Apocalipse

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por Sérgio Freire (*)

Sérgio Freire - Blog do JesoO amor morno é o pior dos amores. O amor frio se mostra, o amor quente se consome. Mas o morno… O beijo é bom, bate o ponto do afeto, mas não tem projetos para o futuro. O amor morno é um burocrata. O sexo é protocolar.

Não é ruim, mas não é como já foi nem é como merecemos. O amor morno é um amor acomodado. Dá pra viver com ele pro resto da vida? Dá. Mas a pergunta é: por quê? Pra quê? Viver no amor morno pode ser um sinal de desistência do amor pleno.

É amor de IBGE, de censo. ‘Você ama? Sim ou Não? Amo, sim. Bota aí, moço’. Pronto. Aparece nas estatísticas, como as pessoas que mal assinam o nome e aparecem como alfabetizados. São mesmo analfabetos funcionais. É isso: o amor morno é não-amor funcional. Parece que é, mas não é.

Viver no autoengano do amor morno é uma escolha. Uma das piores escolhas para quem um dia sentiu frio na barriga, mãos suadas, coração saindo pela boca. É muito pouco amor o amor morno. Ninguém merece ficar em banho-maria nos afetos…

Antes fosses frio ou quente, mas porque és morno vou te cuspir da minha boca. Palavra da salvação!

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* Amazonense, é escritor, professor doutor e tradutor, além de blogueiro. Escreve regularmente neste blog.

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4 Responses to Apocalipse

  • Excelente comentário mesmo, Válber Almeida!
    As pessoas insistem em aplicar rótulos ou definições para tudo! O rótulo limita, aprisiona, diminui!
    Basta pensar na complexidade do ser humano para concluir que nós somos um eterno ponto de interrogação…tudo é subjetivo, portanto, nada é fechado, definitivo, absoluto.
    São as nossas experiências, as nossas vivências, que nos vão mostrando o que é melhor ou mais confortável para cada um. Mas, infelizmente, insistimos em aceitar os “padrões” impostos e o resultado é o que se vê…o TER prevalece sobre o SER e há cada vez mais gente frustrada no mundo!
    Já dizia, sabiamente, Albert Einstein: “A mente que se abre a uma nova idéia, jamais volta ao seu tamanho original”

  • Excelente comentário, Walber Almeida! Há tantas pessoas definindo o que é o amor, dizendo como é o amor verdadeiro, que só se ama uma vez na vida, que só se ama uma pessoa e não várias ao mesmo tempo…. etc. Muitas são levadas pelas histórias como de filmes românticos, que mostram como é o “amor padrão”. Padrões são nocivos, porque pessoas que pensam diferente precisam agir como todas as outras pra não serem mal vistas pela sociedade, gerando frustração e infelicidade… Que cada um viva o amor da forma que sentir melhor… e sem rótulos.

    1. É nisso que acredito também, Marissol, as receitas padronizam, e nem sempre são padrões elevados, e a infinitude que há em nós acaba sendo enjaulada em cárceres simbólicos que nos frustram e nos traumatizam…

  • Uma vez, em minhas andanças pela boemia de Belém, caçando bares, de madrugada, onde pudesse tomar a última e encontrar alguém para bater um papo descontraído, sem enfeites intelectuais sobre a vida, fui parar num dos cabarés da zona do meretrício do centro da cidade. Conheci uma das mais antigas prostitutas do pedaço, que era a própria dona do cabaré. Como não havia quase ninguém, ela se sentou comigo na mesa e ficamos batendo um bom papo até quase amanhecer. Lá pelas tantas, perguntei para ela sobre o amor, sobre quantos homens ela amou na vida etc. A resposta dela: “amei todos os homens que passaram por mim. Todos eles eu busquei fazer feliz, mesmo que por um instante, mesmo que por poucos minutos ou poucas horas. Foi assim que eu aprendi a amar, foi assim que eu aprendi a me sentir amada, foi assim que eu cultivei o amor no destino que eu escolhi para mim”. Não gosto muito de me meter neste papo de autoajuda, mas resolvi compartilhar meu contraponto com o colega. Eu o respeito e o admiro, mas vejo em seu texto mais uma das tantas receitas sobre o que é ou não é o amor, destas que apenas tornam problemáticas o modo como as pessoas se relacionam com o mundo e consigo mesmas, destas que dificultam seu autoconhecimento e suas descobertas emocionais, sexuais e morais. A não ser que queiramos passar pela vida e viver as relações através de experiências puramente abstratas, estas fórmulas não ajudam muito. Todas as relações afetivas podem ser grandiosas, sejam elas efêmeras ou perenes. Há relações efêmeras que transformam as pessoas, que enobrecem e constroem; há relações perenes que paralisam e que destroem; há pessoas que se fortalecem com o sofrimento; há aquelas que se tornam reféns e viciadas na química das paixões. No entanto, tudo isso, dor, tristeza, amargura, sofrimento, alegria, sorrisos, carinhos, amores, paixões etc. faz parte da grande epopeia humana, do modo de ser da humanidade, da humanidade que reside em nós. Ninguém precisa temer se machucar, ninguém precisa temer sofrer porque tudo isso é bom, faz parte do crescimento e do amadurecimento das pessoas. As nossas grandezas residem tanto nos estados de graça quanto nos estados de dor, na alegria e na tristeza. Quem há de negar que a dor não é grandiosa, que a solidão não é grandiosa, que o sofrimento não é grandioso? Desde Jung, não é mais possível acreditar que os sentidos estão no mundo: somos nós que atribuímos sentido ao mundo, à vida, às relações e às experiências. Receitas que insistem em dizer que certas experiências são grandiosas e outras pequenas, que ditam as normas de como as experiências devem ser sentidas, interpretadas e compreendidas pelas pessoas apenas empobrecem o universo simbólico humano, repositório de infinitas possibilidades e infinitas formas de dotar de sentido estas experiências. As cadeias sempre limitam e torturam o prisioneiro, e isto vale para o espírito humano quando se prende a grades simbólicas. Certa vez, o boxeador Emile Griffith apanhou de uns brutamontes ao sair de uma boate LGBT nos Estados Unidos. Ele era bissexual e ficou famoso por ter matado um de seus adversários após uma sequência de 19 socos em 12 segundos. Em sua biografia ele revela: “Continuo a perguntar-me como tudo isto é estranho. Mato um homem e a maioria entende e perdoa. Sem vergonha, amo um homem e essas mesmas pessoas consideram que é um pecado imperdoável. Embora nunca tenha ido para a prisão, passei na prisão toda a minha vida”. Relembrando o pouco conhecido poeta Karl Marx: não precisamos destruir as flores que enfeitam as cadeias, mas sim destruir as cadeias para que as pessoas possam correr pelos campos e apanhar as flores vivas. Deixemos que o amor se reconcilie com a liberdade, um precisa do outro, nós precisamos dos dois e somos melhores quando rompemos com as grades.

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