
A 2ª Vara do Trabalho de Santarém (PA) definiu uma nova data para a audiência inicial da ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) contra a Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará). O caso foi revelado em primeira mão pelo JC.
O processo judicial apura denúncias de que a instituição se tornou um ambiente tóxico para o trabalho, marcado por assédio moral e adoecimento em massa. A sessão acontecerá de forma totalmente virtual na próxima quinta-feira (28), às 09h10.
O reagendamento ocorreu a pedido do próprio MPT, que protocolou uma petição informando a impossibilidade de comparecimento do procurador que atua no feito na data original.
Audiência una
O despacho, assinado pela juíza titular Nagila de Jesus de Oliveira Quaresma, determinou a realização de uma “sessão UNA” (audiência principal que visa concentrar os atos do processo), transmitida por meio de um link na plataforma Zoom, gerado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8).
— ARTIGOS RELACIONADOS
A ação judicial, que ganha peso por ser assinada em conjunto por 5 procuradores do Trabalho, expõe uma rotina de terror psicológico que se estenderia há mais de 5 anos na universidade.
Depoimentos coletados pelos investigadores revelam um cotidiano de perseguições, humilhações e uso de xingamentos no ambiente acadêmico. Servidores relataram ter virado motivo de piada e sofrido agressões verbais com termos como “folgada”, “piranha”, “lésbica”, “doente” e “maluca”.
A gravidade do clima de trabalho não se limita à sede em Santarém. A crise atinge também campi do interior, como Alenquer e Juruti, que chegaram a ser classificados em depoimentos como “terra de ninguém”.
Impacto na saúde e o silêncio da Ufopa
As consequências dessa hostilidade contínua refletem-se diretamente nos prontuários médicos da universidade. Documentos oficiais anexados ao processo mostram que, entre janeiro de 2022 e junho de 2025, os trabalhadores da Ufopa acumularam mais de 23 mil dias de afastamentos.
Mais da metade desse tempo fora de serviço foi causado por transtornos mentais e comportamentais, incluindo depressão profunda, ansiedade e síndrome de burnout. O saldo mais trágico aponta que, das 11 pessoas aposentadas por invalidez nesse período, 7 tiveram suas carreiras interrompidas definitivamente por problemas psiquiátricos.
Apesar dos dados alarmantes, a investigação do MPT critica duramente a postura de proteção adotada pela direção da universidade. Segundo a denúncia, a gestão demonstra agir com a preocupação principal de “não macular a imagem institucional da Ufopa de forma desnecessária”, negligenciando o combate severo aos agressores.
Em um dos episódios investigados, um profissional de psicologia da própria instituição teria minimizado o sofrimento de uma vítima, aconselhando-a a buscar “outras atividades para ocupar a cabeça”.
Esse cenário consolidou o medo entre os servidores. Os trabalhadores relatam receio de denunciar, sentimento agravado pela ineficiência dos canais internos de apuração. O processo revela que, entre 2023 e 2025, a Ouvidoria da Ufopa recebeu 26 queixas consideradas gravíssimas sobre violência psicológica e assédio, mas abriu apenas 11 processos formais.
Além disso, a demora para a conclusão dos casos chega a uma média de 250 dias, prazo que viola substancialmente o limite legal de 120 dias. Testemunhas também apontaram que os sistemas de controle interno, incluindo a comissão de ética, chegam a ser instrumentalizados para fins particulares e de retaliação contra quem denuncia.
A defesa da universidade
Chamada a se manifestar no processo, a Ufopa defendeu as medidas que tem implementado internamente. A universidade argumentou à Justiça que aprovou recentemente uma nova política de prevenção voltada ao combate da violência e discriminação.
Além disso, a instituição destacou que tem promovido palestras educativas, distribuído cartilhas de conscientização e mantido o oferecimento de atendimento psicológico aos servidores, garantindo que sua ouvidoria cumpre ativamente o papel de triagem e mapeamento de riscos.
O JC mais perto de você! 📱
Gostou do que leu? Siga nossos canais e receba notícias, vídeos e alertas em primeira mão:
Sua dose diária de informação, onde você estiver.
Deixe um comentário