula demonstra que a política brasileira está em transformação. Em Santarém, essa realidade encontra uma sociedade diversa, marcada pela presença de estudantes, trabalhadores, povos indígenas,
comunidades quilombolas, agricultores familiares, empresários e movimentos populares.

Compreender essa pluralidade é indispensável para qualquer projeto político que pretenda participar de maneira consistente do debate municipal.

A questão fundamental não é simplesmente saber se o PT voltará a disputar a Prefeitura de Santarém com candidatura própria, mas compreender qual projeto político pretende oferecer à sociedade, qual relação deseja estabelecer com as novas gerações e qual papel pretende exercer na construção do futuro do município.

Porque a história de um partido não se resume ao poder que já exerceu, mas também à sua capacidade de compreender as transformações da sociedade e participar, com identidade própria, dos debates que definirão o futuro.


∎ Isaac Lisboa Filho, santareno é advogado. Leia também dele: O Fundeb, a vinculação remuneratória e a responsabilidade constitucional do gestor municipal. E ainda: Terceirização e precarização: uma crítica à gestão municipal de Santarém na educação pública.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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