por Vicente Malheiros da Fonseca

A Companhia de Fiação e Tecelagem de Juta de Santarém (Tecejuta) foi oficialmente inaugurada em 10 de novembro de 1951, no bairro da Prainha. Seu fundador, o japonês Kotaro Tuji, proprietário também da Casa Boa Esperança, foi um pioneiro e idealista do cultivo da juta na Amazônia.
A Tecejuta era uma das primeiras fábricas da cidade, que gerou empregos e marcou época. O empreendimento despertou a atenção até do Presidente da República, Getúlio Vargas.
Além de Tuji, diretor-gerente, integrava a diretoria Elias Ribeiro Pinto, pai do jornalista Lúcio Flávio Pinto. Meu avô Vicente Malheiros da Silva era membro do conselho fiscal.
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No dia do lançamento da pedra fundamental da fábrica, em dezembro de 1952, meu pai Wilson Fonseca (maestro Isoca) compareceu e me levou para assistir ao evento tão importante para a vida da cidade. Eu tinha um pouco mais de 4 anos de idade e me lembro como se fosse hoje. Foi uma festa.
Muitos anos depois, já como juiz do trabalho substituto, em Santarém, julguei vários processos trabalhistas em que a empresa funcionava como parte demandada. O preposto era o Sr. Lahire Cavalero e o advogado o Dr. Silvério Sirotheau Corrêa.
Um fato engraçado envolve o barbeiro santareno Pedro Santos, um dos autores da bela valsa “Pérola do Tapajós”, composta em parceria com Wilson Fonseca, e letra de Felisbelo Sussuarana (1935). Pedro “Cauauá”, como conhecido, além de flautista e compositor, tinha uma barbearia na Av. Presidente Vargas, em Belém, quase esquina com o prédio dos Correios e Telégrafos, e desfrutava da fama de estar sempre atualizado sobre tudo que ocorria em Santarém.
Foi ele que raspou a minha cabeça quando me tornei calouro pela aprovação no vestibular de Direito. Em certo dia, alguém, que tinha passado nos Correios, ali perto, entrou na barbearia e foi logo contando a novidade, que acabara de ouvir pela transmissão do sistema de fonia da ECT: “Pedro, tu já sabes da última lá de Santarém”?
Ele respondeu: “conta aí, amigo”. O sujeito, então, imaginando que estava trazendo alguma notícia inédita, proclamou: “está pegando fogo no depósito de juta do Tuji”. E o Pedro, interrompendo o corte de cabelo de um cliente, não sem antes bater o pente e a tesoura, respondeu, calmamente: “não te preocupa, pois já apagaram o fogo!”.
Todos ficaram atônitos e imaginaram como era possível o barbeiro saber disso tudo? Ora, o Pedro Cauauá, pessoa extraordinária, sempre estava mais atualizado do que todo mundo a respeito das coisas que aconteciam na terra querida. E não era conversa de barberia…
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Que história interessante é esta da tecejuta, pois 28 anos após a inauguração da fábrica eu nasceria no munícipio de Monte Alegre e ainda tive a grata satisfação de ver meu avô plantar a então sonhada juta, o que não obteve sucesso não sei dizer o por quê? Mas quem sabe mais da história pode dizer si em meados da década de 80 a fábrica ainda funcionava a todo vapor? E mesmo com todas essas situações posso imaginar quantas pessoas sustentaram suas famílias trabalhando nessa fábrica, é uma pena que não sobrou quase nada que pudesse contar de maneira mais clara a história desse grande empreendimento que foi para Santarém, uma época onde muitos ganharam e o augi da produção da juta chegou a representar 30% da economia do Estado do Pará. Que tempo bom foi esse, e quem sabe algum historiador não conte algo mais pra nós aqui no blog.