O caso do dinheiro enterrado

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por David Marinho (*)

No “Ramal dos Coelhos”, na comunidade do Cucurunã, próximo à Santarém, morava com sua humilde família um cidadão que tinha fama de ser preguiçoso. Por causa desse comportamento, apelidavam-no de “Mané-preguiça”, mas ele nem se importava e levava tudo na brincadeira, até por que vivia quase sempre molhado, ou melhor, “melado” da água que passarinho não bebe…

poteE sempre que seu vizinho e compadre passava para seu roçado em frente de sua casa, gritava: – Compadre “Mané-preguiça”! Vamos trabalhar, cabra!!!

Mas o “Mané-preguiça”, deitado em sua “baladeira” armada no beiral da casa de forno, coçando gostosamente no punho da rede um bicho-de-pé que cultivava carinhosamente para esses momentos de lazer e prazer, respondia:

– Trabalhar nada, compadre! O que é meu vem em casa…

E o impressionante é que sempre alguém lhe dava alguma coisa pra comer com sua família, e assim passavam-se os dias com aquela provocação de alguns vizinhos que o condenavam pela falta de iniciativa para o trabalho…

Certo dia, de tanto dormir, “Mané-preguiça” acabou tendo um sonho que uma “alma penada” que tinha morrido de tanto trabalhar, queria lhe dar um pote de dinheiro que não teve tempo de gastar.

E estava enterrado ali por perto dentro da mata. No sonho, a tal “alma penada”, ex-muito trabalhadora, lhe deu todas as coordenadas, dizendo que a 666 passos em linha reta do fundo do cemitério da comunidade, e a 13 passos para a esquerda, se encontrava a sua riqueza. Mas ele não poderia contar a ninguém, senão o dinheiro macumbado desapareceria.

Então “Mané-preguiça”, acordado do sono e do sonho, deu uma espreguiçada paidégua quase gritando com uma câimbra que deu na batata da perna, mas mesmo assim foi lá dá uma olhada no tal dinheiro enterrado.

Cavou sem pressa no local indicado e verificou que realmente tinha um pote de barro com manchas de limo e que ao abri-lo, estava cheio de moedas de ouro, mas como o pote era grande, não se encorajou de levá-lo, pegou uns punhados de moedas e cobriu novamente o pote.

Com preguiça de conferir o dinheiro na mão, mandou seu filho ir à casa de seu compadre para que este lhe emprestasse uma máquina de contar dinheiro em moedas. Na hora o compadre não tinha essa máquina, mas curioso e abestalhado pelo desaforo, já que pensou:

– Porra! Eu que me mato trabalhando não tenho dinheiro, e esse vagabundo preguiçoso tá esnobando riqueza!?

Prometeu que no outro dia emprestaria. Então veio a Santarém e emprestou a máquina de um comerciante judeu amigo seu que já ficou curioso com a “pulga atrás da orelha”, e foi levá-la ao preguiçoso, mas antes colocou cola de resina de “breu” no fundo para que colasse alguma moeda para confirmar a veracidade do fato.

Quando “Mané-preguiça” devolveu a máquina, o compadre percebeu que ficou realmente uma moeda de ouro colada no fundo. Interessado e movido pela ambição, foi conversar com o compadre preguiçoso, “jogando verde pra colher maduro”, e descobrir aquele milagre acontecido com quem não merecia.

Depois de vários dias tentando descobrir onde tinha a riqueza, “Mané-preguiça” sem ambição acabou contando o lugar do pote de ouro ao visitante, que logo a seguir foi no local, cavou, e realmente lá estava a boca do pote, mas ao abrir não viu moeda alguma, e sim, um enxame de “abelhas africanas assassinas” que zuniam e começaram a sair e a lhe ferroar.

Assustado fechou o pote rapidamente e puto da vida achou que o “Mané-preguiça” estava com sacanagem e tinha lhe aprontado uma boa pegadinha…

Então lhe veio imediatamente uma idéia de vingança. Desenterrou o pote, que era pesado pra caramba, e com muito esforço o levou na cabeça para a casa do “Mané-preguiça”, chegando ao casebre, lá estava o “Mané-preguiça” embalando em sua rede, se aproximou silenciosamente e jogou o pote com raiva embaixo de sua rede, dizendo:

– Aqui está teu tesouro compadre!!! E saiu correndo para fugir das abelhas africanas.

Mas ao jogar o pote, este quebrou jorrando e tilintando moedas de ouro para todos os lados, fato que ao olhar para trás, o deixou boquiaberto não acreditando naquilo que via.

“Mané-preguiça” sentou-se na rede e gritando agradeceu ao compadre que se afastava correndo, dizendo:

– Obrigado compadre! Não tinha trazido ainda, por estar indisposto e achar que era muito pesado!!!

O compadre sumiu no ramal sem entender nada e sem moral para voltar, deixando o “Mané-preguiça” embalando em sua rede, só que agora com um pé se empurrando no monte de moedas de ouro e o outro coçando seu bicho-de-pé de estimação…

Moral da estória: Muitos serão chamados, mas poucos escolhidos. E nada podemos fazer contra aqueles que nascem com cu virado pra lua… Bom trabalho!

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* É projetista e gestor ambiental.


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2 Responses to O caso do dinheiro enterrado

  • Da para comparar com a situação de desemprego que assola o mundo em decorrência da substituição dos homens pelas máquinas. Na nova ordem capitalista, só quem se aprimorar, ou seja se especializar nas áreas das mais recentes tecnologias terá chance de ter um emprego, e mesmo assim vai ter que ter muita sorte mesmo como o mané preguiça, porque mesmo que os trabalhadores concorrentes a uma vaga sejam os bam bans da área, apenas um será escolhido, o resto que se vire… Essa é a Nova Ordem Mundial Capitalista.

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