
por Cristovam Sena (*)
Como o professor e amigo Anselmo Colares, devido a presença do cantor Latino e do conjunto Terra Samba, solicitou que pensássemos sobre a festa do Çairé que irá movimentar o final de semana da cidade e da Vila de Alter-do-Chão, decidi atualizar um artigo que fiz sobre a festa ano passado e publicar aqui no blog do Jeso, atendendo a solicitação do Anselmo:
Seguindo a natureza da maioria das tradições religiosas, o Çairé perdeu força, foi se adaptando aos novos tempos e hoje mantém apenas vestígios da centenária festa religiosa, uma das mais antigas da Amazônia, já praticada pelos índios no século XVII. Hoje, guarda apenas seu simbolismo, dentre eles a presença do mastro, que na festa do Çairé de Alter-do-Chão são dois: o do Juiz e o da Juíza da Festa.
A partir de 1973, data da reativação da festa após 30 anos de paralisação, o Çairé deixou de ser organizado pela igreja católica e passou a ser conduzido por uma coordenação constituída pelos próprios moradores da vila.
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Com o passar dos anos, os organizadores decidiram introduzir algumas alterações nos tradicionais festejos do Çairé. As danças folclóricas juninas passaram a fazer parte da festa, e a data da sua realização deixou de ser por ocasião das festas religiosas de Nossa Senhora da Saúde, em dezembro, para acontecer em junho. Seu significado religioso foi adquirindo roupagem de folguedo junino.
A partir daí, as mudanças foram mais freqüentes. Não só de data (dezembro, junho, julho, setembro), mas, principalmente, de concepção. Em 1997 foi transferida da pequena praça em frente à igreja para a recém construída, ampla e abandonada Praça do Çairódromo (ainda não concluída até hoje), com direito a shows dos botos Tucuxi e Cor de Rosa, bem ao estilo dos bois de Parintins.
Trocou o S (airé) pelo Ç (airé), deixou de ser uma festa concebida e mantida pela comunidade para ser absorvida pelo poder público, ficando totalmente dependente da Prefeitura de Santarém, submissa ao erário que só às vésperas da festa começa a borrifar os R$ necessários para a sua realização. Quando chegam os artistas plásticos e os ferros velhos do ano passado “guardados” em volta da Praça são transformados em novas alegorias.
Assim o Çairé deixou de ser uma festa eminentemente cultural, organizada e conduzida pela população local – com pouco poder de atração do seu visual cênico – para se transformar em festa de entretenimento, um produto turístico que precisava de brilho para ser comercializado. O Çairé original, com todo o seu simbolismo, foi devorado pela rivalidade entre as torcidas do Tucuxi x Cor de Rosa. Tratado agora como negócio deveria gerar lucro para manter a estrutura do espetáculo, mas, pelo visto, isto não vem acontecendo.
A mistura dos botos, shows de artistas importados e as cada vez mais desprestigiadas ladainhas do Çairé, transformaram a tradicional festa da Vila num autêntico “Samba do Crioulo Doido”, criação de Sérgio Porto, saudoso Stanislaw Ponte Preta. E assim vem acontecendo há 16 anos.
Pela importância cultural que o Çairé representa, com história fartamente registrada por renomados folcloristas brasileiros, deveria ser estudada a possibilidade de desvinculá-la do festival dos botos e shows de artistas. Ela possui luz própria. Há espaço, público e calendário disponíveis em Alter-do-Chão para as duas festas, sem necessidade de se amesquinhar o Çairé. Voltaria a ser tratado como cultura popular, incentivado pelo aparato governamental, com investimentos sem fins lucrativos. Bom tema para um debate que pode ser conduzido pelo município através da Coordenação do Çairé e das Secretarias de Cultura e Turismo.
Debate que no final pode até chegar à conclusão que o Çairé deve continuar assim mesmo.
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* Santareno, é engenheiro florestal da Emater e diretor do Instituto Cultural Boanerges Sena.
O fenômeo do retrocesso cultural, se instala no nosso país de uma forma deplorável. A banalização do original é a coisa mais normal.Precisamos resgatar as belezas da tradição cultural e artística.
Óbvio está que a análise feita pelo Cristóvão é procedente e complementada pelos acréscimos do Dutra melhor se aperfeiçoam. O velho sincretismo religioso do Sairé cedeu lugar à porfia entre botos, cópia servil dos bois de Parintins e das tribos (Mundurucús X Muirapinima) de Juruti. Espetáculos midiáticos, neles não mais se vislumbram eventos essencialmente culturais e sim comerciais, a exemplo das quadrilhas juninas, aos poucos transformadas em miniaturas grotescas de escolas de samba de duvidoso bom gosto, porfiando pelo pódio. É a nossa realidade, que paulatinamente nos aparta de nossas origens e de nossas melhores tradições. Valeu Cristóvão.
