
A decisão do juiz eleitoral Wallace Carneiro de Sousa, que determinou a quebra do sigilo bancário de figuras políticas em Itaituba (PA), não mira apenas o topo da chapa majoritária. A devassa autorizada pela Justiça estende-se ao braço legislativo da coligação. Ela foca em um padrão contábil intrigante: candidatas a vereadora pelo Avante que receberam recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e destinaram fatias expressivas aos mesmos fornecedores investigados.
De acordo com a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) que embasou as medidas do magistrado, 6 candidatas do partido receberam cotas de R$ 20 mil cada em recursos públicos.
Os autos do processo (AIJE) revelam que várias delas direcionaram quantias vultosas à empresa A da Silva Lopes Ltda (nome de fantasia Papel & Cia).
A gráfica pertence a Adriana Lopes, candidata a vereadora pelo PL, que também figura na lista de investigados que tiveram sigilo quebrado. Vania Sousa, por exemplo, utilizou R$ 12,5 mil — o equivalente a 62,50% de suas despesas de campanha — apenas na empresa de Adriana. Marcia Santos pagou R$ 10.650,00 à mesma fornecedora.
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Ambas também receberam doações de material gráfico oriundas da chapa majoritária.
O rastreio determinado pelo juiz para o período de agosto a novembro de 2024 busca elucidar exatamente esse fluxo financeiro e a atuação de interpostos. O pente-fino inclui o repasse feito por outra candidata investigada, Graciane dos Santos Oliveira (Ciane da Churrascaria).
Ela destinou R$ 20.349,00 à empresa Wasley K O da Silva Serviços para a aquisição de bandeiras e adesivos. O repasse foi feito sem o detalhamento adequado exigido pela legislação eleitoral, impossibilitando a aferição exata do que foi produzido — fato que justifica a quebra de sigilo do representante da empresa, WasleyKessiley Oliveira da Silva, citada nominalmente na decisão judicial.
Em outro flanco, a candidata Keila Quaresma (igualmente investigada) declarou o uso de R$ 14,2 mil em despesas genéricas com “atividades de militância e mobilização de rua”.
O que chamou a atenção da acusação e sustentou o deferimento das medidas probatórias pela Justiça foi o contraste interno no próprio Avante.
Candidatos do Avante que não receberam recursos do Fundo Eleitoral — como Emilly, Janaina Gentil, Junior Dourado e Valdir Silva — simplesmente não contrataram a empresa de Adriana Lopes.
A coincidência sugere que a gráfica aliada foi sistematicamente escolhida para concentrar e escoar os recursos públicos exclusivamente daqueles que tiveram acesso ao FEFC, o que configuraria a “circulação atípica” e a “pulverização de valores” mencionadas pelo juiz ao autorizar o aprofundamento das investigações.
| Nome / Empresa | Papel na Eleição | Votos em 2024 | Recursos Recebidos (FEFC / Doações / Repasses) | Observações da Investigação |
|---|---|---|---|---|
| Wescley Tomaz Silva Aguiar | Candidato a Prefeito (Avante) | 25.811 (Não eleito) | R$ 458.000,00 | Recebeu R$ 400 mil via PL e R$ 58 mil via Avante. O valor representou 70,10% de sua receita. |
| Vania Sousa | Candidata a Vereadora (Avante) | 94 (Não eleita) | R$ 20.000,00 (FEFC) + R$ 4.235,00 (Doações) |
Doações em material gráfico oriundas da chapa majoritária. Repassou R$ 12.500,00 à Papel & Cia. |
| Márcia Santos | Candidata a Vereadora (Avante) | 406 (Não eleita) | R$ 20.000,00 (FEFC) + R$ 3.335,00 (Doações) |
Recebeu doação de material da chapa majoritária. Repassou R$ 10.650,00 à Papel & Cia. |
| Ciane da Churrascaria (Graciane Oliveira) | Candidata a Vereadora (Avante) | 309 (Não eleita) | R$ 20.000,00 (FEFC) | Direcionou R$ 20.349,00 à empresa Wasley K O da Silva Serviços sem detalhamento adequado. |
| Keila Quaresma | Candidata a Vereadora (Avante) | 820 (Não eleita) | R$ 20.000,00 (FEFC) | Declarou gasto de R$ 14.200,00 com despesas genéricas de “militância de rua”. |
| Emilly, Janaina Gentil, Junior Dourado e Valdir Silva | Candidatos a Vereador (Avante) |
Emilly: 1.091 (Eleita) Jr. Dourado: 821 (Eleito) Valdir: 413 (Eleito) Janaina: 105 (Não eleita) |
R$ 0,00 (FEFC) | O processo ressalta que estes candidatos NÃO receberam FEFC e NÃO contrataram a gráfica investigada. |
| Adriana da Silva Lopes / A da Silva Lopes Ltda (Papel & Cia) | Candidata (PL) e Fornecedora | 606 (Não eleita) | Mais de R$ 303.551,50 em faturamento de campanhas | Recebeu R$ 280.401,50 da campanha de Wescley e fatias de até 62,50% das verbas das candidatas a vereadora. |
| Elenildo Almeida Silva / E A Silva Negócios Ltda | Fornecedora Investigada | – | R$ 80.000,00 | Contratada para produzir vídeos, mas tem “Construção de edifícios” como atividade principal. |
| Alexandre de Souza Anaisse | Terceiro Prestador | – | R$ 25.000,00 | Recebeu pela mesma rubrica de “produção de vídeo” já paga à E A Silva, gerando duplicidade. |
| Wasley K O da Silva Serviços | Fornecedora Investigada | – | R$ 20.349,00 | Contratada pela candidata Ciane sem especificações completas de material. |
| A L L dos Santos Confecções | Fornecedora | – | R$ 4.650,00 | Contratada para fazer 280 bandeiras a seis dias do pleito; nota emitida às 23h. |
| Jocelmo Menezes Silva | Locador de Veículo | – | R$ 5.000,00 | A anuência do contrato foi registrada uma semana após as eleições, levantando suspeita de contrato fictício. |
✔ Sobre esse caso, leia também: Gráfica de aliada e construtora ‘fajuta’: as empresas no centro do novo escândalo eleitoral em Itaituba.
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