por Samuel Lima (*)
A revista Época reinventou o conceito de notícia em sua edição de 22 de abril de 2013: “E se fosse na Copa?”, indaga a manchete da publicação, sob a cartola em vermelho “Terror na maratona de Boston”.
Mais que um exercício de futurologia ou mera abstração de pitonisa aposentada, a revista da Editora Globo parece adotar o conceito de notícia adaptado de outro saber clássico da profissão pela jornalista Júnia Nogueira de Sá (ex-ombudsman da Folha de S. Paulo) que escreveu:
Se um cachorro morde um homem, isso não é notícia. Se o homem morde o cachorro, também não é notícia. Se o homem estivesse pagando ao cachorro por seus favores sexuais, aí sim seria notícia. Mas não seria uma notícia de primeira página. Para ser manchete, o cachorro teria de ser menor de idade e o homem deveria ter um cargo importante no governo.
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No “Abre” da matéria que supostamente sustentaria a indagação de capa, um longo e doloroso “nariz de cera”, como é chamado o lide desprovido de informação, baseado no palavrório desconexo, o popular “enrolation”, a começar pela genial definição: “O que diferencia o terrorismo do simples homicídios está no nome. Seu objetivo é aterrorizar. Nos os mortos (sic), cujas vidas são interrompidas sem que eles saibam o motivo”.
A reportagem no miolo aparece sob o título “Pode acontecer aqui?”, aprofundando a especulação sobre o território da não-notícia, ou seja, um mix de relato inexistente, acrescido de análise e interpretação sobre o futuro – que pode abrigar um sem número de eventos, inclusive o fim do mundo.
Como o foco é bater na tecla de que o governo Dilma Rousseff estaria despreparado para um ato terrorista, nas Copas das Confederações e no Mundial de futebol, passa a valer literalmente tudo. O texto pergunta e responde, ato contínuo: “O Brasil pode ser escolhido por algum grupo armado como palco de um ataque? Sim”.
E ato contínuo emplaca outra pergunta aos próprios repórteres que assinam a anti-reportagem: “O país pode garantir que um atentado, caso planejado, não aconteça?”. A pergunta, mera retórica, a rigor tem óbvia resposta mesmo no país mais desenvolvido, tecnológica e militarmente do planeta, os Estados Unidos, que foram vítimas de um novo atentado, o primeiro depois dos trágicos (e nunca explicados) acontecimentos de 11 de setembro de 2001, em Nova York.
A colunista Maureen Dowd, do jornal The New York Times analisa o trabalho da mídia nos trágicos acontecimentos recentes e afirma categórica: “A cobertura em Boston foi um tsunami de informação inútil e desconexa” (O Estado de S. Paulo, 26/04/13, p. A10). Para Dowd, “aqueles momentos de terror encontraram o ecossistema da informação num estado estranho e instável”. Na opinião do jornalista James Gleick, ouvido por Dowd, a cobertura ao vivo das emissoras de rádio e TV se mostrou inócua e, no limite, falida:
Na perseguição em Boston, jamais me ocorreu ligar a TV. A tela que eu precisava era do meu iPhone A internet é desordenada, pontilhista, ruidosa e erra com frequência. Mas se você tem uma necessidade visceral da notícia instantânea, a TV não consegue competir com ela. Os repórteres informando em tempo real na TV são um contrassenso: você não consegue coletar a notícia e apresentá-la ao mesmo tempo.
Ao contrário desses veículos eletrônicos que são tensionados pelo “tsunami de informação inútil e desconexa”, uma revista semanal como Época deveria primar pela qualidade, consistência e equilíbrio de suas reportagens. Especular e fazer ilações sobre o futuro é irrelevante e inútil, do ponto de vista do interesse público. Há clara distância entre esse tipo de “jornalismo” e a boa onda de conhecimento e esclarecimento que a instituição imprensa deve à sociedade, como sua missão-mor.
O jornalista e pesquisador Victor Gentilli observa que há “uma relação irrevogável entre jornalismo e esclarecimento”. E faz um apontamento fundamental:
O homem emancipado só pode tomar suas decisões e participar das escolhas política se devidamente esclarecido. E, se, nas sociedades contemporâneas, quem produz esse esclarecimento é o jornalismo, esse modelo será a referência fundamental sobre a qual se assentarão as atividades de crítica de mídia.