A cada dia, descubro que o meu português é falho, me ensinaram errado ou estão querendo a todo custo acabar com as normas do nosso idioma. Quando minha professora me ensinou a escrever, no que tange ao “cê cedilha”, não há palavra que se inicie com a mesma, e penso eu que ela me ensinou o que é correto. O modismo que se tentou iniciar com a palavra Sairé iniciada com “ç” não é apenas uma afronta ao bom português, como também fez suas vítimas, inclusive sócio-proprietários de pontos de cultura (vejam só que irônico!). O argumento de que é uma palavra proveniente de outro idioma que não o português e portanto deve ser escrita com “ç” é fraco e inconsistente, haja vista que o idioma que utilizamos tanto para comunicação oral quanto escrita é o PORTUGUÊS. Espero que na biblioteca do distinto senhor que assina o artigo haja um bom dicionário e livros relacionados às normas-padrão de nosso idioma, e que os mesmos sejam utilizados para corrigir esse verdadeiro estupro ao bom português. Caso contrário, corremos o risco de, daqui a algum tempo, termos o nome de nossa cidade reescrito como “Çantarém”. “Çaudações” a todos.
Lembro-me d qdo o Sairé era realizado na praça…pura cultura, hoje esta esse total descaso com o povo Borari…
Égua eu me lembro também era simplesmente horrivel!!! Podemos inovar sim sem descaraquiterizar. Os botos trouxeram alma nova e muita gente!!!
Ainda bem que tu tá preocupada com a cultura, porque os Boraris só querem mesmo é saber de grana!!!! O povinho esperto aquele, não fazem nada durante o ano inteiro, chega em setembro querem tudo, se duvidar a prefeita tem que pagar até a cachaça pra eles tomarem.
Jeso, excelentes as presenças dos amigos Anselmo Colares e Cristovam Sena aqui no teu blog discutindo o Sairé, as suas transformações, as suas apropriações pelo mercado e pela grande mídia e a sua secundarização em favor de espetáculos que não dizem respeito a essa manifestação tão antiga e atual.
Essa “nova versão” do Sairé teve início depois que saí de Santarém. A única vez em que estive no Sairódromo faz um bocado de tempo, quando fui do aeroporto direto para Alter do Chão fazer uma reportagem para a Gazeta Mercantil, hoje inexistente. Já escrevi um monte de coisas sobre a festa e, numa de tantas matérias jornalísticas que fiz, eu digo que a cultura não é estática, ela muda, evolui assim como evolui a sociedade humana, afinal, não há manifestação cultural onde não há gente e onde há gente a vida se transforma com o passar do tempo.
Isso é uma coisa, outra é prostituir uma manifestação cultural em favor do mercado e do dinheiro, inventando-se coisas que não se assentam nas raízes culturais de um povo. Exemplo: O Sairé nunca foi associado a botos e, como todos sabemos, a disputa dos botos é mera clonagem da disputa dos bois de Parintins cujos introdutores foram buscar influências culturais maranhenses, onde o boi-bumbá tem o seu templo por excelência.
Os dois pontos de vista, do Anselmo e do Cristovam, a meu ver estão cristalinamente corretos. O Anselmo se insurge contra a mistura de shows privilegiados de cantores “de fora”, em detrimento do brilho do Sairé, o que por si já é uma burrice e uma estupidez dos (des)organizadores do Sairé. Seria a mesma patuscada alguém convidar meio mundo para a festa de 15 anos de sua filha e, ao mesmo tempo, chamar a Giselle Bündchen ou outra beldade para se fazer presente, rsrs. O Cristovam defende a convivência de manifestações distintas, e não a mistura. Eu defendo, por consequência, os dois pontos de vista.
E defendo, acima de tudo, que se pare de fazer burrice, se não, dentro em breve, não haverá mais nem Sairé, nem boto, nem Latino, nem nada. Do jeito que estão fazendo as coisas parece que estão apressados para acabar com a festa e, por consequência, com Alter do Chão enquanto recanto natural paradisíaco e igualmente um templo de uma das mais belas tradições amazônicas, pois, como se sabe, o Sairé existiu ao longo de quase toda a calha do Rio Amazonas até a chegada dos jesuítas, que o destruíram.
Salvemos, pois, o Sairé. Que essa manifestação seja, já no ano que vem, nitidamente separada da festa dos botos, embora ocorrendo no mesmo período do ano. Assim, veremos os dois. E que os cantores e artistas convidados tenham um momento específico para as suas apresentações. E a grande festa poderia repartir-se em três: Sairé propriamente dito, os botos e os shows. Não seria bem mais agradável assim.
Como disse o Anselmo, pensemos nisso. Pensem nisso especialmente os (des)organizadores da festa…
Um recado: Se você estiver interessado nas raízes do Sairé clique no link a seguir, que traz reportagem minhas sobre o assunto:
Sairé de Alter do Chão, cadê a festa de curumins e cunhantãs?https://blogmanueldutra.blogspot.com.br/2010/04/saire-lembranca-do-grande-carnaval.html
Moro ha seis anos aki, ja fui a alguns “Saires” e ate hoje nao vi ninguem se manifestar sobre mudancas no Festival, passa-se o ano todo e quando chega a epoca, muitos “intelectuais” surgem, e escrevem e falam e nada fazem pra mudar!Proximo ano tem de novo, e ai, vao dar as mesmas opinioes?!
Sem comentário
Desculpa,mas a escrita çairé esta errado,o certo seria “Sairé”.
O tempo moderno e a velocidade das mudanças no comportamento humano se encarregam de sufocar as manifestações culturais tradicionais como o Sairé ( O místico rito religioso das velhas gerações de Alter-do-Chão) e implantar, por forças políticas e sociais, uma “tradição” mercadológica desde a invenção dos botos rivais. Uma cópia pirata dos bois de Parintins. E com isso as atrações nacionais passam a ter lugar de destaque para a população que vai lá beber e pular sem ao menos saber o que é o Sairé em sua tradição. Se bem que o próprio povo “Borari” já se adaptou a esse novo modelo de Sairé que nem sequer reluta para que as tradições, de fato, do Sairé sejam mantidas para que as novas gerações santarenas e visitantes possam aprender sobre tão bela manifestação de um povo que vai sendo engolido pelo “bem estar” do capitalismo puro, no qual o que vale é a concorrência, a oferta e a procura. Em suma, o Sairé virou mercadoria banal. Uma grande perda para nossa identidade cultural amazônida.
ah se eu pego esse boto…. e olha que quando bóia um, eu assobio apito faço de tudo pra ele aparecer no meu quarto de noite.
A Festa do Sairé é um conjunto de eventos, a essencia deve ser cultivada senão …”Era uma vez a festa do Sairé …. ”
A Festa do Sairé pode ser uma festa simples mas que seja organizada, organizada como uma empresa sólida…deixam tudo pra cima da hora depois é um tal de vuco-vuco . Um exemplo bem claro: o rico carnaval do Rio de Janeiro, que é um espetáculo , todas a escolas de samba trabalham ininterrupitamente durande o ano todo… recebem verbas públicas mas não esperam apenas por estas, é todos que fazem parte direta ou indireytamente do show,trabalhando se dedicando pq amam ver sua escola agremiação brilhar na festa mais popular do Brasil. O povo de Alter poderia seguir o exemplo, colocar como Presidente Gerente Organizador do Sairé, gente nova (não desmerecendo os idosos mas idoso pode até ter vontade mas não tem força física pra colocar “ordem na casa “), então tem que ser uma pessoa que tenha disposição e condição de trabalhar, gente honesta que, acima de qualqure outro interesse, ame o Sairé,…. aí o resultado será inevitavelmente um verdadeiro grande espetáculo, por mais simples que seja será um show de festa ´pitoresca histórica.
Concordo com Cristovam Sena, nosso Çairé ou Sairé está totalmente descaracterizado, uma tentativa de copiar o que acontece no festival de Parintins. Não precisamos disso. É ridículo a disputa entre dois botos, pior ainda é ver que os botos têm um “tripa”, a gente não sabe se olha pro boneco do boto ou pro maluco dançando embaixo dele. Pior ainda, Latino e Terra Samba, esse último pensei que nem existia mais.
Na minha opinião, não deveria o festival dos cetáceos deveria ser banido, e o verdadeiro Çairé deveria ser resgatado. No fim, poderia até existir uma atração nacional, mas desde que sejam cantores e bandas atuais.
Só uma perguntinha pro Raimundo Junior, quando era aquele Sairé sem graça que acontecia lá na frente da Igreja de Alter ele assistia aquilo tudo até o fim??????
A festa estava tão decadente e desinteressante que duvido muito de que alguém ia pra lá ver danças folclóricas. Hj tu observa a quatidade de pessoas que vão nesse dia pra lá, hotéis e pousadas todos ocupados, todo mundo faturando seu dindin, Só quem perde mesmo é a Prefeitura, que investe dinheiro sem retorno nenhum, pois o povo de lá é só venha nós, só eles que ganham!!!
Latino é um show a parte, irreverente e muito animado, Terra Samba é bom também!!! As pessoas querem se divertir.
Só criticas não levam a nada!!! Caso viesse um artista caro iam falar do mesmo jeito!!!
Essa história de Sairé (com Ç) está igual ao que atualmente chamam de “paralimpíadas”. Sobre a segunda palavra lí algo escrito pelo professor Pasquale Cipro Neto, classificando de verdadeiro estupro da línga portuguesa.