A despeito de ausência absoluta de atentados terrorista, por organizações tipificadas como tal pelas forças de segurança aqui e alhures, a reportagem de Época (ed. 22/04/13) segue ponteando velha “canção”, como arauto das oposições ao atual governo federal: “Muitas coisas (quais?) nos preparativos da Copa como da Olimpíada, já não deram certo – de obras atrasadas (outra vez sem citar quais?) e projetos cancelados (o leitor não fica sabendo quais?).
A diferença, quando o tema é segurança, é que essa possibilidade não existe. Se algo der errado, o custo pode ser a perda de vidas – e a propagação do medo”, vaticina grave.
Como uma recomendação de relatório de consultoria especializada, e supostamente amparado em fatos concretos, a reportagem termina patética, clamando: “O Brasil precisa fazer de tudo para garantir a vitória do esporte e da celebração sobre o terrorismo”.
A prática do “jornalismo de ilações e invenções”, não fundamentado em fatos, mas em especulações, tem sido objeto de crítica qualificada nos Observatórios de Mídia brasileiros. Ou como arremata Renato Rovai: “Essa modalidade de jornalismo vem sendo realizada por setores da mídia tradicional comercial brasileira. É um tipo de jornalismo que não exige jornalismo. Bastam suspeitas e alguns fatos que se encadeiem. E, claro, uma tese a ser defendida, por mais absurda que seja”. Os repórteres de Época podem entrar para o folclore do jornalismo mundial ao inventar a notícia na qual o “se” acabou virando manchete – e reportagem de capa.
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* Santareno, é docente da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB). Professor-visitante do curso de jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS. Escreve regularmente neste blog.
Fica uma pergunta ao ilustre especialista em jornalismo:
Se o presidente da República fosse do PSDB, e a Época publicando essa mesma matéria, o artigo aqui apresentado seria escrito?
E se fosse escrito, teria a mesma abordagem, ou será que trataria de cobrar do governo as ações necessárias, ao invés de cobrar a imprensa por ter feito tal tipo de reportagem?
Será que, ao invés de apontar os delírios da imprensa golpista, cobraria do governo tucano resposta ao porquê de nos ter deixado chegar à iminência de um ataque terrorista?
Concordo com o leitor que disse, que entre a imprensa golpista e a imprensa governista, não temos para onde correr…
Lendo o texto me senti um aluno aplicado. A sua lucidez é impressionante, invejável mesmo, e foi uma decisão sábia deixar para lê-lo sexta à noite. Obrigado! Confesso, sinto-me elogiado de ser seu amigo. Com admiração, receba um longo abraço AZUL,
Se ocorrer um ataque terrorista, talvez usem, em vez de bombas, as caxirolas do trio Carlinhos Brown, Dilma e Marin. Alguém precisa dar um uso para as milhares (?) de peças já feitas…
Entre o PIG e o PEG (Partido da “Emprensa” Governista), não temos para onde correr.
É a teoria do “se” contra a demagogia do pt. Por enquanto, nada está fora da ordem.
Não tenho lá essas estaturas intelectuais para comentar um texto do professor Samuel, mas não consigo conter o “pretensionismo” e dizer que este blog anda precisando de um bom debate e no momento em que se discute a nível do executivo, legislativo e judiciário regulação da mídia, nada mais oportuno.O texto chega ser pedagógico como sentimos no que diz o Sávio Carneiro, ou seja, o assunto é coisa de primeiro semestre do curso de jornalismo, naturalmente por onde os jornalistas do PIG não passaram.
Chico Corrêa
Professor,
Parabens por voltar a fundamentar o “vazio informativo” golpista da corporação do PIG.
Como se sabe a Globo sempre conseguiu “inovar”, principalmente no jornalismo golpista, a sua maior marca registrada.
Antes “editava” debates e matérias…..
Depois foi a teorização do “testando hipóteses” do cardeal Ratzinger (Alí Kamel) da rede Globo,
Agora veio a teoria do “se”.
Mas é assim mesmo que o golpismo no Brasil está se “renovando”, capacidade “intelectual” para isso não lhe falta, vide a banalização da teoria do “domínio de fato” feita por supremos analfabetos jurídicos para poder condenar politicamente sem provas.
Tiberio Alloggio
Muito oportuno esse seu artigo meu nobre, amigo e professor Samuel Lima. Estou estudando exatamente isso, a tese da tônica do “Se” neste primeiro semestre do curso de Comunicação Social – Jornalismo, no Iespes. No meu ponto de vista, também concordo que esse tipo de jornalismo, baseado em especulações é muito perigoso, pois defendo a idéia que o jornalismo puro tem que ser baseado em fatos concretos e reais.
Saudações e um abraço….